O que é o lulismo?
A revista “Novos Estudos” de novembro de 2009 publicou, do cientista político André Singer, o artigo “Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo”, que vem dando o que falar. Nele, são analisadas as razões da espetacular popularidade do presidente Lula, a maior de um presidente da república desde que a aprovação do ocupante do cargo passou a ser medida por pesquisas sistemáticas. Em 2005 e 2006, no final do primeiro mandato do presidente, enquanto a imprensa e a chamada opinião pública se ocupavam do escândalo do mensalão, ocorreu, segundo Singer, uma revolução silenciosa. A parcela mais pobre da população brasileira passou a reconhecer os resultados das políticas sociais do governo, em especial o programa Bolsa Família, e a associá-los à pessoa do presidente. Com a classe média, simultaneamente, ocorreu o oposto. A condenação moralista do mensalão, reverberada pela grande imprensa, fez com que certa simpatia pelo PT e por Lula se convertesse em decepção e, por fim, em rejeição.
Do início do segundo mandato até hoje, a popularidade de Lula só fez aumentar, alimentada, entre outros fatores, pelo aumento do salário mínimo e pela ampliação do crédito popular oferecido pelos bancos estatais, e acabou por se tornar um consenso consolidado entre as classes populares. Os altos índices de aprovação do presidente, especialmente entre os mais pobres, permanecem infensos às campanhas movidas pela oposição – caso Lina Vieira, apagão, marolinha etc. –, sempre amplificadas pelos jornalões, revistas semanais e emissoras de tv. É como se os que aprovam o presidente simplesmente não dessem ouvidos ao que dizem a imprensa e os mais ricos, o que deve fazer questionar o papel dos chamados “formadores de opinião” – a suposta influência exercida pela imprensa e classe média sobre os mais pobres e menos instruídos.
A popularidade de Lula fez alguns analistas, como Fernando Barros e Silva, e o próprio Singer, a sugerir semelhanças entre lulismo e getulismo. Singer furtou-se, em seu artigo, de usar a palavra, mas Barros e Silva, em dois artigos publicados na Folha de São Paulo, interrogou se o lulismo não seria uma nova forma de populismo. Sem dúvida, há analogias entre Getúlio Vargas, que legou uma legislação social aos trabalhadores, e Lula, que tomou medidas concretas para reduzir a pobreza e a concentração de renda. Ambos contaram com o apoio dos mais pobres e a antipatia da classe média e elites liberais. Ambos – Getúlio em seu mandato democrático e Lula, hoje – sofreram forte oposição dos grandes jornais. Lula, agora, como antes Getúlio, recebe de seus adversários e jornalistas a pecha de “populista”.
O conceito de populismo é impreciso, preconceituoso, carrega consigo um ranço elitista e, por isso, tende atualmente a ser rejeitado por historiadores e cientistas políticos, a exemplo de Ângela de Castro Gomes, Daniel Aarão Reis e Jorge Ferreira. O termo foi criado nos anos 1950 pelos políticos liberais, em especial da UDN, para se referir ao getulismo e aos petebistas, tendo sido um dos pretextos utilizados pelos militares para a deposição de João Goulart em 1964. Segundo essa interpretação, digamos, liberal do populismo, tratar-se-ia de uma manipulação feita por políticos inescrupulosos que utilizariam a retórica e os meios de comunicação para conquistar as mentes ingênuas, obtusas e simplórias das massas.
Depois do início da ditadura militar, o populismo tornou-se objeto de estudo de sociólogos como Octávio Ianni, Fernando Henrique Cardoso e, sobretudo, Francisco Weffort, todos, na época, identificados com o marxismo. Para esses teóricos, o sentido geral do populismo não difere muito daquele dado pelos udenistas. O populismo resultaria da manipulação das massas, cuja ignorância (ou heteronomia, no jargão da época) se explicaria pela herança cultural trazida do meio rural de onde migraram. Essa ignorância, mais a ilusão gerada pelos falsos ganhos concedidos paternalmente pelos políticos populistas, teriam impedido a classe operária de alcançar a verdadeira consciência de classe, a única que poderia capacitá-la a agir autonomamente em defesa de seus verdadeiros interesses.
