Transe cultural

O sinônimo da catarse

“Espelhar-se no que está sendo representado ao alcance dos olhos é descobrir-se um pouco mais tomando emprestado o olhar do artista”

O que leva uma pessoa a sentar-se no banco da plateia a apreciar um espetáculo? É meramente o desejo da descontração, do riso, da emoção? É mais do que isso. Podemos afirmar, com toda certeza e segurança, que um espetáculo, seja de teatro, de dança, de música, de artes visuais, de cinema, é sempre algo que de algum modo nos transforma a vida, ainda que em nível subconsciente. E nada há mais gratificante para autores, atores, artistas plásticos, diretores, bailarinos e músicos do que quando o trabalho provoca uma catarse coletiva.

Dos tempos em que atuei como produtor cultural, obtive relatos de vários artistas sobre visitas emocionadas ao camarim, muitas vezes regadas a lágrimas, em que o espectador se dizia transformado pelas cenas que acabara de ver. Basta ficar um pouco mais atento aos vizinhos nas salas de exibição para perceber o quanto pessoas são tocadas pela ficção, ainda que a maioria tenha as suas emoções contidas.

Essa magia inerente ao espetáculo é tão intensa que ela se aplica também aos seus porta-vozes. Em um dos espetáculos que trouxemos, por exemplo, uma das atrizes foi acometida por dores lombares que a levaram a febres e delírios. Durante toda a minitemporada em Uberlândia, ficou reclusa no quarto de hotel, entre sessões de fisioterapia e massagens. Isso não a impediu de chegar ao teatro, quase carregada, e realizar o seu trabalho, que incluía um frenético ritmo de subidas e descidas de uma escada cenográfica. Quem a assistiu, imaginou-a esbanjando vitalidade.

Um outro exemplo da magia que toma conta do artista foi o inesquecível Paulo Autran. Vê-lo em cena, em Uberlândia e em várias cidades por onde tivemos o privilégio de produzir a turnê, foi algo inacreditável. Um senhor idoso e frágil, fumante inveterado (em quase todas as sessões, eu mesmo, nas coxias, segurava o cigarro, no qual ele, em fração de segundos, dava os seus tragos, na velocidade da troca de cena), que rejuvenescia uns 30 anos quando estava sobre o palco.

Se a magia da cena atinge tão visceralmente aqueles que estão representando, há muito mais a dizer sobre a carga de energia que demanda sobre os espectadores. Espelhar-se no que está sendo representado ao alcance dos olhos é descobrir-se um pouco mais tomando emprestado o olhar do artista. Cresce o tom quando, no processo coletivo da criação, a palavra se agiganta na boca de um bom intérprete.

Não é por acaso essa sinergia entre espectadores e artistas. O trabalho sério é resultado de muita pesquisa, disciplina e dedicação. Não raras as vezes resulta de um processo criativo doloroso por parte do artista, quando ele mergulha em um universo ao qual não pertence para descobrir as sensações das personagens que ele representa e a atmosfera que ele deve transpassar em cena.

Por isso, não se envergonhe quando uma lágrima desavisada rolar sobre o seu rosto. Ou quando, constrangido, a evitar engasgando-se. Essa emoção é um dos atributos mais fascinantes do ser humano e perdura há milênios, desde os primórdios da arte.

A catarse, no seu sentido léxico, segundo a definição de Aristóteles, é uma palavra que designa a “purificação” sentida pelos espectadores. Mas, pode se dizer que o sinônimo de catarse é a plenitude. Descobrir-se intensamente na vida por meio da ficção. Perceber que somos todos personagens de uma grande história. E dentro dela todas as tramas têm importância.

Carlos Guimarães Coelho é jornalista, produtor cultural e crédulo de que as artes, em todas as suas modalidades, têm poder transformador.

Carlos Guimarães Coelho - Jornalista e produtor cultural. É autor de duas obras: “Crônicas do Interior - Retratos de Minas” e “Nau à Deriva - A História do Teatro em Uberlândia (1908-2012)”, esta última ainda no prelo.

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1 Comentário

  1. Carlos,

    Texto extremamente pertinente e sensato. É fato. Vivemos um momento de uma visível omissão e inversão de papéis proposto pelo governo não só aos artistas, mas também aos atletas (com os projetos de lei de incentivo ao esporte), aos trabalhadores informais (com a ferramenta empreendedor individual) e em outros tantos papéis que transformam protagonistas em coadjuvantes sem fala, dando-lhe alternativas burocráticas e desmotivantes.

    Liara Abrão

    ( também jornalista, admiradora do seu trabalho a muito tempo!)

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