Monumentos Ingênuos da Roça

cavalo

Segundo Cristina Freire, no seu livro Além dos mapas, a origem da palavra “monumento” significa fazer lembrar (monere); para a autora , os monumentos visam a permanência da memória. Assim, ser grande não garante a monumentalidade de uma obra, tornar-se monumento significa pertencer a uma memória coletiva, ser reconhecido por uma audiência espontânea , que lhe garante importância e admiração.
Por isso, para conhecer monumentos é necessário viver na cidade e partilhar seu imaginário.
Mesmo morando há pouco tempo na cidade, penso ter descoberto alguns de seus monumentos, que se não apresentam nenhuma grande ousadia de linguagem , esbanjam reconhecimento e admiração por parte de uma população acostumada com imagens confortantes e idílicas.
O primeiro que conheci foi uma enorme estátua de boi em frente a uma loja de produtos para criação de animais. Tal monumento ocupa a vaga de dois carros ( de possíveis clientes), e parece deixar claro que alguma intenção estética se sobrepõe ao interesse comercial. Todos os transeuntes do bairro Tubalina desfrutam do escultural boi , com representação naturalista, testículos evidentes e olhar lânguido para o cerrado que não está mais lá.
Descobri , com ajuda de uberlandenses, outras obras que podem ter sido confeccionadas pelo mesmo artista (anônimo): um cachorrão na Avenida Rondon Pacheco , um cavalo e um touro na Vila Country.
Descobri também que boa parte da população reconhece esta estatuária rural, utilizando–as muitas vezes como pontos de referência na cidade.
E eu, que adoro Bernini e odeio a Cow Parade, devo confessar que admito certa importância de tais monumentos, que me fazem lembrar, no mínimo, que Uberlândia é uma cidade com temperamento rural.

boi

Luciana Arslan - Artista e pesquisadora, reside em Uberlândia, onde é professora do Departamento de Artes Visuais da UFU e responsável pelas ações educativas do Museu Universitário de Arte de Uberlândia-MUnA.

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3 Comentários

  1. Eu me retiro desta camada da população acostumada com imagens confortantes e idílicas.

    Estes monumentos estão localizados no bairro Tabajaras e não Tubalina.

  2. Dos “para-sempre-vaqueiros do Camaru e os nunca-Vaqueiros Londrinos, a Agenda deste Final de semana 16/04 ornamenta tuas reflexões…MUUUUUUU para quem não gostar : )

  3. Adorei o texto e sua descoberta!!! Seria bom se a cidade mantesse seu “temperamento rural” e não o substituísse por uma temperamento mídiatico pop, ou rural-pop, sertanejo-pop ou qualquer coisa “modernete” sem sentido nenhum…Eu faço parte desta população acostumada com imagens confortantes e idílicas, eu gosto muito de pinturas de paisagens por exemplo, panoramicas do cerrado, as do Assis Guimarães são lindas. Pensando bem eu prefiro as imagens idílicas as muitas ridículas que vejo por ai. Adoro seus olhares!

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