Zumbi e a Consciência Negra

Num artigo publicado na Folha de São Paulo do dia 30 de novembro último, o filósofo Luís Felipe Pondé criticou o movimento negro e a comemoração do Dia da Consciência Negra, atacando-os por, supostamente, santificarem a figura de Zumbi. Identificou uma espécie de proto-fascismo entre os militantes do movimento, pois utilizariam termos semelhantes ao da novilíngua nazista, tais como “construção de um novo homem”, “nova consciência”, “nova cultura” etc. Pondé utilizou-se de um artifício comum aos demais polemistas da direita neocon, que é o de distorcer os argumentos dos que são alvo de sua crítica, a ponto de criar uma caricatura, para, em seguida, atacar a caricatura, frequentemente lançando mão de insultos. Por isso, é impossível debater com eles, pois são surdos às razões de seus oponentes. O movimento negro é multifacetado, possui tendências de ideologias diversas. Algumas pecam pela intolerância e sectarismo, mas não há nada ali que se assemelhe, nem de longe, à estética ou visão de mundo fascista.

No seu ataque ao Dia da Consciência Negra, Pondé surpreende-se com a descoberta de que Zumbi e outros palmarinos possuíam escravos, e que muitos escravos, uma vez livres, tornavam-se senhores de escravos. Com base nisso, ele desqualifica Zumbi e a comemoração da Consciência Negra. Há muito tempo se sabe que quilombolas possuíam escravos e que ex-escravos tornavam-se senhores de escravos, e seria surpreendente se assim não fosse. A escravidão, muito mais do que uma relação de trabalho, era um valor, isto é, moldava a visão de mundo da sociedade brasileira, no período colonial. Todos, ricos e pobres, livres e escravos, fazendeiros e criadores de gado, ilustrados e analfabetos, eram escravistas naquela época. No tempo de Zumbi, no século XVII, o abolicionismo não existia, pois não se concebia a idéia de igualdade do gênero humano. Somente com advento do humanismo das Luzes, no final do século XVIII, é que o abolicionismo pôde surgir, tornando-se, em seguida, um movimento político e social, primeiro na Inglaterra e depois no resto do mundo ocidental. Esperar que Zumbi ou que os escravos fossem abolicionistas em pleno século XVII, e condená-los por não o terem sido, é anacronismo grosseiro. No caso de Pondé, filósofo renomado e psicanalista, não se trata de erro cometido por ignorância, mas por má fé, com o propósito de desancar o movimento negro, com o qual não simpatiza.

Quilombos como o dos Palmares, do qual Zumbi é símbolo, não foram importantes por terem sido abolicionistas, mas por terem sido a afirmação de humanidade daqueles que os criaram. Ao fugirem dos seus senhores, se organizarem em povoados, constituírem famílias, clãs, economias e milícias, os quilombolas obrigaram as autoridades e os fazendeiros a vê-los e tratá-los como gente, e não como coisas. Palmares construiu um sofisticado modelo de organização política, herdado da África e adaptado à realidade colonial. Nos seus oitenta anos de existência, fez comércio, acordos de paz e guerras com portugueses e holandeses. Por estratégia de sobrevivência, possuía uma organização centralizada e militarizada, o que acabou por desencadear violentas guerras sucessórias por ocasião da morte dos líderes. Ali se praticava a escravidão, instituição comum ao Brasil colonial e aos reinos africanos do século XVII. É essa teimosa e fascinante afirmação da humanidade dos escravos que se comemora no dia 20 de novembro, sem qualquer juízo sobre valores ou práticas de outra época.

Luís Bustamante

Luis Bustamante - Médico pediatra do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, doutor em geografia pela USP, professor de história do Colégio Nacional e autor dos livros "A Oeste das Minas" e "Triângulo Mineiro, do Império à República".

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2 Comentários

  1. Obrigado pelo artigo esclarecedor.

  2. Saudações!

    Apenas penso que ele exerce muito bem a função de “polemista”. É dos melhores, pois traz com uma certa inteligência (se podemos chamar assim) os seus comentários e acaba, na maioria das vezes, atingindo os seus objetivos: dar a luz a discórdia, “polemizar”, deixarmo-nos putos da vida.

    E ele consegue! Sem cair em lugares comuns, saindo dos clichês até mesmo dos seus pares, os neocon (como citou) e os politicamente incorretos. Acho ainda que ele nem sempre expressa as suas verdadeiras opiniões, justamente para cumprir uma das metas da ilustração, o debate. Apesar de tudo e, na maioria das vezes, não concordar com ele (”sou um dos babacas e retardados verdes hipócritas”) continuarei lendo, às segundas, para cair em gargalhadas raivosas.

    Ah! O seu produto é consequência do objetivo dele, certo? “Ilustremos-nos!” Parabéns pelo artigo. Continua muito bem!

    Até e bons ventos!

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