Lembranças Utópicas
Lembro-me como se fosse hoje…
Lembro-me das tardes em que eu chegava exausto do trabalho, estressado com as exigências do patrão ou reclamações dos clientes. Mas tudo passava quando a encontrava no portão, me esperando com um sorriso no rosto.
Lembro-me das minhas pernas bambas e da alegria repentina ao ouvir você dizer: “Bom dia querido. Você vai ser papai!”
Lembro-me das noites em que você preparava algo pro jantar enquanto eu colocava o bebê pra dormir, cantando aquela música que você adora. Em seguida, enquanto eu lavava a louça, você tirava um cochilo em frente à TV. Era sagrado! Então a levava em meus braços e a colocava pra dormir também. Ainda cantarolando aquela mesma música.
As 2h da manhã o bebê nos acordava e você saía “pisando duro”, resmungando alguma coisa, mas era maravilhoso ver a expressão materna em teu rosto ao abraçá-lo e dizer: “A mamãe já chegou”. As 4h ele nos acordava novamente. Agora era minha vez de niná-lo, enquanto velava o teu sono.
Pela manhã, acordava com o toque dos seus lábios nos meus. Em seguida você ia trabalhar. Eu saía logo depois, assim que deixasse o bebê na creche.
Lembro-me também dos finais de semana em que recebíamos nossos pais. Você ficava louca com as travessuras do nosso filho e eu com os comentários da sua mãe. É… Isso nos rendeu boas brigas de casal. Mas a reconciliação era certa. Era impossível deixar o dia acabar sem que antes fizéssemos as pazes.
Lembro-me do nosso esforço para que conseguíssemos matricular nosso filhão em uma faculdade particular. Passamos bons apertos financeiros, mas valeu a pena. Tudo graças a você, minha fortaleza.
Nunca me esquecerei do dia em que perdi o emprego e voltei cabisbaixo pra casa, preocupado com nossas contas. Como sempre, você me recebeu no portão, e ao perceber minha angústia apenas me abraçou. Não era preciso me dizer nada. Naquele momento percebi que tudo daria certo. Bastava estar com você.
Lembro-me de como era engraçado observar a sua implicância com as namoradas do nosso filho. Eu dava boas risadas e me lembrava do nosso tempo, quando eu ia à sua casa e aturava a implicância da sua mãe.
Lembro-me ainda do casamento do nosso “bebê”. Ao olhar pra você, com a maquiagem borrada pelas lágrimas que desciam, lembrava-me também de quando nos casamos. Você estava linda. Eu realmente era um homem de sorte. Também não me esqueço do porre que seu pai tomou. Foi uma piada.
Lembro-me dos seus cuidados para comigo. Do chazinho com torradas que você deixava ao lado da minha bengala enquanto eu assistia a algum filme na TV. Eu já não conseguia mais acompanhar as legendas. Meus olhos já não eram mais os mesmos. Mas isso não me impedia de lhe contar o que aconteceu no filme até então, pra que você pudesse continuar a assistir ao meu lado.
Lembro-me das noites frias em que eu acordava e a encontrava descoberta. Eu me levantava cambaleando de sono e pegava aquele velho edredom costurado que mais parecia uma colcha de retalhos, já bem surrada pelo tempo. Então lhe cobria, com cuidado pra não acordá-la, e lhe dava um beijo no rosto. Ao me deitar novamente, ouvia sua voz, bem fraquinha, como de quem acabara de acordar, dizendo: “Eu te amo.”
Um susto. Escuto buzinas e motores. Estou parado no sinal aberto, obstruindo o trânsito das 18h. Enfim… Estou de volta ao mundo real.
Ainda hoje me pego com lembranças de uma vida não vivida. Lembranças utópicas.
Acabo de chegar à minha casa. Ninguém a minha espera no portão.
Teriam sido lembranças de uma vida perfeita se você tivesse existido.
























