O Futuro da Oposição

Por Luis Bustamante

Apesar dos riscos inerentes a qualquer futurologia, quero deixar registrada uma previsão do futuro. Acredito que a candidata governista, Dilma Roussef, se elegerá já no primeiro turno das eleições presidenciais. Meu prognóstico se fundamenta não só no resultado da última pesquisa Ibope, que mostrou a petista com 40% das intenções de voto, 5 pontos percentuais à frente do tucano José Serra, mas também no fato de as pesquisas anteriores mostrarem-na numa trajetória regular de ascensão desde o final do ano passado. A tendência parece indicar que a adesão a Dilma é proporcional ao nível de conhecimento de seu nome pelos eleitores e de sua associação ao governo Lula. Concretiza-se, assim, a transferência de prestígio do presidente mais popular da história do Brasil para sua candidata. Mantido o ritmo dos últimos cinco meses, é provável que, em setembro, quando a campanha eleitoral pela televisão tiver completado um mês, ela terá alcançado a marca dos 50% das intenções de voto, em virtude de sua intensa exposição, ao lado de Lula, em programas, comícios e portas de fábrica.

Tenho outra previsão. Esta, diferente da anterior, expressa mais um desejo, alimentado pelo meu otimismo incorrigível, quase de Pollyanna, do que uma projeção escorada em evidências. A derrota de outubro de 2010 irá abalar profundamente a oposição, e a obrigará à autocrítica e reformulação. O PSDB manterá o lugar que atualmente lhe cabe no espectro político, o de maior partido liberal do Brasil. No entanto, as velhas lideranças, ligadas ao governo de Fernando Henrique Cardoso e à elite política paulista, serão substituídas por uma nova geração, afinada com um pensamento menos elitista. Esses novos líderes, entre eles o ex-governador de Minas, Aécio Neves, rejeitarão a empáfia principesca dos velhos caciques tucanos, as alianças com coronéis e mafiosos de agrupamentos como o DEM, e o apoio da extrema direita delirante, encastelada nos grandes veículos de imprensa, em favor da modernização do projeto liberal.

Na minha visão do futuro, essa renovada oposição liberal irá superar sua aversão ao povo. O trauma de três derrotas eleitorais seguidas a fará abandonar, até mesmo por estratégia de sobrevivência, o elitismo mazombo, essa herança nefasta que vêm arrastando desde o período colonial, assim como as três derrotas sofridas pelo PT – em 1989, 1994 e 1998 – fizeram-no abortar o esquerdismo revolucionário, essa doença infantil do reformismo. Nossos liberais deixarão de ver os pobres como o Outro. Ocorrerá com eles o mesmo que com os liberais europeus do pós-guerra. Na Europa, após a devastadora experiência da Segunda Guerra, que igualou a todos, ricos e pobres, no sofrimento dos bombardeios, genocídios e ocupações por tropas estrangeiras, os liberais entenderam que o Estado do Bem Estar não era só uma invenção da esquerda, mas o passo essencial para tornar sua sociedade moderna e democrática. Por essa razão, os democratas cristãos da Alemanha e Itália, os gaullistas da França e os conservadores ingleses foram co-responsáveis, junto com a social-democracia, pela montagem do sistema europeu que redefiniu o conceito de cidadania social.

Da mesma maneira, a herança dos últimos oito anos – redução da pobreza e da concentração de renda, ampliação das políticas de proteção social, fortalecimento do mercado interno, expansão da indústria nacional, estabilidade financeira – serão considerados parte do patrimônio nacional pela nova oposição. A Era Lula será vista como um marco na história do Brasil, semelhante ao que foi, por exemplo, o governo de Kim Young Sam para a Coréia do Sul, o de Deng Xiao Ping para a China ou o de Franklin Roosevelt para os Estados Unidos. A oposição liberal, reformulada e livre dos preconceitos de classe, centrará suas críticas nos vícios do nacional-estatismo petista: corporativismo e aparelhamento sindical do Estado, baixa eficiência do funcionalismo e dos gastos estatais, aversão à meritocracia, carga tributária escorchante, previdência social deficitária, má qualidade dos sistemas de saúde e ensino, entre outros. Caberá a esses novos liberais, assim como à esquerda, revigorada por mais uma vitória, pensar nos projetos para o Brasil pós-Lula, muito diferente do país de dez anos atrás.

Evidentemente, posso estar errado. Pode ser que uma conjunção entre fatos novos e reveses catastróficos – um desastre financeiro, junto com a denúncia de um novo mensalão e mais a derrota do Brasil numa final contra a Argentina na Copa do Mundo, por exemplo – mude completamente a situação atual, e tudo se dê na contramão do que previ: a oposição vencerá as eleições; no novo governo, teremos Kátia Abreu na pasta da Agricultura, Otavinho Frias na Cultura, Ali Kamel nas Relações Raciais e Diogo Mainardi nomeado cônsul em Veneza; as políticas sociais serão contidas em nome do “choque de gestão”; o programa de privatizações da Era FHC será retomado; o Itamaraty optará por uma diplomacia hostil aos governos esquerdista-terroristas da Venezuela, Bolívia, Equador, Argentina e Irã; e o PT, passado o trauma da derrota, terá finalmente que dar cabo de seus aloprados e mensaleiros. Sobretudo, minhas qualidades de oráculo estarão seriamente desacreditadas. Portanto, vamos aguardar o futuro, que é o melhor a fazer.


Luis Bustamante - Médico pediatra do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, doutor em geografia pela USP, professor de história do Colégio Nacional e autor dos livros "A Oeste das Minas" e "Triângulo Mineiro, do Império à República".

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