Your Ass

Reparido

Agora, faço o parto de mim, me arrancando à força pelas tripas, para a vida. Sem parteira nem bacia. Aos gritos, tento esse tiro. Reparido. Repartido. Nasci agora, consciente e cheio de lembranças. Um vidente de barriga vazia. Tenho zero anos e muita história. Tenho o mundo pela frente. Mas, infelizmente, nasci velho. E como todo velho, babo e rumino, me arrasto e tento fazer da imaginação uma companhia pra não ser tão só.

Mel Eca

Agradeça. Por ser o idiota que ignora. De todos, o único que devora sem se perguntar por quê. Por ser o desenganado sem aflito, o desgraçado perdido distraído, bendito bem tratado pelo esquecimento. Por ser o escarro, o escroto, o mocinho temperado. De tão lerdo, pela memória desculpado. Agradeça. Por saber se render ao que se é e só. Por não saber o que dizer nem ter pressa dessas coisas. Pelo tempo que te esgota nessa noite que não passa. Pelo dia que te arrasta, que te resta, que te basta. Agradeça pela miopia, por ser simples sua sinfonia e tão pobre sua simpatia. Por não poder nem querer ver. Agradeça. Você nem sabe que vai morrer.

Galinheiro

Somos pobres galinhas de quintal. Que se fartam com as migalhas que lhes dão, que vivem a lamber o chão. Gordas e satisfeitas, esquecem das asas, da imensidão. E no domingo, na missa, há mesa farta, alegria sem graça, panela e gritaria. Porque lá estão elas, assadas, saborosas, recheadas de batatas para o banquete e as romarias. E, quem sabe, para o céu afinal.

Sipolar

De tão em mim, to pra explosão auricular. Minha cabeça, nas narinas, pudim de batedeira, viagem quântica adiada. Rodopio quadrático amargo. Leite condensado amrelo prato. Eu, azia de imensidão, gastrite de consolação. Pingando pingado. Meia xícara, impresso destilado. Desterritorializado de cansaço. Apatia de mormaço. De tão aqui, o passado vem de tropeço. E o futuro vomita no meu braço.

Your Ass

Sua carcaça, bunda partida. Que enfio a cara e meu feitiço. Meu talo ensaguentado e afoito. Sua agonia podre, meio bosta, me basta. Não sei caçar. Eu, urubu carniceiro. Rapineiro de sobras de bordas. Seu cu, respingado de merdas, tolas palavras. Eu lendo sua margem, lambendo suas lembranças digeridas. Você morta e fria, bendita alegria, não? Eu em paz em suas vísceras. Tripas encardidas. Minha goela é uma glande que te engole. Seu fundo melado, a parte que deixo pro fim, só para poder te olhar desfeita. Tão suja, mas tão bela.

Por Renato Cabral
www.oruminante.com.br
Twitter – @oruminante

Renato Cabral - Renato Cabral é ruminante inveterado. oruminante@gmail.com

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