Merleau-Ponty e o problema do”Cogito” Cartesiano
De acordo com Merleau-Ponty, a tarefa do fenomenólogo é a de reencontrar o contato com o mundo, dando-lhe um estatuto filosófico. Sua tarefa é descrever e não explicar ou analisar, tarefa essa que já havia sido estabelecida para a fenomenologia desde Husserl, que a denominou “psicologia descritiva”.
Dessa forma, surgem as afirmações que vão terminar em uma crítica ao pensamento cartesiano e moderno em geral, pois ao afirmar a necessidade de um reencontro com o mundo, através do retorno “às coisas mesmas”, o que se faz é uma desaprovação da ciência, entendida como interferência do “sujeito” sobre a natureza (objeto).
Se o ponto de partida do “Cogito” cartesiano (Eu penso, logo existo) é a cisão, ou separação, entre sujeito e objeto, a proposta de Merleau-Ponty é a superação dessa cisão, que dominou o cenário da filosofia moderna, de Descartes a Kant. Esse último tentou uma superação dessa dicotomia, mas ainda é herdeiro da mesma, uma vez que entende a razão com a reguladora, em última instância, do conhecimento. Sob tal perspectiva, não se pode aceitar nenhuma coisa como existente sem que antes haja um sujeito que exista primeiro. É necessário que haja um sujeito pensante para que se possa dizer sobre a existência de algo, do contrário não se pode afirmar nada. Até mesmo as representações científicas, segundo as quais “existimos no mundo”, são sempre incompletas e dependentes, pois subtendem um mundo “em torno do sujeito” ou um “sujeito dentro do mundo”.
Para Merleau-Ponty, permanece o problema da separação entre o sujeito e o objeto. Faz-se necessário ultrapassar esta forma de pensar. Sua proposta é chegar a uma filosofia da síntese, não uma síntese no sentido de somatória, mas uma síntese que compreenda sujeito e objeto como partes constituintes do processo de conhecimento, sem a necessidade de uma cisão. Enquanto no “Cogito” há uma necessidade de distância entre sujeito e objeto, Merleau-Ponty aponta para uma irremediável aproximação, onde não há um separado do outro. No “Cogito”, não há espaço para a existência do outro. O outro se torna algo sem importância. Por isso, a “minha” existência nunca pode se reduzir à consciência que tenho de existir.
A existência do mundo não pressupõe a existência de um “eu” a analisá-lo, o mundo existe antes de qualquer análise. Qualquer apreensão particular do mundo não o descreve em sua totalidade. Dessa forma, uma percepção particular do mundo não é um feito totalmente isolado, pois o simples fato de existirem consciências, pressupõe uma possibilidade de comunicação entre as mesmas. Uma “apreensão do mundo” é tão autêntica quanto a outra, nenhuma consciência “existe” mais do que as outras.
É neste ponto, segundo Merleau-Ponty, que reside o problema da análise cartesiana, pois ela ignora o problema do outro e toma uma experiência particular do mundo como a condição para a existência do mesmo. Onde está o erro? Está no fato de que o cogito procura se colocar dentro de uma subjetividade invulnerável, esquecendo-se, de uma forma até ingênua, de que toda reflexão parte de algo irrefletido, sendo ela mesma uma mudança de estrutura da consciência, cabendo-lhe reconhecer que, para além dela, há um mundo que é dado ao sujeito. Por isso, Merleau-Ponty funda a sua filosofia na corporeidade. “Somos, a princípio, corpo; só depois vamos verificar se somos algo mais.”
Assim, para a fenomenologia, o “cogito” cartesiano fica sem um lugar no mundo, pois se a realidade das percepções estivesse apenas fundada na coerência interna das representações, ela seria sempre duvidosa e hesitante. O “cogito” afirma que há um sujeito interior e um objeto exterior: o primeiro pode ser levado ao engano pelo segundo. No entanto, através de uma perspectiva irrefletida, anterior à reflexão e, portanto, anterior ao “cogito”, não pode haver engano, pois ainda não há juízo. Do ponto de vista irrefletido não há ilusão. O mundo não é aquilo que “eu penso”, é aquilo que eu vivo e todo pensamento sobre o mundo é posterior ao próprio mundo.
O papel da fenomenologia é, segundo Merleau-Ponty, dar a unidade que rompe com a separação entre sujeito e objeto e é em nós mesmos que encontramos esta unidade e o seu verdadeiro sentido.
Bibliografia:
DESCARTES, R. Discurso do método. São Paulo: Nova Cultural, 1983. (Col. Os Pensadores)
MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
Imagem: “Par de sapatos”, Vincent Van Gogh. “Se existe o sapato, existe o mundo.”



























