Reprodução e experiência estética
Quem vai a uma loja de CD’s é porque deseja música gostosa para relaxar. Outros para curtir o cantor predileto que se apresenta nos melhores programas de televisão. E também existe o público para o erudito, que adora os clássicos da música ocidental. Para finalizar, não se esqueçam dos apreciadores inusitados, que gostam de música fora do habitual. Não fiquem desesperados porque para todos existem gêneros e estilos infinitos. Realmente, a indústria cultural consegue resolver um problema que muitos diriam impossível, a saber, satisfazer gregos e troianos.
Mas ouvir uma música que é reproduzida tecnicamente e distribuída em massa é o mesmo que sentir a aura estética que emana de um concerto? Para os mais entendidos no assunto, óbvio que não. Todavia, existem os que se gabam pela coleção de clássicos e também pelo refinado gosto por determinado gênero musical. E por isso, nem percebem se há ou não há diferença entre uma apresentação musical ao vivo ou a que é reproduzida por um aparelho mecânico.
Theodor Adorno, filósofo alemão do século XX, ficou intrigado com os conceitos que seu amigo Walter Benjamin expôs no artigo “A obra de Arte na era da sua reprodutibilidade técnica”. Principalmente na seguinte passagem: “Enquanto o capital cinematográfico der o tom, não se poderá atribuir ao cinema actual, em geral, outro mérito revolucionário para além do de promover uma crítica revolucionária de concepções tradicionais da arte” (p. 12, fonte: http://www.dorl.pcp.pt/images/SocialismoCientifico/texto_wbenjamim.pdf). Assim sendo, Adorno não concorda que um produto de reprodução técnica como o cinema, que usa a música como um assessório sonoro para prender a atenção do espectador em cenas corridas, seja capaz de criar uma “crítica revolucionária” das concepções tradicionais de arte.
Isso porque ele também não entende a mudança de posição tomada pelo amigo, que antes falava de uma perda da “aura estética” com a reprodução técnica, ou seja, o “aqui e agora” das obras de arte, para depois dizer do potencial da reprodução em larga escala. A resposta veio com o artigo “O fetichismo da música e a regressão da audição”. O que acontece com os nossos ouvidos é apenas um habituar-se ao som e a letra, cantarolada em seções de banho. Mas apenas cantamos o que está na mídia, no topo da parada de sucesso. Depois, como num passe de mágica, perdemos a canção e a substituímos por outra top do rádio.
Nem mesmo as canções, com letras de protesto e de uma aclamação social – como fora as de Bob Marley – escapam do poder de adaptação da indústria. Para Adorno, a música de protesto é a música radical, a horrível de ser escutada. O problema estético está ai, não é o conteúdo em si mesmo, mas a forma. O filósofo alemão entende que a forma é o conteúdo. O horror de nossa sociedade, a violência e a falta de compaixão das pessoas é expressão nos sons dissonantes e quase horripilantes das notas musicais.
No mesmo artigo, Adorno fala que a sociedade de consumo criou indivíduos “besouros”. Aqueles que ficam voando ao redor de luzes. Milhões de fãs rodeando seus astros, pessoas propícias a seguirem ditadores fascistas e mentes inescrupulosas como fora Hitler. O que perdemos foi a autonomia, adquirida por meio do conhecimento. Este por sua vez, agora virou enlatado e é vendido a preço de banana nas feiras que visam o lucro.
Assim sendo, o que é comprar CD’s afinal? A música é arte, é conhecimento? Acredito que sim, mas ser como Adorno queria que fosse é bem radical e existem críticas a esse respeito. Não entro nos méritos destas críticas, deixo apenas o recado. A experiência estética é feita pelo próprio sujeito quando este tem condições reais para tal. Ao roubar este atributo, a indústria do consumo musical faz com que ele se contente apenas em colecionar, em sentir apenas o valor de troca substituído pelo de uso. É isso que realmente interessa para os empresários. O conhecimento se esvai e nossa sociedade caminha a passos largos para o fim. De qualquer forma, a postura que deve ser seguida é a crítica sempre. É a Dialética da negação. Este é o conceito que explicarei posteriormente em outro post.





















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“Perca”?
Realmente, o certo é “perda”.
Só um lembrete:
No final do terceiro parágrafo: a grafia de espectador é com “s” e não com “x”