Quando o aplauso significava mais
Por educação, amizade ou carência, o espectador hoje se levanta com muita facilidade
Quando o aplauso significava mais
O melhor retorno que um artista pode ter é o aplauso. Ele trabalha para obter esse reconhecimento por sua construção artística. Houve um tempo, contudo, em que o aplauso significava mais. Era o termômetro para ele perceber se trilhou o caminho certo.
Se os aplausos eram esfuziantes ou ofertados de pé pela plateia representavam a expressão máxima de um trabalho acertado. Se interrompiam um concerto ou uma coreografia, era porque um momento específico naquele meio de cena era de um primor diante do qual as pessoas não podiam se conter.
Foi-se o tempo em que observar o público aplaudir de pé um espetáculo era o sinal de uma carreira promissora para o mesmo. Por educação, amizade ou até mesmo carência de presenciar espetáculos memoráveis, o espectador hoje se levanta com muita facilidade.
Se o artista constrói a sua expressão tendo como meta alcançar e comover os espectadores, tais espectadores não deveriam primar pela honestidade na reação diante desse trabalho?
Tudo bem. Podem dizer que apenas a coragem, dedicação e disciplina do artista já são elementos dignos do aplauso. Isso é um fato do qual não podemos discordar, sobretudo em se tratando de um país onde a arte é pouco incentivada e até as políticas culturais do poder público são transferidas para iniciativa privada e entregue è mercê das leis de incentivo. O artista brasileiro é, de fato, um herói que resiste às intempéries em nome de sua arte e da crença que deposita nela.
Não podemos esquecer, no entanto, que o artista, acima de tudo, quer ser reconhecido pela consistência de seu trabalho. Quando chega à instância do aplauso, o que lhe tem mais valia é a honestidade do sentimento com o qual este trabalho será recebido. Tapinhas nas costas de amigos íntimos e familiares podem não dizer nada e até interromper um ciclo criativo onde deve prevalecer a verdade.
Por isso, em nome da evolução de nossa arte e de nossos artistas, fica registrado o apelo: se o espetáculo pra você foi ruim, não aplauda, se foi mediano, aplauda com vontade, se foi inesquecível, fique de pé e brade urros de reconhecimento. Mas, não se levante por educação ou por constrangimento por ser um dos únicos a permanecer sentado.
Se o artista foi intenso e verdadeiro ao construir o seu espetáculo, se doou seu tempo e sua energia pensando nos espectadores, espera deles o mesmo: uma intensidade verdadeira. Mas que se manifeste apenas se ele, o artista, alcançou a atmosfera que tentou criar para o seu público.
Carlos Guimarães Coelho - Jornalista e produtor cultural. É autor de duas obras: “Crônicas do Interior - Retratos de Minas” e “Nau à Deriva - A História do Teatro em Uberlândia (1908-2012)”, esta última ainda no prelo.
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