Os pés de Leny Andrade
Depois do privilégio de trazer Leny Andrade a Uberlândia, aconteceu a oportunidade de estar com ela em um memorável show, antecedendo o ápice das comemorações do cinquentenário da bossa nova, quando ela, sempre um passo à frente, realizou show em um centro cultural do Rio. Com o teatro lotado, em pleno meio-dia, fui obrigado a assistir ao espetáculo das coxias, como se fosse transtorno em vez de uma grande honra. Após ser anunciada, percebi o incômodo que sentia por um detalhe, para a maioria desimportante: os seus sapatos estavam levemente empoeirados. Um hiato na anunciação. Um silêncio na plateia. A inquietude na artista. Um marasmo no staff acomodado nas coxias. Ao perceber o transtorno e a causa dele, imediatamente ofereci os meus préstimos, me abaixei e, com os tecidos das pernas da coxias, lustrei o sapato de couro preto quase beijando-o em uma espécie de ritual. Leny entrou e cantou como nunca o repertório mágico de nosso grande Tom Jobim.
Talvez a maioria não perceba a magia desse momento que antecede a entrada em cena e como qualquer pequeno estorvo pode colocar tudo a perder. Talvez a maioria nem saiba quem é Leny. Quando ela esteve em Uberlândia, também surgiu, para muitos, essa dúvida. O mesmo aconteceu algum tempo antes, quando pessoas também não sabiam quem era Bibi Ferreira, que aqui esteve com o seu belíssimo “Bibi vive Amália”. Menos mal, se os questionadores fossem jovens. Os mais jovens acham mesmo que o tempo não existe. Mas, no caso de Bibi, entre os que nunca ouviram falar dela estava alguém que, na época, era o diretor do espaço onde ocorreu o evento, que sequer sabia se ela era cantora, atriz ou bailarina. E, assim, várias artistas que há anos fazem parte da história da cultura brasileira, para muitos em Uberlândia, eram meros desconhecidos.
A desinformação das pessoas quanto às construções artísticas que nos antecederam é impressionante. Parecem todos plugados em uma sintonia que só deposita os hits da indústria e do espetáculo midiático que tragam bons números como resultado. E números, no formato de cifrões, independem de qualidade ou de bom gosto para estar no “conhecimento” do povo.
Para quem entende a dimensão da arte, passam a ser motivos de orgulho detalhes como limpar os pés de uma grande dama da música brasileira, carregar no pulso um relógio que é herança da vinda de Paulo Autran à cidade, guardar a comoção de Bibi Ferreira quando soube que fui alfabetizado por ela ou objetos, programa e fotos de artistas ímpares: Ana Botafogo, Aracy Balabanian, Beatriz Segall, Diogo Vilela, Luiz Mello, Selton Melo, Natália Thimberg e centenas de outros mais. E para quem está distante dessa dimensão, são apenas detalhes sem importância, nos quais não há plenitude alguma. Para mim, a vida é realmente plena nestes momentos que a arte proporciona.
Limpar os pés de um artista é preparar a sua entrada em cena. E assumir essa responsabilidade é ser cúmplice da construção cênica que se segue e das consequências que ela pode levar à plateia. Lamentavelmente, a maioria prefere viver a insuficiência respiratória de grandes lutos. Prefere entender a magnitude quando há a perda. E viver quase sempre mais na aspiração e na saudade de algo insólito do que na presença do verdadeiro. Eu prefiro a honra de lustrar sapatos e ajustar ponteiros do que o devaneio de cultuar as ausências.
Carlos Guimarães Coelho
Carlos Guimarães Coelho - Jornalista e produtor cultural. É autor de duas obras: “Crônicas do Interior - Retratos de Minas” e “Nau à Deriva - A História do Teatro em Uberlândia (1908-2012)”, esta última ainda no prelo.


























