Um Rio de lágrimas
Por Alessandra Leles Rocha
Há mais de quinze horas a cidade do Rio de Janeiro vive o caos da inundação proveniente das fortes chuvas que teimam em assolar o país. Bolsões de água por todos os cantos e o carioca tornou-se refém ilhado das intempéries naturais.
A notícia não tem novidade, mas cada vez que se repete ganha nuances mais grave. A síndrome do desenvolvimento progressista que empurrou os aglomerados urbanos ao mais profundo colapso do uso e ocupação do solo trava, talvez, a pior de suas guerras contra a Natureza. Qualquer previsão climática escapa ao controle de leigos e cientistas para que se torne possível prevenir do que remediar. Os cálculos, as expectativas, as engenharias, tudo se esvai na força da enxurrada ou no avanço brutal das marés.
A “cidade maravilhosa, cheia de encantos mil” 1chora o desespero da imagem distorcida de Narciso! O equilíbrio urbano e natural rompido pela lama, pelo lixo, pela desordem. Os braços continuam abertos, mas desta vez em sinal de desespero, da busca por respostas, por soluções; são braços de quem clama piedade extra na conta daquela já necessária no dia a dia sofrido das grandes metrópoles.
O inesperado devolve o reflexo da realidade e dimensiona os limites dos sonhos e das necessidades. A peculiar mania brasileira de se postergar ao futuro incerto às soluções dos problemas crônicos fermenta com maestria as tragédias cotidianas e nos faz crer que dois mil e quatorze2 e dois mil e dezesseis3 são datas próximas demais para uma radical transformação urbano-social. Nem sempre o querer é poder, é ser exequível, é dispor dos meios e recursos suficientes para voos tão ousados. É preciso parar de olhar além dos horizontes e baixar os olhos sobre o hoje e o agora! Milhares de cidadãos, gente que paga impostos, que move a grande engrenagem do capitalismo, precisam de atenção, de esperança concreta em dias melhores.
Como diz o provérbio português: ”quem não tem competência, que não se estabeleça”. O papel aceita tudo, mas prometer o que não se pode cumprir é vergonhoso! Não se pode avançar em busca de novas oportunidades quando as bases do desenvolvimento não existem ou estão carcomidas pela ferrugem da inconsistência. Nem só de beleza vive o homem! É preciso muito mais para ser feliz e dar felicidade! Não se pode exibir um sorriso verdadeiro quando na boca faltam os dentes!
Imagem: http://3.bp.blogspot.com/_glyLfBk9Cic/SZy_By7Z20I/AAAAAAAAGxw/MrRSWzQL2O4/s320/LAGRIMAS.jpg
1 http://letras.terra.com.br/marchinhas-de-carnaval/497940/
2 http://pt.wikipedia.org/wiki/Copa_do_Mundo_FIFA_de_2014
3 http://pt.wikipedia.org/wiki/Jogos_Ol%C3%ADmpicos_de_Ver%C3%A3o_de_2016
Alessandra Leles Rocha - Natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).
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