Weffort e os outros jogaram na vala comum a riquíssima experiência histórica do trabalhismo pré-1964, na qual, pela primeira vez, os trabalhadores participaram ativamente da política institucional. Os herdeiros do getulismo no pós-1945, em especial o PTB, criaram um projeto político que recebia influências da social-democracia européia, do trabalhismo inglês, do keynesianismo e tinha forte orientação nacionalista. A adesão dos sindicalistas ao trabalhismo não se fazia por oportunismo pelego, mas por abrir possibilidades de aliança com o Estado em troca de benefícios reais em favor dos trabalhadores. A incapacidade de Weffort, Ianni, FHC e outros de compreender que os trabalhadores pudessem ter aderido conscientemente ao trabalhismo vem da crença na existência de uma “verdadeira” consciência de classes, uma espécie de entidade não histórica que existe em algum lugar, a espera que os trabalhadores a encontrem.
O PT e Lula são, sim, herdeiros do trabalhismo do velho PTB. As esperanças de que o PT se transformasse num partido revolucionário de tipo leninista foram se esvaindo, enquanto, aos poucos, o partido reencontrava os trilhos do nacional-estatismo, abandonados após o golpe que depôs o presidente Goulart. A revolução de que fala Singer, ocorrida em 2005/2006, significou a plena retomada do rumo perdido naquela ocasião. Foram as “massas” – que Singer chama de sub-proletariado –, e não os políticos supostamente “populistas”, que estabeleceram a agenda da distribuição de renda, acesso popular ao consumo e aos serviços, presença de um Estado forte e protetor, tudo isso, contudo, sem qualquer ruptura com a ordem institucional. Coube ao governo Lula preenchê-la e, assim, encontrar a aprovação popular.
Luís Bustamante
Luis Bustamante - Médico pediatra do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, doutor em geografia pela USP, professor de história do Colégio Nacional e autor dos livros "A Oeste das Minas" e "Triângulo Mineiro, do Império à República".



























Prezado,
De fato, Singer faz uma “análise concreta da realidade concreta” ao identificar as raízes os que se convencionou se chamar de “Lulismo”. A política de distribuição de renda, com o PBF, aumento do salario minimo e da expansão do crédito popular constituiram políticas públicas (pela abrangencia, ainda que alguns as considerem focalizadas) que atendem os interesses imediatos dos setores populares não-organizados, fração de classe anteriormente não fiel às propostas petistas.
Comparar o fenomeno do lulismo (que ganhou autonomia relativa em relação ao petismo) com o que aconteceu no periodo varguista é estabelecer tipos ideiais que nem sempre incidem sobre o primado do real. Singer, embora não exclua totalmente a ideia de elementos varguistas no lulismo, concorda com Chico de Oliveira quando este fala que o lulismo é um “fenomeno novo”, diferente das outras revoluções passivas da historia brasileira. Uma é porque Lula, ao contrario de Vargas, é de origem popular e principal liderança do movimento de massas no periodo pós-ditadura. Daí nao poder ser considerado um “cesarista”, tal qual se encaixa Vargas, qndo uma liderança vinda da classe dominante aparece como “salvador dos dominados”. Depois, por um questão fundamental: pela primeira vez, os setores mais massacrados do capitalismo brasileiro são olhados pelo Estado, ganham protagonismo. Isso não houve em outro episodio na historia.
Quando vc fala no trabalhismo, esquece de categorias essenciais do pensamento politico. Os trabalhadores nao tiveram protagonismo INSTITUCIONAL, no sentido de dirigir o Estado. Esse continuava a ser dirigido pela burguesia. O que leva Vargas a adotar medidas que mexiam nos interesses do imperialismo, bem como a politica de reformas de Jango, é a intensidade do conflito de classes que ocorre entre 1946-64, periodo em que pululam greves gerais, organizações de camponeses e radicalização dos comunistas. Pode-se sim dizer que a fração da elite nacional-democratica era diferente das tradicionais, pois tinham um projeto de desenvolvimento soberano de país e isso necessitava de apoio dos setores populares, daí o chamado “roubo da fala”, quando se incorpora as bandeiras desses setores. Mas a estrategia de dominação de classe continua.
O que é totalmente diferente do periodo atual, em que há um descenso do movimento de massas, o que impossibilita maiores avanços nesse governo. Daí a sustentação social do “subproletariado”, desorganizado e ainda conservador.
