No céu com diamantes
O exército azul correu por entre fileiras de barrancos feitos de chocolate e pedaços de avelã, acompanhando o sargento. Explosões e gritos, seguidos de fogos de artifício coloridos, eram agora barulhos tão constantes que ninguém mais se assustava. O sargento mancava de uma perna, mas não soltava a bazuca nem a munição pesada que o fazia coxear. Alguns sentiam muito medo. Aviões de pirulitos sobrevoavam as casamatas e mandavam napalm de caramelo quente por cima de tudo. Um soldado viu seu amigo ser coberto e cozido pelo caramelo quente, em seguida viu outros soldados azuis esperarem o caramelo esfriar e devorarem de uma vez o que antes tinha sido um amigo. Depois arrotaram em conjunto e continuaram a batalha. Enquanto o sargento explicava o plano de ataque contra o maldito exército vermelho, um tanque de alcaçuz que mandava mísseis de gelatina entrou pela frente da cabana. Enquanto alguns ainda se recuperavam do susto, o sargento, mesmo coxeando a perna machucada, conseguiu lançar uma granada de chocolate granulado dentro do canhão do tanque. Assim que explodiu, o tanque garantiu alimento por mais algum tempo. Todos os soldados sabiam da importância do sargento ali com eles. Era ele, não eles, que ganharia a batalha contra o odioso exército vermelho. Tudo o que ele dizia dava certo. Todos os planos arriscados e suicidas tinham o sargento como o principal fator para assegurar sua eficiência. Era o mais experiente deles, por isso o mais respeitado. Os soldados agora sabiam o que e como fazer. Montaram equipes de ataque e correram para seus postos, um a um. O sargento perdia muito sangue, mas não entregaria a batalha. Tinham conseguido tomar aquela área com muito custo, levando muitas vidas preciosas junto. Era uma questão de honra manter o exército azul ali, mesmo que custasse a vida de todos eles. Ele sabia que os reforços não demorariam mais. A ponte de waffer que havia sido destruída já estava quase concluída. Ele imaginava os aparatos bélicos que esperavam apenas a ponte ser liberada para atacar. Tanques de casquinha, canhões de sorvete, labaredas de chantili. Imaginava a surpresa que teria o exército vermelho ao ver a vitória escapar-lhes pelos dedos finos e pequenos das mãos. Enquanto imaginava e sorria, o sargento do exército azul não viu o sargento do exército vermelho se esgueirar pela trincheira de chocolate, acompanhado de dois batedores experientes. O sargento vermelho, vendo que seu inimigo divagava, não teve dó, mesmo sabendo que ambos deveriam ter a mesma idade, no alto de 10 a 11 anos, sacou de sua bower de menta e abriu, de orelha a orelha, a garganta do sargento do exército azul. Depois limpou a calda de morango da faca na calça e fincou mais uma bandeira vermelha na terra escura que parecia chocolate meio amargo. Abaixou-se e esperou pelos outros soldados azuis que voltariam para buscar o sargento. Sua arma, repleta de balas de goma, chiava para poder cantar no peito do inimigo. Não conseguia esconder a satisfação estampada no sorriso: mais um pedaço de chocolate havia sido conquistado.
Por Stefano Robert
Ilustrador do Projeto Reticere
Projeto Reticere - Stefano Robert (publicitário) e Gleuber Militani (escritor), fazem parte do Projeto Reticere: Projeto Reticere.
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Já dizia Rousseau: ” O homem nasce puro…a sociedade que o corroi”…ótimo conto.Parabéns!