Milena Martins no Página Cultural

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Milena Martins é contista e poeta. É autora dos livros Palácio de Pedra (Litteris, 2006) e Promessa Vazia (Multifoco, 2010, no prelo). Cursa mestrado em Literatura Brasileira, pela UERJ, é contralto, ambidestra, hipermétrope e metaleira. Já colaborou com O Bule, a Artilharia Cultural, a Letras et Cetera (entre et ceteras diversos). Já desenhou retratos pra vender, já foi vocalista de banda de metal. Pela internetosfera, é mais conhecida por seu alter ego muito mais interessante Victoria Page, que bloga compulsivamente em http://oraculosdosoculos.blogspot.com. Quando recebe e-mail em imutavelaleivosia@hotmail.com, ela jura que responde. Vamos ao primeiro texto.

Do Grito

“Porque há o direito ao grito.
Então eu grito.”

(Clarice Lispector)

Eu tinha chorado quando ele veio.
Da primeira vez que eu o chamei, ele saiu rasgando as paredes da garganta. Bateu nas paredes de limo verdescurecido sobre as pedras lisas. Eu vi suas ondas reverberando no ar e morrendo em ecos tardios pelo escuro. Nenhuma luz acompanhava o som que ele trazia e que era a essência de sua chegada. Porque era tudo muito negro. E havia o escuro aqui e havia a luz meio azulada do desconhecido mostrando sua presença lá fora. E havia um feixe claro ao longe e havia o escuro aqui. O silêncio e o escuro. E a gota líquida que descia das frestas infiltradas pela água que rachava caminho no teto de pedra fazia seu bater ritmado no chão úmido de pedra. E cortava o silêncio como o desconhecido rompia o escuro. E era o silêncio. E era o esquecimento. E o esquecimento, o escuro e o silêncio. E depois do silêncio, ele voltou. Seus ecos tardios reverberando de novo. Agudos, cortantes, altos, prolongados. Ele voltou negro, sangrando, cravando seu desespero gris nos tijolos de pedra, o chão liso de pedra, pedra no teto e no chão, pedra nos olhos de pedra limosa, úmida, endurecida.
E havia o escuro aqui. Porque era tudo muito negro. Tudo o que eu via – a cela, as grades de ferro, as pedras, o tempo de minutos iguais, a gota luminosa surgindo na fresta do teto para despir-se em som desaparecendo no escuro. E caía. E era só escuro e silêncio. A cela – ar azulado do claustro. E ele ainda reverberava em ecos tardios como uma voz conhecida, porque eu o tinha chamado e ele tinha vindo e desaparecido e voltado e sumia, sumia, e sumia. E eu o queria de novo porque tinha gostado muito daquela presença de som e de esperança no escuro. E eu o queria encontrar de novo, porque estava perdida no escuro. E era tudo muito negro e muito azulado e era tudo de pedra e de claustro e de sonho e o sonho era mau e eu era só e o só era escuro. E eu o queria de novo. E sozinha de novo, de novo chamei.
Da segunda vez que ele veio, cuspi pedras. E as pedras se chocaram nas paredes de pedra. E eu vi seus estilhaços de pedra brilhando no escuro. Da segunda vez, as pedras saíram arrancando sangue das paredes da garganta e o sangue pintou as paredes, verdes de limo, de vermelho também. E o vermelho brilhou e sumiu. Da segunda vez que eu o chamei, ele veio também, e também gritou e também sumiu. E depois voltou também e também ecoou e também sumiu.
E no escuro eu lembrei. Enquanto ele gritava comigo nas paredes de pedra do escuro eu lembrei. Só então eu me lembrei. De lá de fora e das ruas e da fumaça azul dos dias grises e das manhãs cinzentas do meu mundo e do lixo e das moscas e do pavor e dos mortos e das noites sem estrelas e dos carros e dos morros escurecendo no horizonte e das nuvens pesadas enegrecendo os morros que escureciam no horizonte.
Só então eu me lembrei.
Daquela casa e da chuva que eu não queria que terminasse e do grito que não saía e do medo e do medo que era muito e ainda maior porque eu não sabia gritar. E quando ele veio eu me lembrei, lembrei que eu me escondia e que eu sabia que eu precisava me esconder e que eu trancava as portas e as janelas e que eu não conseguia respirar de medo e não comia de medo e não queria mais viver porque era tudo um grande medo mas tinha medo de não viver. E me lembrei que só queria dormir e que não podia dormir e me lembrei que mesmo assim eu me deitava na cama e me encobria com o lençol e enrolava a cabeça e apertava os pés contra a coberta e puxava e puxava e puxava muito e sentia relaxarem os músculos naquele esforço e sentia as pernas descansarem e sentia que eu queria dormir. E sentia, quando ele veio eu me lembrei que eu sentia, muita saudade do tempo em que eu podia deitar e descansar e dormir. Mas nunca lembrei, nem mesmo quando ele veio, o que era que fazia eu não poder mais dormir agora que tinha tanto medo e me escondia naquela casa de cantos sujos e corpos amontoados lá fora e moscas lá fora e chuva lá fora.
E quando ele veio eu me lembrei de tudo o que eu não tinha me forçado a esquecer e lembrei tanto e tanto e de tanto eu me lembrei quando ele veio que me lembrei que eu descansava esperando a dor e me escondia fugindo da dor. E essa lembrança doeu quando ele veio. Essa lembrança foi o que mais doeu quando ele veio.
E ele gritava comigo quanto mais eu lembrava e ele sabia e eu sabia que eu só me lembrava porque ele estava comigo. E quando ele veio e enquanto ele esteve comigo gritando e cuspindo pedras nas paredes de pedra do escuro, enquanto ele esteve comigo eu me lembrei. Que eu tinha feito todo mundo acreditar que eu era feliz. E do medo e da chuva e das moscas lá fora, voando por cima dos corpos.
E quando eu o chamei de novo e ele veio, quando ele veio de novo, reconheci que ele era uma voz conhecida, reconheci que era a voz de alguém e reconheci, quando ele veio eu reconheci, que ele era a minha voz que gritava no escuro. E ele gritava porque eu gritava e reverberava e ecoava e sumia e voltava e repetiarepetiarepetia e sumia e eu o chamava e ele voltava e eu queria gritar e ele vinha quando eu gritava porque ele era o meu grito. E eu me lembravamelembravamelembrava, tanto lembrava de tudo aquilo que não me forcei a esquecer, tanto lembrava e lembrava e lembrava que lembrei, quando ele veio eu me lembrei. Das batidas na porta de madeira podre da casa escura e suja e do meu desespero calado e que eu balbuciava alguma oração já esquecida e que eu talvez ainda soubesse na hora do medo. Eu lembrei que eu não queria que me achassem e que eu me escondi num canto escuro e o dia era escuro e chovia e eu gostava porque chovia porque eu gostava da chuva e eu queria que a chuva nunca parasse porque o medo nunca parava e eu sentia, ali, presa naquele canto escuro, calada do medo que nunca parava, eu sentia o corpo todo tremer e sentia o coração tremer em mim e sentia que tremia dentro de mim um grito contido tinha muitos anos, um grito que eu não conseguia soltar e que era o único capaz de me trazer liberdade. E eu lembrei que havia relâmpagos rompendo o escuro e havia o silêncio e o escuro. E então eu lembrei de um som e o som era a porta derrubada e o som era de passos e os passos vinham até mim e eu sabia que aqueles passos não podiam me achar e eu sabia que tinham me achado e que eu não queria isso e eles vinham e vinham e eles andavam rápido e eram fortes e repetidos e então pararam. E quando pararam era junto de mim.
E quando eu o chamei de novo e ele veio e eu vi que ele era um berro guardado e que era o meu berro e que me arrancava da garganta o sangue que as pedras que eu cuspia levavam no ar, quando eu vi que ele queria sair de mim como eu queria sair de mim, quando ele veio e eu me vi nele, só quando ele veio eu me lembrei.
Que havia braços, sim, braços sem corpos me carregando pelos braços. E que havia medo e corpos e moscas e lixo e carros e morros e horizontes e negro e que era escuro, era muito escuro, e que era frio e eu queria dormir. E quando ele veio eu me lembrei. Que eu senti meu corpo arrastado pela sujeira dos tapetes e depois pelas pedras duras e depois pelos corpos e depois pelas ruas e pela pedra lisa e pelo úmido e pelo frio da cela em que o meu grito vem me libertar.

