Trabalho
Por Alessandra Leles Rocha
TRABALHO. Bendita seja essa força que nos provem a dignidade, a cidadania e a consciência da própria vida. Sim! É no verter suave e sagrado das gotas de água e sal pelo rosto cansado da labuta, que comprovamos todos os dias a nossa existência e a dimensão grandiosa que esse pequeno grão realiza na construção e no contínuo movimento (desenvolvimento) do país.
Pena que essa luta seja tantas vezes inglória! O espelho que reflete iluminado o esplendor do progresso e da prosperidade nacional não consegue nos dar tamanha beleza quando se posta diante do trabalhador. Não erram os que dizem que a grande maioria “paga para trabalhar”. O que um dia previu o salário mínimo custear ficou apenas no ideário. Pagamos caro por tudo; sem contar quando não o fazemos mais de uma vez! Os direitos básicos da Lei Magna1são bons exemplos; quem deseja bom ensino paga escola particular, quem deseja bom atendimento médico-hospitalar paga plano de saúde… E por aí vai. Nessa roda viva sobram mês e trabalho e falta dinheiro!
Para que ele seja mesmo o provedor da dignidade e da cidadania, o jeito é arregaçar as mangas e, na medida do possível – já que a vida tem limites incontestáveis! -, triplicar a jornada e se render aos despautérios do “moderno escravagismo remunerado”. Verdade que o empregador tem sobre seus ombros uma carga de impostos e tributos onerosa e tantas vezes obstáculo na busca por melhores e mais justos salários; mas, há grandes empresas e corporações por aí que não se cansam de manifestar publicamente seus lucros e bons desempenhos, esquecendo-se de que parte deles foi à custa da escravização velada de seus “colaboradores”.
É minha gente, diz o IBGE2 que o país está envelhecendo3; mas, nossas “cabecinhas brancas” não podem mais descansar, porque a aposentadoria que lhes é devida por anos de trabalho lhes impossibilita sobreviver. Aos jovens e adultos – a grande massa economicamente ativa – no ritmo que caminha o mercado de trabalho ou envelhecem antes da hora, ou falecem de exaustão – o stress, o grande vilão da modernidade ou de quaisquer tempos de escravidão física e/ou mental.
TRABALHO. Bendito seria ele se fosse reconhecido, se recebêssemos a paga justa, se nos devolvesse de fato a dignidade, a cidadania e a consciência da própria vida. Não temos mais senzalas, troncos, correntes, açoites ou chibatas; mas, continuamos a ver cidadãos brasileiros (de todas as etnias, credos, idades, gêneros, graus de escolaridade) todos os dias com os olhos e alma cabisbaixos, tristes, cansados, humilhados, comprimidos nos trens, nos ônibus, nas lotações pela busca do sagrado pão de cada dia. Esse “moderno escravagismo remunerado”, que ainda nos surpreende com a versatilidade brasileira dos que conseguem sobreviver com um salário mínimo, há de um dia restar somente nos livros como símbolo de uma época da inconsciência de um desenvolvimento desigual e distante do que se espera de uma grande nação.
Alessandra Leles Rocha - Natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).


























