Piedade tendenciosa
Por Alessandra Leles Rocha
É muito bom saber que nem tudo está perdido, que corações ainda pulsam, se condoem, se consternam frente às mazelas do mundo. O Haiti retirou da humanidade seu status letárgico de indiferença e a fez agir, pensar e refletir.
Mas, “e agora José” 1? Olhando essa historia com olhos bem brasileiros, posto que alguns de nós estavam diretamente envolvidos com a situação daquele país, será que não estamos desviando nosso foco? Solidarizar em momentos de crise como esse é sem dúvida muito importante, sobretudo para nos impulsionar a uma análise mais crítica sobre nosso próprio viver, nosso entorno, nossas convicções e pretensões. Contudo, o que temos visto na mídia é um gigantesco sentimento unifocal de compaixão, que mascara e dificulta a visão da realidade sob nossos olhos.
É, minha gente! Antes mesmo das catástrofes naturais assolarem diversas cidades e estados brasileiros neste verão, de matarem e ferirem milhares de cidadãos trabalhadores desse país, de arrasarem sonhos e esperanças, essa terra já era prodiga de problemas e diferenças sociais. Palafitas e favelas a se proliferarem em meio a total ausência de saneamento básico. Orfanatos repletos de crianças oriundas da miséria, da violência, da falta de perspectivas e oportunidades. Desempregados, com ou sem qualificação, que se acotovelam diariamente em busca de trabalho e pão. Doenças tropicais, como a Malária, a Dengue e a Febre Amarela, acometendo zonais rurais e urbanas já em pleno século XXI. Qual a razão dessa piedade tendenciosa que faz olharmos para fora de nossos limites com mais caridade?
Vejam que foi necessário um terremoto para o mundo perceber que o Haiti existia e que milhares de pessoas viviam lá em condições terríveis. Mas aqui, somos alvejados todos os dias por uma realidade tão dura quanto à deles e preferimos passar recibo de nação vitoriosa, autossuficiente, exemplo de sucesso. Se passos a frente deles já conseguimos dar, inclusive com a Pastoral da Criança2, muito ainda temos por fazer antes de fechar os olhos ao nosso cotidiano. É urgente equilibrar as ações! São muitos os desabrigados, os famintos, os que perderam tudo, aqui e lá. Não podemos esquecer jamais que se fomos capazes de dar auxílio aos haitianos é porque milhões de brasileiros trabalham firme e perenemente para construir as riquezas desse Brasil; então, cada baixa em nosso povo representa menos um a mover a grande engrenagem capitalista e acumuladora de capitais que alicerça um país.
Alessandra Leles Rocha - Natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).
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