Conto do livro Promessa Vazia, a ser lançado pela Multifoco Editora este ano.

Milena Martins - Contista e poeta é autora dos livros Palácio de Pedra (Litteris, 2006) e Promessa Vazia (Multifoco, 2010). Cursa mestrado em Literatura Brasileira, pela UERJ, e bloga em Oráculos dos Óculos.

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9 Comentários

  1. Seja bem-vinda ao Página Cultural.

  2. Que a sua trajetória seja longa e ‘grávida de palavras’. HG

  3. A epígrafe, boa escolha. Texto bem lispectoriano. O jogo de palavras e sentidos, metamorfoseando a si própria, chocante, Milena! Gostei muito, parabéns. Rita de Cássia Amorim Andrade – escritora.

  4. Ao Página Cultural, obrigadíssima pelo espaço!

    Homero e Rita, agradeço pelos comentários. É sempre recompensante saber que um dia algo que escrevemos tocou alguém.

    Um grade abraço a todos!

  5. Lindo, lindo, lindo!

  6. Eu que não sei fazer o papel gritar por mim, grito como sei. Mas você, ah você sabe bem! E é sempre lindo ler “você”, e esses sentimentos que coloca no papel.

    Victoria vai dominar o mundo (virtual)!

    Beijos minha querida!

  7. “Hello, Vivi. So glad to see you, my friend”.

    Na verdade, Vi, a minha vida está constantemente prendendo o ar. Seria inútil soltá-lo se a voz não sai. E eu sei que nasci um profundo silêncio. Pra dilacerar a garganta já é tarde. Então, calejo as mãos…

    Se Victoria Page não dominar o mundo virtual, pelo menos as paradas de sucesso ou os obituários dos anos 20 ela já dominou! =P

    Kisso-te.

  8. Oiiiii

    Li o livro e amei. Estava no lançamento, aliás eu estava trabalhando lá rsrsrs…bjus parabéns linda sucesso!

  9. Olá, Alyne.

    Obrigada pelo carinho (e pela ótima recepção no lançamento). Agradeço muito por você ter gostado do livro, é sempre bom saber quando algo que escrevemos agrada e toca alguém.

    Um abraço carinhoso.

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