Reféns do invisível

janelaPor Alessandra Leles Rocha

Alvejados diariamente pelas farpas pontiagudas da violência propagada no mundo, pergunto-me se há na justiça dos homens ferramentas hábeis o suficiente para nos defender da agressão subjetiva desses fatos?
Pregam os médicos que não devemos ceder ao estresse se quisermos vida longa e saudável; mas, ao ouvir tal conselho tenho sempre a vontade de saber em qual planeta esperam que eu me mude para cumprir a tarefa. Afinal de contas, como nos proteger física e psicologicamente se a rudeza da violência nos golpeia incessantemente ao longo do dia? O que antes ocupava apenas as páginas policiais – as quais você podia escolher se era do seu interesse ou não em ler -, hoje ocupam quase todos os jornais e a mídia em geral. Ficamos entregues a um tipo de “lavagem cerebral” que faz do funesto horror motivo para repetir e propagar semanas a fio as atrocidades das tragédias urbanas, fazendo parecer que tudo se resume a isso e as outras faces da vida não tenham mais nenhum valor.
Tamanha fixação, de um jeito ou de outro, acaba absorvida por nosso inconsciente individual e coletivo, e como resposta gradativamente vamos desenvolvendo todo o infortúnio de desordens psicossomáticas, desde simples manias e dores de cabeça até neuroses graves e câncer. Por mais que se queira fugir dessa realidade, nada parece suficientemente possível e eficaz.
Então, mesmo que não sejamos vitimas diretas da violência instalada na sociedade, ainda sim somos vitimas passivas desse processo caótico e sem direitos a nenhum tipo de ressarcimento por danos físicos ou prejuízos materiais. Temos que por conta própria tentar alternativas para mitigar ou solucionar esses problemas, visando garantir a nossa sobrevivência; já que, falamos de algo subliminar, imaterial, difícil de visualizar. O pior é pensar nas crianças e nos idosos que diante de tamanha violência sofrem demasiadamente e muitas vezes não encontram meios de exteriorizar seus sentimentos. São dois momentos da vida em que o impacto pode definir sem duvida alguma o limite entre a vida e a morte, os sonhos e o desencanto.
Reféns de uma dor sem corte, sem ferida, mas mutilante da própria alma esperamos que o direito constitucional à vida, em todas as suas nuances, seja também interpretado nesse sentido; de modo que tenhamos mais segurança, liberdade e punição verdadeira a todos que se julgarem onipotentes o bastante para atentar contra o bem maior que dispomos: viver. Precisamos de trégua, de palavras e gestos edificantes, de esperanças, de sorrisos, de motivos que nos resgatem o sentido da vida, o prazer da felicidade, o sabor da alegria.

Alessandra Leles Rocha - Natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).

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