Um sonho que não se sonha só

A esperança de Uberlândia tornar-se um polo de produção audiovisual, que muitos julgavam perdida, parece agora próxima da realidade

Um sonho que não se sonha só

A lona estava armada em um revigorado Mercado Municipal. O suntuoso café da manhã anunciava a chegada de muitos convivas para a projeção quase circense, por estar sob lonas, de mais um filme da programação carinhosamente pensada para cinco dias de encontro. Nesse clima bucólico instalou-se a Perpendicular Mostra de Cinema e Vídeo, encerrada anteontem em Uberlândia.

O projetor de películas em 35mm formava um desenho perpendicular ao sistema digital reservado para outras exibições. Naquele praticável passado, presente e futuro encontraram-se para projetar sonhos. Sob a ótica deliciosamente delirante da videomaker Nara Sbreebow, uma dita cuja cédula de R$ 10 vira personagem em uma das primeiras projeções.

Entre debates, animações, dramas e comédias, agitadores culturais, como Carlos Segundo, que jogou sua luz por trás de muitas colinas, e de Iara Magalhães, cuja extinta Sétima Arte foi berço de muitos sonhadores que sonharam a ponto de transferir os sonhos para as telas, promoveram a terceira versão de um encontro que acena como promissor no cenário das artes em Uberlândia.

Se a tela projetava os sonhos de seus criadores, a mesa era o espaço para reflexões mais profundas. Mecanismos de produção, mercado, leis de incentivo, entre outros pedregulhos do sinuoso terreno da cultura estiveram em pauta no encontro.

A esperança de Uberlândia tornar-se um polo de produção audiovisual, que muitos julgavam perdida, parece agora próxima da realidade. E, mesmo parecendo uma história recente, a cidade impõe-se em um surpreendente documentário realizado na década de 40, que teve, pelo menos nas últimas décadas, sob a lona da Perpendicular, a sua primeira exibição pública.

Os arquitetos dessas fantasias postam-se reflexivos na observação das narrativas nada lineares no panorama da diversidade. Linguagens bem-humoradas, discursos pomposos, tons de sobriedade, poesia narrada e poesia visual. Focos narrativos diversos alternaram-se na experimentação do exercício humano de fazer cinema.

E ali sonhos e pesadelos se encontram. O melhor e o pior do homem vêm à tona. A justiça social assume formas fora de sua cegueira convencional. O capital passa a ser menos determinante no destino das pessoas e um novo ser humano se constrói a partir do que é projetado na tela. Sob a lona, o equilíbrio de um mundo chamado cinema, traduzindo em poesia a perpendicular estrada de nossas vidas.

Carlos Guimarães Coelho - Jornalista e produtor cultural. É autor de duas obras: “Crônicas do Interior - Retratos de Minas” e “Nau à Deriva - A História do Teatro em Uberlândia (1908-2012)”, esta última ainda no prelo.

Compartilhe:




Gostou? Deixe um comentário:

Seu comentário só será publicado após aprovação do moderador.