O Brasil premia a ignorância
Em várias ocasiões somos obrigados a discordar da máxima que a “voz do povo é a voz de Deus”. Penso que Deus não concordaria com a premiação de alguém que nem sequer entende o signo que traz tatuado na pele. Mesmo presente em várias culturas anteriores ao Nazismo, a suástica derivou no símbolo de uma das maiores degradações do ser humano, mancha na história da civilização. Se o grande vencedor da 10ª versão do reality show “Big Brother Brasil” a traz estampada no corpo, mesmo sem saber apregoa valores da prática hitlerista que aterrorizou o mundo.
A intenção deste texto, no entanto, não é fazer julgamento de valor. O brother-mor do programa global algum mérito deve ter por abocanhar o prêmio. A única justificativa plausível para isso é o fato de o programa ser um grande jogo e aquele que saiu vitorioso ser um bom jogador. Nessa perspectiva, de jogar pra ganhar, sem estar desprovido de dissimulações essenciais à jogatina, talvez o vencedor tenha feito por merecer.
A questão é o que está por trás de um resultado como esse. O jogo provoca comoção e envolvimento em nível nacional. E é neste nível que reside a ignorância. No fato de os telespectadores em peso admirarem e elegerem um jogador que se mostrou alienado de informações importantes que constroem a contemporaneidade.
O que interessa não é o jogador pessoalmente, mas sim o seu nível de desinformação e o desserviço que ele presta quando solta em rede nacional declarações que comprometem a realidade coletiva, não importando a sua realidade pessoal, esta determinada pelo livre arbítrio e pela liberdade individual de uma sociedade em democracia.
E este foi o vencedor. Aquele que jogou bem, mas revelou a nudez de conceitos inteligentes, de opiniões consistentes e de uma visão de mundo que, teoricamente, justificasse a sua participação em um programa dessa envergadura.
Somente nessa décima versão é que assisti, pela primeira vez, a um capítulo completo deste programa, um jogo com formato e regras que definitivamente não me atraem. E imaginava que fosse o episódio final, mas percebi que o jogo prossegue do lado de fora da casa, agora com a tentativa de vencedor e eliminados usufruírem bem os minutos de fama e garantirem com segurança os seus futuros.
Em nada mudou a minha opinião sobre o game. Continuarei não o assistindo e resistindo à tentativa de imbecilização do convívio humano.
Mas, tenho de reconhecer que estar como espectador no episódio final me trouxe algo de bom. Foi um momento ímpar assistir à charge eletrônica do amigo Maurício Ricardo. Com o seu bom e criativo humor, ele captou a essência de todo o jogo. E mostrou também como o artista é capaz de fazer brotar inteligência até nos desertos mais áridos e vazios.
Carlos Guimarães Coelho - Jornalista e produtor cultural. É autor de duas obras: “Crônicas do Interior - Retratos de Minas” e “Nau à Deriva - A História do Teatro em Uberlândia (1908-2012)”, esta última ainda no prelo.
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