Preços do ócio
Por Alessandra Leles Rocha
Nenhuma objeção aos dias de ócio, pois somos humanos e a armadura pesada do cotidiano vez por outra teima em sacrificar o espírito. Mas, vamos e convenhamos que viver de pretextos a justificar os excessos e devaneios nada tem de salutar!
É aqui, o Brasil, o país em que menos dias se trabalha por ano em nome de feriados, dias santificados ou datas comemorativas. Mal se inicia o calendário e o desejo em saber quais serão de descanso aguça corações e mentes. Ainda se fosse para de fato dar tréguas a uma extenuante jornada de trabalho; mas, o que se quer mesmo, no fundo no fundo, é “sombra e água fresca” e uma desculpinha para transgredir um bocadinho.
Vejamos o carnaval, por exemplo. Quatro dias inteiros de preguiça, disponíveis para a esbórnia e justificados todos os pecados que se venha a cometer. Dizem alguns que é a época de se liberar dos arreios da vida, deixar fluir as fantasias, aproveitar! É! Escondem-se atrás das alegorias e adereços, ficam cheios de brilho e razão e nem sempre usufruem de seus sonhos; pois, o abuso de álcool, drogas, direção de veículos não defensiva interrompe o caminho. Aos que escapam ilesos da morte, às vezes levemente chamuscados por consequências de atos inconsequentes – gravidez, doenças sexualmente transmissíveis e infectocontagiosas, gastos superiores à receita etc. -, os dias de dormência compulsória das obrigações escondem surpresas urdidas em meio aos confetes e serpentinas e que se desdobrarão ao longo dos dias restantes do ano. Preços do ócio! Ah! Também não há os que dizem, após uma semana inteira de tarefas, ser a sexta-feira a redentora de todos os males e a justificativa perfeita para beber até cair? Então! Sempre uma desculpa afiada na ponta da língua para escapar às responsabilidades. É a célebre confusão entre liberdade e libertinagem.
Aceitando ou não, a lei que rege a vida é a da ação e reação, por isso a necessária prudência. A felicidade de sentir-se livre para arbitrar o próprio caminho não pode confundir-se com os despautérios de um pseudopoder. De tanto olhar altivo para o horizonte infinito, a raça humana vai perdendo aqui e ali seus exemplares; gente que da existência só quer o doce, o leve, o agradável. Está faltando equilíbrio na balança! A realidade não se cansa em exibir suas necessidades e a bradar a plenos pulmões para que arregacemos as mangas; breves recortes de tempo, só se forem para lapidar o ócio criativo. Caso contrário, quem pretender fixar-se em momentos de pura tranquilidade será dragado pelo inesperado.
Alessandra Leles Rocha - Natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).


























