Um companheiro indispensável

Por Ricardo Abdala

Na primeira parte deste meu sorriso bastardo, respira a lividez do pranto silencioso que escorre pelo canto esquerdo da face.
Na feira segunda desta manhã de segunda – feira, as lamentações entram pelos poros e fazem parte desta cachoeira de sal que enxágua as entranhas.
Tudo isso por conta de um final – de – semana ruim. Nos milhares de festas e rostos felizes, a alegria e seus derivados enfeitavam os sorrisos dos vários topetes e bundas dançantes. Porém, há um caso diferente deste contexto – é que carrego comigo sempre, os ali tão apagados ídolos de tempos atrás –.  Outrora, tivesse eu pensado que me adaptaria facilmente à maioria de nossas novas relações sociais e isto significa aprender que é preciso puxar o cabo que navega neste meu bem – vindo passado musical, e cair de vez na folia do “agora jaz meus mitos”…

E que dia de sol! Antes mesmo que terminasse de compor aquele pagode sobre meu viver, eis que de longe, aparece meu amigo Lu de Laurentiz com suas botas de sete léguas, trazendo consigo sua velha “tilim” de Peter Pan, esta mesma juventude que perante a meia – idade lhe qualifica como a “poesia em persona”.

Disse – lhe em “caetanês” já traduzido e adaptado, que depois de uma semana “meu mundo girava lentamente, mas aposto que me conhece / existe outro mundo que você possa me mostrar”, por isso recorro a este coro e corro sempre em sua direção.
Em meio aos emails de Orkut, quis deixar – lhe um poema novo que fala sobre a experiência de viver de poesia: um poeta esfomeado que engoliu as letras de seus sentimentos de macarrão, depois sentou – se numa mesa de bar e pediu um “si maior, por favor.”. É um poema introspectivo, de gaveta mesmo…

Ele sorri e me entrega um livro assinado por Lirovsky.
[Vai ver que é russo!] Pensei: Vai ver é poesia e das boas!

Após alguns bem servidos minutos de conversa, agradecido, me despedi.

No sobe desce ladeira até chegar à sala de aula, folheava por curiosidade, as páginas deste meu presente – de – capa – verde. Já em meu devido lugar, no decorrer da matéria, é que me vejo mergulhado em outra retórica mecânica, característica das aulas de Termodinâmica.
[Com um pouquinho mais de paciência, este meu novo companheiro cor de esperança há de me fazer viajar para fora daqui agora mesmo!] – é o que todo aluno que não presta precisa nessas horas – e foi o que eu fiz. Abri o livro sob a carteira, escondido, para não me julgarem como estudante de poesia que gosta de engenharia, e fingia prestar atenção à aula.
Enquanto achava que enganava mais alguém além de mim mesmo, minha atenção dispersa se ligava nos dois ambientes e o que eu entendia era mais ou menos assim:

“(…) O valor numérico é o mesmo,
você se expandiu empurrando toda a vizinhança
na tentativa de não misturar propriedade e substância.”

Era a “termopelejodinâmica” de Deus com o Homem moderno. Prosseguindo:

“(…) olhou para cima, percebeu as amarras em volta do corpo
e o Senhor balançando as varetas
por cima do couro …”
“(…) e todo esse trabalho,
se o sistema aquece,
se a vida sobe,
se a mola é mole,
se a gente obedece.”

Agora se nós dividíssemos o que conversamos até agora; se chegarmos ao estado 2 e passarmos por dentro da situação, no processo desta escala da substância os problemas se amarram:

Senti na boca um sabor adstringente que deslizara um por um dos ossos da garganta, ao rever minha primeira professora:
– Estou bem tia, faço poesia…
[Bons tempos aqueles, era um tempo sem ambição...]
Procurei manter – me sob controle ao tentar esconder as tatuagens no meu braço.

– Poe…? – me perguntou como quem não compreende o que foi dito.
– Pó – é – zia! Tipo aqueles textos sobre o Chico Bolacha que vinham nas cartilhas da gente! Lembra?
– Ah sei… o Chico Bolacha… Pobrezinho… Só se dava mal!
– Pois é. Hoje quando ouço um cachorro latindo, vejo cores. A primeira vez foi em uma chuva, então eu vi um dó e era azul; depois passei a sentir um gosto na língua quando ouvia uns tons diferentes, o som do ‘xis’, por exemplo, tem gosto de bolo bem recheado! É esplêndido!

Ela me acariciou os cabelos e se despediu me prometendo umas preces.

Então fui para casa procurar o canto onde as infinitas experiências serão sempre eternas – nas páginas de meus indispensáveis companheiros – e ali estava: Posto livre sobre a calma da cama vazia.
Toquei – me exatamente na cena em que Maiakovski aparece sentado à sua mesa de jantar conversando com o próprio sol; neste momento, vi uma fenda enorme rasgar – se sob o chão do quarto e imediatamente um vapor subiu às paredes envolvendo toda a luz.
Não é possível! De toda natureza, seu exemplar mais belo, que passeia sobre as nossas cabeças dia após dia, e um poeta tentando catalogar toda a existência, preocupado com sabe – se lá o que, jamais havia percebido que o sol também é gente?
Pois abra bem as pernas, Colosso de Rodes! Hoje, mil de nós abraçarão seu polegar! Seremos todos à encarnação das forças da terra e das plantas!

E  um raio cálido de sol entrou pela janela de cortinas balouçantes e afagou – me o ventre.
Então senti o brilho de minha pele oleosa se misturar com todo o universo, e era lindo, era novo!

Ricardo Abdala - Engenheiro registrado no papel e um músico pela vida, o que faz mesmo é correr em volta de um lirismo que a própria vida, com suas facaneias pungentes, insiste em retirar de nossos olhos.

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1 Comentário

  1. era lindo… era novo…
    coisas que acontecem ao mesmo tempo e se levantam juntas…

    ex toto corde semper fidelis…

    hasta, compañero!

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