Por fim, considerar PT e Lula como herdeiros do trabalhismo é outro erro de análise. Inclusive, o novo sindicalismo do qual o PT é a expressao politico-institucional surgiu como a negação da legislação trabalhaista varguista, do Estado como arbitro dos conflitos. O que ocorre no governo talvez seja o “acidente da história”, na falta de um projeto petista de hegemonia. Nesse vácuo do movimento de massa e da consequente crise programatica da esquerda, a figura de Lula ocupou um espaço significativo, aplicando uma politica de manutenção da ordem, com a maior distribuição de renda até agora no país, o que é um avanço, mas incapaz de construir uma ponte para a construção de uma alternativa de projeto de sociedade. Não são figuras que construirao um projeto país de novo tipo, mas a dinamica das lutas sociais.
Uma afirmação recente do presidente Lula talvez ajude a lançar luz nesta questão: “Na crise, ficou comprovado que são os pequenos que estão criando a economia de gigante do Brasil.” (disponível em http://ultimosegundo.ig.com.br) O Presidente chega a citar a Grande Depressão, afirmando que foi a política de fortalecimento dos pobres, implantada por Roosevelt, que permitiu aos EUA superar a crise. Lula poderia ter citado Vargas, mas isto não seria adequado. Diferenças históricas à parte, penso que as semelhanças entre Lula e Vargas são reais, mas são incômodas. Vamos torcer para que a História nos forneça um desfecho diferente (melhor)!
Bustamante, adorei o texto. Penso que deveria estar em Veja, Isto É, Época, Carta Capital, dentre outras, pois é muito esclarecedor.
Caro Bustamante.
Dizer que o Weffort não apreendeu a correta correlação de forças dentro do espectro populista é no mínimo incorreto. Pior ainda é comparar a categoria “populismo” utilizada por Weffort com a dos udenistas e o campo liberal conservador no Brasil. De forma alguma Weffort analisa o populismo como sendo uma mera alienação ou manipulação das massas. Só para deixar claro minha discordância com seu argumento permita-me citar um trecho de um artigo do Weffort.
“Em realidade, o populismo é algo mais complicado que a mera manipulação e sua complexidade política não faz mais que ressaltar a complexidade das condições históricas em que se forma. O populismo foi um modo determinado e concreto de manipulação das classes populares mas foi também um modo de expressão de suas insatisfações. Foi, ao mesmo tempo, uma forma de estruturação do poder para os grupos dominantes e a principal forma de expressão política da emergência popular no processo de desenvolvimento industrial e urbano. Foi um dos mecanismos através dos quais os grupos dominantes exerciam seu domínio mas foi também uma das maneiras através das quais esse domínio se encontrava potencialmente ameaçado. Esse estilo de governo e de comportamento político é essencialmente ambíguo e, por certo, deve muito à ambiguidade pessoal desses políticos divididos entre o amor ao povo e o amor às funções de governo. Mas o populismo tem raízes sociais mais profundas e a recuperação de sua unidade como fenômeno social e político é um problema proposto a quem estude a formação histórica do país nestes últimos decênios” (WEFFORT, 1977. p. 51).
Weffort, F. O populismo na política brasileira. Em. Furtado, Celso. Brasil: Tempos modernos. Paz e Terra. Rio de Janeiro. 1977.
Aqui também discordo da intervenção do Júlio. O populismo não é um conceito típico ideal, pelo contrário, é uma categoria social que justamente expressa uma determinada correlação de forças, as quais muitas vezes são utilizadas pelos setores populares para alavancar as lutas sociais em torno de direitos de cidadania.
Barbaridade tchê ! tri-legal !
Mas não é simples…Não-não…mas pode ser espiritual / Ô- não !
E como bem descobriu um dos Prados-Júniores em uma bela tarde-e-azul na prisão
(Brasil, Vila Mariana em São Paulo por volta de 1950)
como bem descobriu ! “Não é simples…mas também não é ! muito esquemático” – Cacilda !
Meus parabéns aos debatedores…
Desse jeito vai dar até pra voltar discutir política…
Quiçá-e-ainda-por-cima “nos encontrarmos e contarmos mentiras dos velhos e bons tempos” /
E como diria O Barão De Itararé
(Com licença ao Milhor De Todos Nós Fernandes, que é preciso ser absolutamente moderno)
Disse o Barão (e aqui…acho que foi…digamos / “Foi por volta de 1940″ /
Mas o que disse o Barão !?
“Há mais do quê aviões de carreira no ar” ? Dá-lhe Barão !
Parabéns aos debatedores…
Parabéns ! e muito obrigado…