O melhor
Creio que muitos já devem ter sentido essa angústia entre a obrigação e a vontade, bem como a necessidade de expressá-la. Alguns, inclusive, já o fizeram literariamente, no entanto, ainda persiste a angústia e a necessidade de retomada do tema. O modo que cada autor tem de trabalhar o assunto faz com o que o tema possa tocar ainda intocados, ou faça reviver esperanças e principalmente instigue ou recupere reflexões. Desse modo, é recorrente a angústia do humano reprimido pelas lutas culturais nele incrustadas durante o processo de educação.
O sistema recompensas-punições a que as crianças são submetidas é um deles. Como já dissera Jean Piaget, a punição impede a consciência de ser autônoma. O sistema de recompensas por sua vez, não educa, obriga através do medo. O medo da punição, o medo da não aceitação social ou por parte da autoridade que veem (pais, professores…). Mestre em Ciências Humanas, Kelly Brison também já escrevera sobre esse fato e suas consequências às crianças, futuros adultos, formadores de outras crianças e perpetuadores de uma condição cultural baseada em recompensas e punições, em marionetes do medo e não nos valores humanos. Ele escrevera em um capítulo de seu livro Não seja bonzinho, seja real – apesar de auto-ajuda, a reflexão que ele faz do sistema educacional vale ser conferida:
Usar castigos e recompensas é como beber água salgada. Dá um alívio a curto prazo, mas a longo prazo piora tudo. (…) O castigo é o uso de força, no sentido negativo da palavra, e não uma expressão do poder verdadeiro. (…) – [ele cita David R. Hawkins] ‘A Força é a substituta universal da verdade. A necessidade de controlar os outros origina-se da falta de poder’ – (…) [O castigo] não instrui as crianças a prestar atenção em como suas ações podem afetar o outro, ensina (…) as crianças focarem em si e no que acontece com elas em vez de entender como seu comportamento afeta os outros.
E esse raciocínio egocêntrico contribui para a manutenção de uma cultura ambiciosa e torna a vida uma corrida, em que não basta caminhar em seu ritmo de vida e construir sua história. É preciso fazer de sua história a melhor de todas, a questão é o que se considera como melhor.
Ouvi numa palestra durante um evento científico de pós-graduação: “Do ponto de vista evolutivo, tem-se que correr mais que os outros para crescer, senão se está parado.”. Que seres humanos estão formando? É claro que eles têm o papel deles de instigar a produção acadêmica e o futuro trabalhador. No entanto, esse pensamento não ficará com os pesquisadores que ali estavam e nem será usado somente no âmbito em que pretendiam, será transmitida a toda a comunidade de ensino, não só acadêmica, uma vez que os presentes são também educadores ou futuros professores.
Ao falar de corrida, entra-se inevitavelmente na questão do tempo, que por si só já é outra discussão (a ser tratada na coluna seguinte) e outra angústia humana. Uma corrida contra o tempo, uma corrida em busca do que lhe impuseram como o melhor, mas o que será o melhor para cada um: o que a cultura estabeleceu, ou o que os homens sentem como necessário? Se fosse a primeira opção, por que então essa angústia?
Mariana Borges Bizinotto - Mariana Borges Bizinotto é poetisa, fotógrafa e estudante de Artes Visuais na Universidade Federal de Uberlândia. Mantém o blog Reflexos da Existência Humana.
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