Quatro Tradições Políticas
Por Luis Bustamante
Alguns analistas, como Cláudio Weber Abramo, na Folha de São Paulo, dão péssimo exemplo com o seu mau humor niilista dirigido à classe política. É a síndrome do Pedro de Lara. Ao comentar o encontro dos presidenciáveis transmitido pela Rede Bandeirantes, no último dia 5, Abramo disse que o debate foi frio porque a campanha está despolitizada e os candidatos, no fundo, são todos iguais. Limitou-se a repetir o lugar-comum de que “político é tudo igual”. Esse clichê, que desqualifica a atividade política em geral, é um dos preconceitos mais nefastos do imaginário brasileiro.
Sempre desconfiei que a aversão à classe política fosse manifestação de um elitismo mal disfarçado. Nossos políticos são escolhidos por voto popular. São o espelho da sociedade brasileira, com suas qualidades e defeitos. Desprezá-los por atacado é eufemismo para manifestar repulsa por quem vota neles.
O debate foi frio porque o formato de tais programas assim o exige. Não houve tempo para expor idéias, esmiuçá-las e debatê-las. Não havia lá oradores empolgantes, ao estilo de Leonel Brizola ou Lula, o que não é nenhum defeito. Somou-se a isso o extremo cuidado de todos em evitar o confronto e, assim, poupar-se do desgaste. Mas lá estiveram quatro candidatos de alto nível, herdeiros de quatro tradições políticas com fundas raízes na história brasileira. Quatro políticos com trajetórias absolutamente coerentes com os projetos que defendem. Há, ali, alternativas reais em jogo. Cada uma delas daria rumos diferentes ao futuro do país.
José Serra, o candidato do PSDB, é herdeiro da tradição liberal, a mais antiga do Brasil. As teses liberais, de ontem e de hoje, podem ser simplificadas em quatro pontos fundamentais: menor intervenção do Estado na sociedade, ortodoxia econômica, rigoroso controle das contas públicas e federalismo. A linhagem liberal remonta aos grupos políticos ligados às elites provinciais, na época do Império. Fizeram oposição ao semi-absolutismo de Dom Pedro I, contando com nomes como Evaristo da Veiga, Cipriano Barata e Frei Caneca. Eram liberais os protagonistas da Confederação do Equador, da Guerra dos Farrapos e da Revolução Praieira. Dissidentes liberais fundaram o movimento republicano, nos anos 1870, e estiveram provisoriamente ao lado dos militares, no golpe da República de 1889.
A Primeira República foi o mais longo período de hegemonia liberal na história do Brasil, descontados os governos militares de Deodoro e Floriano. Durante a Era Vargas, mantiveram-se na oposição e chegaram a enfrentar o ditador pelas armas, na Revolução Constitucionalista de 1932. Com a queda do Estado Novo, em 1945, aglutinaram-se na UDN. Em oposição ao trabalhismo de Vargas e seus sucessores, aproximaram-se da direita militar autoritária.
Os liberais foram coadjuvantes do golpe de 1964. Coabitaram com o nacionalismo militar durante o mandato de Castelo Branco, tendo sido responsáveis pela gestão econômica naquele governo. No entanto, com o AI-5, em 1968, foram desmobilizados e perderam a capacidade de conduzir projetos próprios, esmagados pelo autoritarismo da linha dura militar. Alguns aceitaram a subordinação e foram absorvidos pela Arena, o partido fantoche da ditadura. Outros se juntaram à oposição consentida, organizada no MDB.
A derrota da ditadura, com a eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, em 1985, deveu-se à reorganização política dos liberais. A unidade que elegeu Tancredo, no entanto, não conseguiu sobreviver ao governo Sarney. O PSDB, fundado em 1988, surgiu como dissidência do PMDB, partido que, junto com o PFL, formava a base de sustentação do governo. Embora seu programa inicial se pautasse pelos princípios da social-democracia européia, a história acabou por reservar outro destino ao partido.
Nos anos 90, no início do governo Fernando Henrique, o pensamento neoliberal tornara-se mundialmente hegemônico, e havia urgente necessidade de um ajuste para a economia brasileira, consumida pela inflação e prestes a viver sua segunda década perdida. O sucesso de Fernando Henrique na estabilização econômica, graças ao controle das contas do Estado, de um audacioso programa de privatizações e da abertura à economia mundial, acabou por fazer do PSDB um dos maiores partidos do país e, simultaneamente, o principal esteio da ideologia liberal.
Plínio de Arruda Sampaio, o candidato do PSOL, representa a alternativa da esquerda socialista. O PSOL é o maior partido brasileiro do campo anti-capitalista, uma vez que o comunismo do PCdoB é, hoje, mais retórico que real, e o PT deixou de ser um partido anti-capitalista no início dos anos 1990. Dos quatro projetos em disputa, é o único que propõe refundar a sociedade e negar o capitalismo em favor de uma ordem igualitária. O PSOL foi criado por uma dissidência do PT em 2003, quando o governo Lula, recém-empossado, rejeitou a perspectiva socialista em favor de relações amigáveis com a elite econômica e o capital.
A base da dissidência de 2003 foram aqueles que integravam o que foi chamado, até os anos 90, de esquerda do PT. Essa faixa do espectro petista abrigava tendências formadas por remanescentes de grupos da esquerda armada, trotskistas e católicos seguidores da Teologia da Libertação. Unia-os o horizonte utópico socialista, comum a toda esquerda marxista, e a concepção da ação revolucionária imediata, isto é, a de que revolução não deve ser um sonho distante, mas algo para ser feito aqui e agora.
