O teatro permitido e o teatro que se permite

Ouvi de uma voz dissonante e ressentida severa crítica aos “artistas globais que se vendem para a grande mídia”. Isso me levou a refletir sobre a adoção do posicionamento “político” de uma minoria entre os artistas, mesmo em se tratando de uma arte essencialmente engajada. Nesse caso, são aqueles que propagam mensagens “revolucionárias” e distanciam-se na essência do que se produz no palco. Há riqueza e diversidade de expressões artísticas no campo das artes cênicas e todas validadas pela emoção do contato ao vivo com os seus públicos.
Dona Flor e seus dois maridos, que abriu a temporada teatral 2010 de grandes espetáculos na cidade de Uberlândia, seguida por dezenas de montagens selecionadas com afinco para constar na programação da 6ª Mostra de Teatro da Associação de Teatro de Uberlândia, foi uma demonstração clara de que a cidade, embora destituída de mais e melhores espaços para o teatro, tem um público ávido por construções teatrais em todas as suas modalidades.
“Dona Flor” conquistou o público uberlandense pela cuidadosa produção, pontuada por cenários, figurinos e trilha sonora que transportavam a plateia para a exuberante Bahia de Jorge Amado e Dorival Caymmi, bela e distante da que conhecemos hoje, da Axé Music.
E conquistou também pela atuação, em diferentes níveis, de seus 16 atores, com destaque para a presença marcante de Ana Paula Bouzas, atriz e assistente de direção do espetáculo.
Na sequência de “Dona Flor”, uma atriz por excelência, no melhor significado que tenha a palavra atriz, inaugurou anteontem a cena da 6ª Mostra da ATU. Um espetáculo denso, que não chega a agradar o público não habitual de teatro indisposto a digerir o texto denso de Franz Kafka, mas que conquista pela delicadeza e contundência com que a atriz conduziu a encenação.
Juliana Galdino trouxe para o tablado a inquietude de um Kafka oprimido pelas convenções humanas, deslocado em um mundo de cujos condicionamentos sempre discordou, traduzindo-o em metáforas para textos que só grandes artistas podem representar com propriedade. A atriz correspondeu a essa visceralidade. Irrompeu-se na forma masculina, “enganando” a plateia com sua fantástica caracterização de um homem macaco (ou de um macaco homem sabe-se lá), assim como o texto de Kafka engana a existência humana, mostrando-nos o quanto distanciamos de nós mesmos ao pautar nossas vidas pelas exigências e condicionamentos do meio.
O melhor retorno que se tem nas Artes Cênicas é a energia do aplauso e as expressões faciais de satisfação da plateia na saída do teatro. Isso aconteceu em ambos os espetáculos, por motivações diferentes, como ficou claro. Um ganhou pela leveza, diversão e plasticidade, outro pela intensidade da atuação. E todos têm seus méritos e conquistam o público, formando plateias e disseminando a relevância do teatro no desenvolvimento cultural de nossa cidade.

Carlos Guimarães Coelho - Jornalista e produtor cultural. É autor de duas obras: “Crônicas do Interior - Retratos de Minas” e “Nau à Deriva - A História do Teatro em Uberlândia (1908-2012)”, esta última ainda no prelo.

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