Sem pré-requisitos, ok?
Por Alessandra Leles Rocha
Embora importante, e às vezes até vital, a solidão não traduz a essência humana. Calcados sobre a Terra conviver é o grande presente e também o grande desafio que nos foi ofertado no tocante à nobre tarefa evolutiva.
Ao longo da fantástica jornada existencial, voluntária ou involuntariamente, vamos tecendo as relações interpessoais. Tal qual um tecido variamos as cores, a espessura dos fios, o arranjo das tramas e assim chegamos ao resultado dos delicados retalhos que compõem nossa vida. Relações familiares, com amigos, no trabalho, na escola, inusitadas, complicadas, superficiais, profundas,… Cada uma temperando nossos dias e tornando-os acervo fértil de causos e memórias.
Queiramos ou não é assim! Cada um de nós não passa incólume pela vida, sempre deixa marcas, ora positivas, ora negativas porque ninguém é perfeito; mas, vamos devagarzinho impactando nossos pares e todo o universo que nos abraça em silencio.
Pena, que essa grande teia muitas vezes se esgarça, rasga-se seca como papel, quebra estilhaçada como vidro, murcha na displicência, na ausência de cuidados. Há quem justifique um cotidiano assoberbado, repleto de atribulações incompatíveis em conviver. Há os que se reúnem em núcleos fechados, determinados e rotulados a partir de um olhar crítico e severo de suas necessidades, como se aqueles indivíduos lhes bastasse por toda a vida, como se nada ou ninguém pudesse um dia tirá-los de seu convívio e deixá-lo na mais completa solitude. Há os que se postam em pedestais aguardando impávidos que venha o mundo a seus pés, mas deles não parte o menor desejo de se relacionar e cultivar os frutos dessa arte; muitos até afirmam com ironia e desdém que se não forem os amigos a procurá-los a amizade se perde no vento. Há os que se escondem tanto atrás de suas fortalezas de mistério, preservando ao limite extremo sua individualidade, que não querem correr o risco da proximidade além da boa educação protocolar.
Talvez por tantos excessos, cuidados e linhas imaginárias que o ser humano adora estabelecer, uma muralha invisível ergueu-se entre todos. Cirandar de mãos dadas e coração aberto como fazíamos na infância não é mais possível. São tantos pré-requisitos a preencher no exame de admissão às relações humanas, que muitos se descobrem de mãos estendidas sem ninguém para tocá-las. Sim! Fazem pouco do telefonema, da mensagem de carinho, da alegria ao encontrar, do abraço caloroso, da lágrima emocionada na despedida.
Como dizia Caetano1, “Estou aqui de passagem, sei que adiante um dia vou morrer, de susto, de bala ou vício…” 2; o fim breve e surpreendente de todos. Mas, então, por que não registrar esse tempo na valorização afetiva dos que fazem parte dessa história? Quando a onda do mar entorna o caldo e nos afunda nas dores da alma, é a certeza de saber que não se está só, e que sua existência de alguma forma faz diferença a outros, o resgate oportuno para seguir em frente. Ontem, hoje, amanhã, em algum momento se fará vital a convicção de que temos ao menos uma pessoa a chamar de amigo e o melhor, geralmente nessa situação, é ser surpreendido por alguém que você nem percebeu que sempre esteve ao seu lado.
Em meio a tantos dissabores que a vida tem nos feito experimentar, refletir sobre nossas relações acenará como balsamo sobre nossas feridas e quem sabe nos ajudará a construir um novo caminho até chegar a hora inevitável de dizer adeus.
1 Caetano Emanuel Viana Teles Veloso (Santo Amaro da Purificação, 7 de agosto de 1942) é um músico e escritor brasileiro. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Caetano_Veloso)
2 Soy Loco Por Ti, America – Caetano Veloso – Composição: Capinan / Gilberto Gil (http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/76612/)
Alessandra Leles Rocha - Natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).
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