O imediatismo revolucionário, resumido por Carlos Marighela no bordão “a ação faz a vanguarda”, foi algo muito forte entre as esquerdas nas décadas de 60 e 70. Os pequenos e combativos grupos políticos dessa época, que tinham algo do romantismo dos carbonários do século XIX, surgiram como dissidências do PCB ao longo dos anos 1960.
A opção socialista, que hoje o candidato do PSOL representa, está enraizada na tradição revolucionária que, um dia, os comunistas encarnaram. Buscando ascendências ainda mais antigas, lembremo-nos que o PCB foi organizado por líderes anarquistas em 1922, influenciados pelo sucesso dos bolcheviques russos e decepcionados com o voluntarismo do movimento anarquista. Assim, em última análise, a candidatura Plínio é legatária de uma tradição de mais de cem anos, surgida nos pátios das primeiras fábricas brasileiras, entre operários imigrantes e intelectuais como Lima Barreto.
Dilma Roussef, a candidata do PT, traz consigo o legado do nacional-estatismo. No entanto, a reconciliação do PT com a herança nacional-estatista é fato relativamente recente. O PT nasceu em 1979 como uma frente de tendências da esquerda não comunista: católicos das Comunidades Eclesiais de Base, remanescentes dos grupos guerrilheiros dos anos 1970, organizações trotskistas e sindicalistas ligados ao então chamado “novo sindicalismo”. Unia-os a perspectiva anti-capitalista e uma vaga idéia de utopia socialista. O projeto socialista do PT, todavia, nunca chegou a ser delineado, e nem poderia, haja vista a diversidade de credos políticos – cristãos, trotskistas, leninistas – entre seus militantes.
Depois das eleições de 1989, à medida que conquistava prefeituras, governos estaduais e bancadas parlamentares, o PT foi abandonando suas posições anti-capitalistas. O socialismo petista, desde o início de contornos pouco precisos, tornou-se uma referência cada vez mais abstrata. O marco final do deslocamento rumo à centro-esquerda foi a “Carta aos Brasileiros” de 2002, o documento no qual Lula anunciou que, longe que querer destruir, pretendia colaborar com o capital. Essa trajetória – um partido anti-establishment que se transformou, como tempo, num partido do establishment – foi muito semelhante à da social-democracia européia, com a qual o PT compartilha ainda outras afinidades, tais como as origens sindicais e a ênfase na ação reguladora e distributivista do Estado.
No início, na infância do partido, os petistas se viam como a grande novidade da política: nunca, diziam, a classe operária brasileira alcançara tal nível de consciência e protagonismo. Faziam tabula rasa do passado das esquerdas: os comunistas? fantoches de Moscou. O trabalhismo? apenas outro nome para peleguismo. As organizações armadas? erraram ao se desconectar dos movimentos populares. Contudo, durante sua trajetória de maturação, nos anos 1990, ocorreu com o PT um fato inusitado: os líderes e ideólogos do partido fizeram as pazes com o legado getulista.
O nacional-estatismo trabalhista, brotado do getulismo, consolidou-se como uma das principais forças da política brasileira após 1945. Nessa época, o PTB amadureceu um projeto de reformas com base em concepções que valorizavam o papel do Estado como agente de desenvolvimento e distribuição de riquezas. Política externa autônoma e não-alinhamento no quadro da Guerra Fria eram também pontos importantes do programa petebista. Além disso, parte dos quadros dirigentes do partido era egressa do movimento sindical, com o qual sempre manteve proximidade.
A complementaridade entre o programa trabalhista e as realizações do governo do PT foi afirmada pelo próprio presidente Lula, em diversas oportunidades. Dilma reconheceu, recentemente, o elo de continuidade entre Jango e Lula: “Jango propôs uma coisa muito atual, o progresso com justiça e o desenvolvimento com igualdade. As reformas de base de Jango são uma necessidade ainda atual e o governo Lula as está levando à frente”.
Marina Silva, a candidata do PV, é herdeira da mais nova tradição do espectro político brasileiro, a que menos se apóia no passado, mas a que mais aponta para o futuro. A candidatura de Marina resultou da confluência de duas forças: o ambientalismo dos movimentos ligados aos povos da floresta amazônica, que têm em Chico Mendes a sua maior referência, e que, até recentemente, estavam abrigados no PT; e o PV, fundado por intelectuais e políticos de esquerda influenciados pelo ambientalismo europeu, a exemplo de Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis. Marina tem sabido agregar outros segmentos à causa verde, a exemplo de empresários comprometidos com a causa ambiental.
O ambientalismo é um movimento político recente na história política mundial, e ainda mais no Brasil. Embora os verdes constituam hoje agremiações políticas fortes na Europa e no Japão, ainda não foram testados em nenhum governo importante. Existem questões que o ambientalismo político ainda precisa responder: como conciliar distribuição de renda e preservação ambiental? Reduzindo o padrão de consumo dos ricos e aumentando o dos pobres? No caso específico de países em desenvolvimento, como o Brasil, como resolver a equação do crescimento versus preservação? Como lidar com a questão demográfica, especialmente em regiões pobres? O ambientalismo ainda oferece mais perguntas do que respostas, mas, certamente, será uma das grandes forças políticas deste século.
Em qual dessas tradições apostar? Caberá a nós, brasileiros, decidir no dia três de outubro. Não importando qual seja a escolhida, é provável que a eleição de 2010 seja vista pelos futuros historiadores como a primeira da maturidade política do Brasil.
Luis Bustamante - Médico pediatra do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, doutor em geografia pela USP, professor de história do Colégio Nacional e autor dos livros "A Oeste das Minas" e "Triângulo Mineiro, do Império à República".


























