Os Talebans da Uniban

Há alguns dias, o campus da Universidade Bandeirantes (Uniban), em São Bernardo do Campo, foi palco de uma manifestação grotesca de intolerância. Uma aluna foi agredida por colegas dentro do prédio da universidade, porque usava um minivestido que modelava seu corpo e deixava suas pernas à mostra. Ao voltar do banheiro, a estudante foi recebida por uma multidão que a esperava aos gritos de “puta”. Durante a agressão, rapazes ameaçavam estuprá-la, outros tentavam enfiar as mãos entre suas pernas, enquanto moças a achacavam. Por fim, deixou o prédio escoltada por policiais.

A porção civilizada da sociedade brasileira deve exigir punição exemplar a todos que participaram da agressão, desde os que o fizeram diretamente, até os que simplesmente riam e se mantinham omissos. Esses bárbaros precisam aprender que, numa sociedade fundamentada no respeito aos direitos individuais, pessoas se vestem como lhes apetece. O tamanho da roupa, a cor, a transparência, a profundidade do decote não são da conta de ninguém, exceto de quem os usa.

O que me assustou, ao ver o vídeo da agressão (disponível no You Tube), é que não se tratou de atitude isolada de um bando de marginais, mas de dezenas de jovens amontoados nos corredores que davam para o pátio central da escola, onde a vítima era vilipendiada como se estivesse num circo romano. Os agressores eram estudantes universitários em uma cidade situada na maior área metropolitana do Brasil, que acharam que podiam fazer o linchamento moral de uma pessoa porque ela não se vestia da maneira aceita por eles.

Na pior das hipóteses, esse episódio mostrou que a intolerância em relação às diferenças é ainda forte entre os jovens. Ao usarem a palavra “puta” e ao ameaçarem com estupro, os garotos revelaram que a misoginia machista – a mesma mistura de desejo, ódio e medo que leva arruaceiros a espancarem prostitutas nas ruas – ainda é regra, e não desvio de caráter de uns poucos. O fato de as garotas terem sido cúmplices é alarmante. Ao fazê-lo, negaram a si próprias, como se dissessem que elas, mulheres, valem pelo que vestem e, portanto, são o que vestem.

Existe, contudo, uma interpretação mais otimista para o que aconteceu. A atitude dos agressores pode ter sido reveladora apenas de um grupo minoritário de jovens, de um tipo que se aglomera em faculdades com qualidade abaixo da crítica, geralmente particulares. Filhos mimados de classe média e elite, que nunca se destacaram nos estudos, não sabem fazer nada, e que encontram guarida nesses pardieiros, onde fazem assédio moral sobre professores para conseguir aprovação nas disciplinas sem precisar estudar, geralmente com a cumplicidade da direção das instituições. Meninos arrogantes, que nunca conseguiram nada pelo próprio esforço, mas inseguros, pois compreendem pouco o mundo em que vivem e, por isso, estão condenados a insignificância. Prefiro acreditar nessa hipótese.

Luis Bustamante - Médico pediatra do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, doutor em geografia pela USP, professor de história do Colégio Nacional e autor dos livros "A Oeste das Minas" e "Triângulo Mineiro, do Império à República".

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1 Comentário

  1. Faço das suas palavras as minhas…

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