Nosso ópio não é mais o mesmo!

bola

Por Alessandra Leles Rocha

Sempre houve quem dissesse que o futebol “é o ópio do povo brasileiro”, o anestésico potente para aplacar as dores do corpo e da alma desse povo tão sofrido. Mas ao que tudo indica, de tanto usar não se tem mais o mesmo efeito!

É! Em pleno ano de Copa do Mundo e a amarelinha não desperta o mesmo furor. Em ano regido pela bola era assim: as emoções se voltavam para os preparativos desde o primeiro minuto de janeiro. A vida no país se guiava pelos compassos da bola; nem os Jogos Olímpicos desencadeavam tamanha expectativa. O Brasil era pleno em verde e amarelo e o futebol era arte, genialidade esculpida na malandragem dos pés, para de fato nos inebriar e entontecer.

Mas, o girar da grande esfera talvez tenha nos feito provar mais desencantos do que encantos, decepções esportivas que macularam nossa vitalidade torcedora. Os heróis canarinhos não mais se preocupam com o peso da responsabilidade de trazer felicidade fugaz aos milhões de heróis verdadeiros desse país; vestir o manto sagrado não lhes representa muito diante do ofuscante brilho dos contratos milionários no estrangeiro – a seleção não é mais a grande vitrine e nem a maior aspiração.

A vida por sua vez não nos poupou dissabores. O cotidiano ainda é duro e temos que “matar leões” a cada alvorada. Tão poucas as chances de explodir em genuína felicidade brasileira e essa falta de oportunidades foi secando o veio dessa sensibilidade e nos tornando mais frios e céticos para lidar com os revezes da vida.

O somatório das mazelas lapidou esse novo perfil brasileiro, com ares de precaução e certo desinteresse pela euforia produzida pela Copa. A mídia sim tem se esforçado bravamente para ascender os ânimos, mas parece desconectada da realidade em questão: nosso ópio não é mais o mesmo! Descobrimos a duras penas que a lucidez é o melhor remédio aos que pretendem sobreviver. Que ser brasileiro é bem mais do que noventa minutos, do que a pipoca, do que a reunião de amigos, do que as bandeirolas, do que o grito de gol,… O futebol passou a ser simplesmente esporte, não mais a tabua de toda a nossa salvação.

Ilustração: http://3.bp.blogspot.com/_kPFLPZF3eqc/Szi8e1a9fCI/AAAAAAAAA5E/Ti2na6dIbGM/s400/futebol-brasileiro.jpg

Alessandra Leles Rocha - Natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).

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