Leviatã

Por Rodrigo Novaes de Almeida

“Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre.” George Orwell (1903-1950)

Faz frio. O céu está nublado. Do calçadão de Copacabana, largo o meu olhar no horizonte. O mar cinzento me faz pensar num monstro gigante, daqueles de lendas antigas. Sempre que me perco na contemplação do mar sou levado a outros mundos. São mundos impossíveis, mundos dos sonhos. Talvez um deles exista em algum lugar ermo da nossa galáxia. Ou em outra galáxia, em um planeta repleto de monstros imaginados pelos homens da Terra. Seria assim: nós, homens, vivendo num pequenino planeta azul localizado no braço de Órion, subúrbio da Via Láctea – este é o nosso endereço, para quem não sabe –, imaginamos os monstros que, na verdade, são habitantes de um planeta de uma galáxia qualquer do Universo. Claro que monstros eles são para nós. Lá eles são os terráqueos, ou aquáticos, vá saber. E talvez imaginem igualmente assombrações horripilantes com duas pernas, dois braços, um tronco, uma só cabeça. Uma só cabeça, imagina! E dedos. Que horror! Dez dedos nas mãos, para quê? E como se não bastassem, outros dez, em miniaturas, nos pés. Eca, dizem eles. Seres assim não podem existir. Baita imaginação a nossa de criar monstros assim. O Universo seria ainda mais estranho do que já é se existissem. E cá estamos nós, pensando o mesmo deles. Leviatãs, unicórnios, quimeras, minotauros, George W. Bush. Certo, acabo de estragar a crônica, logo agora que estava ficando agradável perder tempo lendo-a. Mas toda a digressão introdutória foi justamente para se chegar a este nome, George W. Bush, embora não seja ele ainda o tema desta crônica. É que estou lendo, nesses dias, um livro chamado Blackwater – A ascensão do exército mercenário mais poderoso do mundo, do jornalista norte-americano Jeremy Scahill. Normalmente eu não escrevo sobre um livro antes de terminá-lo, contudo, abri uma exceção. Caro leitor que desperdiça seu tempo comigo, pára de me ler, corra para a livraria, compra o livro e leia! Dou um aperitivo, caso não tenha me obedecido: “Em menos de uma década, a Blackwater saiu de um pântano na Carolina do Norte para se tornar uma espécie de Guarda Pretoriana da ‘guerra global ao terror’ movida pela administração Bush. Hoje, ela tem mais de 2,3 mil soldados particulares operando em nove países, inclusive dentro dos Estados Unidos. Mantém um banco de dados com 21 mil ex-agentes e soldados das Forças Especiais [...]” Além de aviões, helicópteros, campos de treinamento, divisão própria de inteligência. É um exército particular que presta serviços, controlado por um megamilionário da extrema direita cristã chamado Erik Prince. Com cerca de quinhentos milhões de dólares em contratos com o governo dos EUA, age no Iraque, Afeganistão e outras partes do mundo. Um outro trecho diz assim: “Tropas particulares são quase uma necessidade para os Estados Unidos, empenhados em manter um império em declínio. Pense em Roma e em sua crescente necessidade de mercenários. É o mesmo que acontece hoje nos Estados Unidos.” Mais adiante o autor cita Michael Ratner, presidente do Centro de Direitos Constitucionais: “Essa espécie de grupo paramilitar lembra os camisas-marrons dos nazistas, que funcionavam como um mecanismo de sanção extrajudicial com direito de operar, e que na verdade operava, fora da lei. O emprego desses grupos paramilitares é uma ameaça extremamente perigosa aos nossos direitos.” Eu já ia fechar o livro e parar de copiar, mas o começo do parágrafo seguinte me fez voltar atrás. “O que se mostra particularmente assustador no papel da Blackwater” – escreve Jeremy Scahill – “numa guerra que o presidente Bush chamou de ‘cruzada’ é que os principais executivos da companhia seguem uma agenda voltada para a supremacia cristã.” Paro por aqui. Agora, imagine um mundo no qual exista um exército particular, que não está submetido a nenhuma lei, militar ou civil, controlado por uma elite fanática, capaz de tomar de assalto o maior império da história, que já vem agonizando há alguns anos (e o momento não poderia ser mais oportuno, com a crise econômica se alastrando pelo mundo, após o desastre irresponsável no setor imobiliário norte-americano), e colocar em perigo todos os preceitos de democracia e liberdade do Ocidente? Tudo bem que democracia e liberdade não são, na prática, lá essas coisas, mas um EUA totalitário seria pior do que qualquer Leviatã imaginado ou sonhado que jamais existiu, nem daquele e nem naquele planeta de uma galáxia distante lá nos confins do Universo. Se bem que o Leviatã deles seria a gente, o que, em certa medida, é bem razoável. Mas voltando ao tema, afirmo com todas as letras que a leitura de Blackwater é obrigatória para se entender melhor o mundo de hoje e de daqui a pouco. Então, depois, não diz que eu não avisei… E agora regresso para os meus mundos imaginários, volto o meu olhar para o horizonte cinza e me perco num mar de sonhos e reminiscências. Embora eu tenha dúvidas se não é a nossa realidade mais cinzenta do que a paisagem lunar que contemplo hoje neste dia nublado e frio.

PS.: Apesar de esta crônica ter sido escrita em 2008 e Barack Hussein Obama estar no poder dos EUA hoje, a ascensão desse exército privado permanece em marcha e as guerras pelo petróleo continuam. Esse livro deve ser lido.

1 Comentário

  1. É Verdade .0s EUA são um grande leviatã ,e os peixes pequenos somos nós,países do terceiro mundo,e países mulçulmanos com vasta reserva de petróleo.

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