Publicitários acomodados, uni-vos!

Por Renato Cabral

Gosto dos acomodados. Mas não é fácil ser um hoje em dia. É preciso muito
esforço, o que, no fim, é uma contradição. É preferível ser um acomodado a um
daqueles estereótipos do publicitário antenado, hiperativo e nerd. A explicação
não é simples, mas vou simplificar porque é mais cômodo. Vamos lá.

Há um mito disseminado por aí que publicitário de sucesso é aquele cara
intenso, curioso, que tinha o germe do incômodo na veia. Mas ninguém fala do
papai que bancou a faculdade da moda, claro. Ah, sim, e do tio que o
numa boa agência. E assim surgiu o terrível viral: o papo pilantra e progressista
do mexa-se, não perca as oportunidades, pensamento positivo, você também
pode chegar lá, você também pode ter muitos seguidores no TW. Bobagem.

Por exemplo, os redatores. Sempre em busca do título definitivo. É uma
pena. Porque não adianta. Ninguém lê mais. E também porque é fácil demais
escrever. Qualquer um escreve, até o pessoal do Enem. Olhe, tem parágrafos
em todos os lugares, até quando tudo é só videolog. Essa nossa irrecuperável
necessidade de aplausos é que criou as olheiras e o funcionário do mês no
Mcdonalds. Difícil é não escrever e só aceitar a transitoriedade de tudo até
o nosso lento esquecimento no relógio da existência

Então, você me pergunta, enquanto faz sua inscrição para o MBA:
_ Mas, Cabral, quais os benefícios de ser um acomodado, afinal?

Funciona como as teclas de atalho do Photoshop. Você já decorou os
caminhos. Não há novidades perigosas, desacertos, desencontros, desatinos.
Só o destino certo e a gostosa sensação de que o mundo está dominando e é
você quem manda. Mesmo que esse mundo se resuma à sua poltrona e ao seu Mac.

Porque, qual o sentido de se levar uma vida como publicitário (esta é uma
pergunta retórica, tá?)? Sofrer menos possível, já que a felicidade é uma
invenção perigosa do Diretor de Criação feita para que, com a promessa de
prêmios ou pagamento de horas extras, você pudesse adiantar – depois do
expediente – o job que será recusado e refeito amanhã.

Vivemos num mundo que exclama por mudanças a todo o momento. Um
saco, eu sei. É era da informação pra cá, se recicle pra lá. E assim criamos
uma legião de publicitários angustiados e desperdiçados. Porque muita gente
acreditou nessa ladainha e saiu correndo atrás do suposto sucesso. E o
máximo que conseguiram foi um tapa nas costas do pessoal do atendimento
pelo job no prazo. E essa sua gastrite aí não me deixa mentir.

Não quero ser o messias da boa nova, nem ajudar você a entender melhor seu
destino de publicitário derrotado. Não gosto de ovelhas, tenho repugnância
a ídolos e mais ainda por fãs. Ok, por fãs não (me escrevam meninas). Mas,
pense: pare de reproduzir, pare de correr atrás de migalhas, pare de querer um
iPad. Aquiete-se e ouça o desconcertante burburinho de uma agência tentando
equilibrar todos os seus egos e sua contabilidade. Apenas aceite a gostosa
sensação da resignação irremediável. Tem muito mais sucesso quem tem paz,
acredite. Até o tolo do Roberto Shinyashiki sabe disso, só você que ainda não.

Renato Cabral - Renato Cabral é ruminante inveterado. oruminante@gmail.com

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1 Comentário

  1. Eita Cabral, mandando bala. É isso aí!

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