Só Tão

Vivo abarrotada de almas,
tanto novas quanto usadas,
pra mudar conforme o caso

(se uma suja, jogo fora,
quase nunca lavo).

Algumas são falsa-cor,
vermelhas,
cheias de prendas e laços,
penduricalhos mil costurados,
que já nem sei mais o nome.
–tenho um motivo fajuto
e sempre o sapato perfeito
pras feras que me consomem–

Há uma de esguelha, há outra rodada,
envolta em fuxicos, ismálias
e finas organzas de musas
–amélias no forro, teresas na barra–

há uma fechada, há outra que ousa,
e não tem botões, nem amarras,
rendada com puta de esquina.
(troco a cara e o vestido
quando aquela não mais me fascina).

Em noite de gala,
quando o amor desvestido me despe,
me visto com fendas
e tons de imprevisto.

Acordo no dia seguinte, num sopro,
já pano de vela que encontra
seu porto
- alma á espera, com jeito de corpo -

Flavia Perez - Flávia Perez publicou os livros de poesia "Leoa ou Gazela, "Todo Dia é Dia Dela" e escreveu "A Filha de Capitu" e "Não Culpem Nelson Rodrigues". http://tudoqpuderbyblabla.blogspot.com/.

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