TrintaEMsete
Adoro a ressaca de uma noite aproveitada. Meus trinta, no resumo, duraram sete segundos. Peguei o bolo da firma e joguei na própria cara, feito seriado importado. Morri de rir. Não reparei se alguém ria comigo. Mas depois vieram tirar fotos com aquele rosto que já não era o meu – sujo de chantili com castanha de caju – e ao mesmo tempo nunca tão familiar daquele jeito, alegre melado escorrendo pro pescoço.
Ganhei umas bermudas, uns abraços, uns cheiros, uma orquídea, ah!, essas flores, e uma ou duas palavras de pessoas com quem já não trocava tantas assim. Pela primeira vez não chorei, mesmo sabendo das que eu poderia ter recebido e não vieram. Nem era riso farto, era concentração nas velinhas, pra fazer pedido e poder viver aqueles sete segundos muitas vezes mais; como um gato impostor, implorando um milagre pra ter a sorte de poder morrer sete vezes até a última.
Trinta anos foram embora com um monte de eus, com um monte de gente que eu gostava e de vergonhas. Sobrou, assim, esta espécie de vigarista que não se importa mais em ser descoberto, solitário apanhador de vitórias. No dia de mais um translado pelo Sol, olhei minha mãe de um jeito que era o mesmo de sempre: de que planeta veio essa dona? Me senti, então, como nessas coisas que são mesmo feitas de quadrinhos em cartaz, feitas para crianças, em quadro, no palco de novo. Me senti o último filho de Krypton, um Kal-el sem capa, gozador vira-lata de bairro classe média baixa. Me senti um apaixonado por este planeta que se resumia ao quintal da minha casa.
Duas ou três samambaias fora do lugar, pra dar espaço pro povo, foram melhores testemunhas do que era aquela gente ali, naquela hora. Eu com minha visão de raio x a desvendar os tantos sorrisos que nem eram só pra mim. Mas via todo mundo respirando a atmosfera secreta que nos fazia cada um seguir no seu passeio e se trombar na mesma esquina. Via também um pouco da tristeza nos porta-retratos dos que já não podiam ir à festa, quando eu tinha que passar pelo corredor para tirar água benta do joelho.
Neste dia, que já era outro pelo relógio de todo mundo, o remédio pra cuca misturou com o álcool de um jeito bom demais. Daí fumei um ou dois cigarros. Levitei até minha terra natal, aquele útero que só eu e meus dois irmãos estiveram um dia. Tudo bem, meu pai também. Tava facinho, como às vezes fica de ser. Eu sabia o que seria o outro dia. Acordei com a ressaca mais provável de todas e sentindo ainda as últimas sensações de meu corpo de aço que virava gente a ir pro trabalho. Poucas vezes fui tão feliz. Obrigado por encherem meu copo. Saúde.
Renato Cabral - Renato Cabral é ruminante inveterado. oruminante@gmail.com
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Adorei!!!!
Espero me sentir assim daqui 3 meses rs…
sarcasmo, refluxo, convexo… rir para não chorar!!
o sexo continua o mesmo, graças!!
chau!
Muryel, exato e poético até em comentário de blog
Valéria, se você se sentir assim saiba: cuidado com as cólicas após 48h