Upside down
Começar pelo título é criar o destino da prosa, não importa os caminhos que eu tome, o script está selado, organizado em alguma teia de acontecimentos fugidios. A dona Hemorrágica anda fazendo terapia. No começo pareceu meio estúpida a idéia, e mais besta ainda vir aqui contar isso. No começo a resistência porque parecia que alguém vinha com O torniquete e me estancaria de vez. Pingar só frases adultas e sensatas, adequadinhas pra cada situação. Aí pronto, morri de tanto medo. Mas vejo que abrir a nossa panela de pressão para os outros é o dever moral mais árduo que existe. Não tem dor mais bem parida do que a de falar sobre si mesmo. Pegar aquela sujeira bem escondida debaixo de algum tapete aqui dentro e jogar para fora, ler com outros olhos e por fim, lixo. E fazer isso numa cadeira quase invisível de tão surrada pela dor desse parto, por tantas pessoas que já passaram ali e fizeram o mesmo que eu faço toda semana. A discussão lhe parece fútil? Inútil? Talvez seja mesmo. Mas a hora chega pra todo mundo. Seja a terapia, a aula de ioga, o exercício de academia, o antidepressivo. Uma hora você vai escorregar, pedir arrego. Talvez porque conhecer nossa grandiosidade assusta, faz cair por terra aquele discurso somos-uma-gota-no-oceano. Um dia cada um encontra sua forma de rasgar o véu da cara, de assumir as próprias desgraças. De ser o centro, porque ser a periferia já cansou, ser o que todos imaginam já causou náuseas demais. Chega uma hora que todo mundo atravessa o muro para a própria realidade construída por nós mesmos. A vida vem categórica cobrar o débito, e quem paga somos nós. Posso estar sendo cretina mas vou-me embora, atravessar esse muro e dar com a cara no que eu fiz de mim. Sentada naquela pobre cadeira que não tem culpa de nada, pegar os lencinhos de papel conforme o combinado e chorar por mim. Chorar por ver o que fiz e remediar boas alternativas, sentir vontades verdadeiras,e se for piegas (sim é piegas), fazer como senhor sao francisco pregou nas montanhas verdes de filme noviça rebelde. Amar com eyes wide open. Virar meu mundo upside down babe, refazer os ponteiros do meu ir e vir, por você.
Rafaella Biasi - Cursou letras e se formou em Design de moda. Escreve apenas para alcançar o alívio, imediato. Conheça também Eu hemorragia.


























