Sentimentos trapaceiros

chapeuzinhoEstou um trapo. Pra que mentir? Acabo de ter uma queda de pressão literária de austeridade iugoslava, cuja causa foi atribuída à diminuição da pressão emocional, denominada hipertensão postural, que acontece quando uma pessoa muda subitamente de opinião. Estou perdida como uma folha amargurada que cai de uma árvore imaginária e desce pelo rio com um gesto cerimonioso, para depois bater em uma pedra em decorrência da visão turva, para não dizer cegueira. Isso é o que ocorre quando temos sentimentos que desaparecem como um espírito desencarnado e de repente, você começa a pensar forte e se sente tonto com a lembrança de seu passe magnético e mal direcionado. A visão fica embaralhada, chegando a oscilar o verbo até que ele se confunda com uma sombra que mora na alma de um papel em branco. Tem terra sobre os meus óculos de leitura, Senhores. Estou tentando limpar as marcas de pisadas entrando no apartamento, mas elas não saem. Grudam feito piche. O silêncio desidrata as pessoas. Tenho falado com ele outra vez. Provavelmente por inspiração direta dessas ausências que me entopem de vazios. Minha língua está ressecada. Preciso de um diurético verbal para engolir o tempo e os dissabores deste inverno. Deve haver algum que eu possa degustar neste pavilhão auditivo de paladar enciclopédico. Eu vou revirar estas pilhas de palavras até poder encontrá-lo. Minhas cordas vocais estão fracas. Estou ficando rouca? Ou foi minha voz que se cansou de chamar? Não vou levar essa loucura adiante. Chega de trancar minhas aspirações no calabouço da indiferença até que elas sequem sem solução possível. O que vejo é fumaça que o vento toca de volta. Mas ainda havia fogo, quando pensei em ir em frente. Quero trocar de cidade, de nome, de rosto, até ser outra, porque já cansei de me incendiar. Preciso alcançar o equilíbrio e perceber além dos olhos o que os sentidos querem me mostrar. Poucas coisas enganam mais do que a paixão. É preciso que ela venha, mas é preciso antes de tudo, saber que um dia vai passar.

Pipa.

Arte: © Agócs Írisz

Lidia Martins - "Alguns escrevem para lembrar. Outros escrevem para esquecer." agentepodiasevernoar.blogspot.com

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1 Comentário

  1. “Poucas coisas enganam mais do que a paixão.
    É preciso que ela venha, mas é preciso antes de tudo, saber que um dia vai passar.”

    Diga-me, até quando vai profetizar teorias das quais não acredita?

    rs

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