Pitbulls da Direita
Durante estes quase oito anos de governo Lula, um grupo de jornalistas, blogueiros e colunistas vem se destacando pela capacidade de criar polêmicas. Mais do que por elas, nomes como Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Luis Felipe Pondé e João Pereira Coutinho tornaram-se conhecidos pelo estilo agressivo, especialmente quando o assunto é o que identificam como “a esquerda”. Formam uma espécie de círculo: suas colunas estão repletas de referências e elogios mútuos e, quando atacados, saem em defesa uns dos outros. Todos publicam em grandes veículos de imprensa, como a revista Veja (Mainardi e Azevedo) ou o jornal Folha de São Paulo (Pondé e Coutinho). Além do anti-esquerdismo, compartilham uma profunda repugnância pelo governo Lula e por tudo que a ele esteja ligado. Seus argumentos são construídos sobre insultos, ou por eles substituídos. Exibem uma pseudo-erudição afetada, que freqüentemente soa artificial e pernóstica. Quando os leio, tenho a impressão que não escrevem para convencer leitores, mas para uma platéia de igual opinião que, em tese, não precisaria ser conquistada. Seus textos, monotemáticos, parecem mantras ideológicos, o que faz parecer que acreditam estar numa espécie de cruzada ou guerra santa. Não importa qual seja o assunto, sempre acabam por dirigir sua ira contra os mesmos alvos: intelectuais da USP, grupos de dança de rua populares, diretores de cinema brasileiros, sistema de cotas raciais, presidentes latino-americanos de esquerda, bolsa família, José Saramago e, sobretudo, Lula e o PT.
Seu estilo lembra o dos tele-evangelistas norte-americanos, ou o dos jornais carbonários do século XIX. São textos missionários, escrito para o gosto de um público que os admira e consome. Traduzem os ressentimentos de certa classe média que julga estar perdendo privilégios, em face das políticas de ações afirmativas e do maior acesso da população pobre a nichos de consumo antes exclusivos. No fundo, ao destilar seu desprezo, ironia e cólera contra o presidente da República (rude, semi-analfabeto, bêbado etc), fazem uma espécie de catarse em nome daqueles que não gostam de pobres aboletados em vôos domésticos, comprando televisores LCD ou usando telefones celulares, nem, tampouco, de pretos freqüentando universidades.
Muitos desses polemistas são ex-militantes de esquerda, em particular da esquerda trotskista. Por isso, querem parecer confiáveis aos seus patrões, purgando-se, por meio do extremismo direitista, dos fantasmas do passado gauche. Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo seriam os dois casos, digamos, mais patognomônicos. São pitbulls diligentes a serviço da parte da elite que inclui as famílias proprietárias dos órgãos de imprensa onde trabalham. São a linha de frente, exagerada e fanática como toda vanguarda, de certa elite brasileira que vem construindo sua identidade desde a época do Império. Uma elite que não se define por atividades econômicas ou posições sociais, mas sim em termos ideológicos. Vivem, como disse Evaldo Cabral de Mello num outro contexto, o dilema do mazombo: ora voltam olhos para o além mar, sentindo-se como europeus desterrados neste chão tropical, nutrindo um profundo desprezo por este lugar que, afinal, não os merece; ora voltam-se aqui para dentro e encaram o desafio de criar uma pátria civilizada neste lado do Atlântico. Contudo, nesse caso, precisariam se livrar ou, pelo menos, segregar o povo preto, pobre e incivilizado, que insiste em poluir visualmente o espaço com churrascos nos finais de semana, favelas apinhadas, batuques e mandingas.
Por isso, essa elite, silenciosa em alguns momentos, eloqüente em outros, manifestou, ao longo da história, uma espantosa coerência em relação à profunda aversão que nutre em relação ao povo. A demofobia é sua verdadeira crença fundadora, seu sinal distintivo, sua ideologia mãe, hoje como no tempo da escravidão. Tal elite, por exemplo, quando se opôs a João Goulart e contribuiu para sua derrubada, em 1964, não o fez porque ele representasse risco para o capitalismo, mas porque ele optara por políticas populares. Da mesma maneira, não é o suposto esquerdismo de Lula o que os incomoda e a seus pitbulls nos dias atuais, mas a petulância de um operário ex-retirante, monoglota e com instrução de nível primário que, uma vez presidente, avançou, ainda que mínima e insuficientemente, na inclusão dos mais pobres.
Luís Bustamante

























Mais uma vez um ótimo texto, concordo com você.
Parabéns!
Fantástico como sempre, Bustamante!
Não só um texto extremamente bem construído e elaborado, mas repleto de verdades sobre a escória midiática brasileira. Grande Abraço!
Simplesmente incrível!
Sinto um imenso orgulho em ter sido seu aluno. Tornou-se uma referência muito importante na minha vida acadêmica.
Parabéns!!!
Belo texto!
Triste constatar que tais colunistas gozam de popularidade considerável justamente por destilar um evidente ódio de classe e levantar polêmicas vazias.
Aqui em Uberlândia, uma cidade ainda muito conservadora, muitos interlocutores ainda fundamentam as suas idéias, citando os colunistas descritos, ou os meios de comunicação em que trabalham. O infame bordão “eu li na Veja”, ainda ecoa com força pela nossa região!
Não bastasse o Bustamante ser Médico, Professor- Mestre-Doutor, agora ainda assume, como numa sala de aula, a condição de ombudsman da consciência coletiva. Como é bom ler seus textos, né? Eu mesmo, mero professor de redação e quase escritor, vejo-me sempre obrigado (a palavra é essa mesma: obrigado) a ler pasquins reacionários como veja, folha e até mesmo (pasmem) caras; tudo em nome do ofício (eis os ossos). Coisa que pode ser compensada por uma Caros Amigos, outra Piaui, edições especializadas e tudo o mais. Contudo, o interessante é que ao me deparar com colunas dos pastiches citados (mainard, azevedo, pondé e coutinho (não confundir com Pelé e Coutinho) eu simplesmente as salto. Não leio. Não me interessa. Nada a acrescentar, a não ser o asco. E vem então o Luis a colocar os pingos nos iis. A revelar de maneira didática, nas letras frias da razão, os nomes impressos nas coleiras daquela matilha.
É muito bom ler o Bustamante.
O nobre missivista acerta em quase tudo. Mas, a “implicância” do Mainardi com o nosso presidente se mostra claramente nos assuntos em que a “ingenuidade” do Sr Lula as vezes machuca a nossa tolerância como no caso dos mensaleiros. Na maioria das críticas, ele acerta, mas, vejo que sua ojeriza se mostra mais evidente devido ao preconceito contra nordestinos, pricipalmente com os que vencem no Sul maravilha.