Sombras

Todas as noites, antes de ir pra cama, João encostava a porta de seu quarto, apagava a luz e esperava o dia amanhecer… Acordado.
Se ele apagava a luz?
Sim. Ele não tem medo de escuro. Já se acostumou com as sombras.
Acordado?
Sim. Ele tem medo de dormir pra sempre, assim como sua mãe.
A lembrança daquela noite perpetua em sua memória. Ainda pode ver os olhos assustados de Maria, sua irmã, fitando a face sem vida de sua mãe.
O primeiro raiar do sol trouxe rostos desconhecidos e sorrisos amarelos. Trouxe promessas de calmaria para a tempestade que os assolava.
Um homem fardado apareceu e os tirou dali. Era um herói. Um herói de farda. Farda que trazia respeito. Farda que assustava criaturas errôneas, assim como seu pai.
As noites anteriores àquela não foram melhores.
Assim que sua mãe dormia, era por Maria que seu pai procurava. As sombras encobriam tudo. Cheio de medo e ódio, João apenas observava o que acontecia pela fresta da porta. Sem reação.
Imaginou que tudo acabaria quando o homem fardado levasse seu pai. Pra onde não interessava. Interessava apenas que o levasse.
Foi a última vez que o viu. Foi também a última vez que olhou para o rosto de sua mãe.
As lágrimas de Maria queimavam sua pele. A dor também o consumia, mas conteve o choro, a fim de mostrar-se forte pra sua irmã.
Não sabiam o que era uma família. Por tempos acreditaram nas promessas da vinda de uma nova, de novos pais, novos irmãos… Os novos.
Também não sabiam o que era uma casa. Mas não podiam reclamar, afinal, por alguns anos tiveram um teto.
Embaixo desse teto, enquanto a noite não surgia, aguardavam ansiosos pela chegada dos novos.
Aguardavam em vão. Os novos queriam apenas os mais novos. Somente as sombras os queriam.
João e Maria sobravam num canto qualquer do lugar, esperando ser vistos, assim como uma roupa velha em um bazar.
Agora é tarde.
Há tempos João não vê Maria.
Sabe apenas que ela trabalha à noite. É da madrugada que ela tira seu sustento, satisfazendo o gozo da perversidade humana, fazendo uso das sombras.
Por falar em trabalhar, João também precisa ir. Seu trabalho não é nada fácil, precisa ganhar sem pedir. É engraxate de dia e pula-muros durante a noite.
Com os lucros, compra o essencial: pão e pó. Algumas vezes apenas pó, pra que ele consiga esperar novamente a noite chegar.
Se João precisar se esconder, as sombras estarão lá. Sempre estiveram.
Hoje, o homem fardado procura por ele. Usa uma farda que traz respeito. Usa uma farda que assusta criaturas errôneas, criaturas geradas pela ausência de cidadania, criadas pelo próprio sistema, vítimas de ciclos viciosos, vítimas das sombras… Assim como João.

O texto acima, assim como os personagens, trata-se de uma ficção.
Qualquer semelhança com algum caso real, é mera coincidência.
Porém, acredito que existam inúmeras “coincidências”.
Ajude a mudar realidades como essa.
Sugestão? Comece fazendo uma visita à Creche Missão Criança.
Informe-se: (34) 3222 6007

Artur Queiroz - "Quem sou? Dizem que sou quieto, calado! Dizem que sou muito certinho, letrado! Dizem que sou esperto, velhaco! Dizem que sou espontâneo, engraçado!" www.arturqueiroz.blogspot.com

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