As Voltas que A Vida Dá

Cuida-te para que ninguém
te odeie com razão
Catão

Eram três da tarde. Tomei um banho rápido, com a porta do banheiro entreaberta para o caso do interfone tocar. Vai que o cara chega? Esses caras de firmas de instalação são todos assim: você bobeia e eles chegam e se mandam num instante. Depois você liga para reclamar, dizer que perdeu o dia inteiro em casa esperando, e te falam que o rapaz foi sim, e haverá lá um relatório dizendo: “o porteiro tocou no apartamento, mas ninguém atendeu. Ainda esperei a dona chegar por meia hora.” – uns putos mentirosos.

Foi só o tempo de eu desligar o chuveiro e o interfone tocou:

– Dona Vera, o rapaz da rede está aqui.

– Pode mandar subir – eu disse.

Já fui pobre, morei na favela, namorei malandro, até programa eu já tive que fazer, mas isso ninguém sabe, foi há muitos anos, e por pouco tempo, graças a Deus. Mas a vida dá muitas voltas. Conheci o Carlos num barzinho, desses modernos, em Moema. Eu e as meninas pegávamos três ônibus, na Vila Ré, para chegar até lá, aos sábados, mas a gente sempre arrumava carona pra voltar. Hoje eu moro em Moema, veja só! Quem diria? As voltas que a vida dá.

Carlos se apaixonou por mim logo no primeiro dia que me viu, deu na cara, ficou atrás de mim a noite inteira, abandonou todos os amigos. As meninas repararam antes de mim. Mas me fiz de durona, de moça que não vai se dando, assim, logo da primeira vez. Esse foi o meu acerto. Casamos seis meses depois. Para aquela gente de lá, minhas antigas amigas, invejosas, eu dei o golpe, mas não é verdade. O Carlos além de rico é um homem apaixonante, e tem lá a sua beleza. Acabou-se para mim a periferia, aquele povo fofoqueiro, desocupado, maloqueiro, aquela dureza de muitas vezes não se ter nem mistura pra pôr no prato. Quem me vê bem vestida assim, dirigindo cabine dupla blindada, sempre de óculos escuros, chiques, bolsas e sapatos caros, viajando o mundo com as amigas bacanas que tenho hoje, não imagina de onde eu vim e pelo que já passei na vida.

Abri a porta.

– Boa tarde, vim pra instalar a rede de proteção – disse o homem.

– Entre, por favor, é lá na varanda – apontei, bem séria, as portas de vidro da sala de estar.

Não sou de dar liberdade pra essa gente. Assim que ele passou por mim e cruzou a sala com aquelas botinas sujas, o reconheci. Foi uma coisa instantânea. Pelos olhos, talvez pelo andar, pelo cheiro, não sei dizer. A gente acha que esqueceu alguém, mas o subconsciente da gente guarda tudo. Tudo. Na hora certa, traz de volta. Um velho conhecido, quem diria? As voltas que a vida dá.

Ele não me reconheceu. Afinal, fazia mais de vinte anos, e eu era uma criança de doze, treze anos, e ele já era um homem. Além disso, mudei muito: cabelo, arrumei dente, refiz nariz, silicone, bronzeamento, lentes, lipoescultura, musculação… Quem me reconheceria?

Ele botou a maleta sobre a mesa da varanda, tirou a mochila enorme das costas, retirou a rede lá de dentro e começou a desenrolá-la, branquinha, como eu pedi. Abriu-a no chão. Terá vindo cortada no tamanho?, pensei. São doze metros de varanda, só de frente. O Carlos achou melhor colocarmos. Segurança é tudo, disse ele. Nossos casais de amigos estão sempre em casa, em grandes grupos, fazendo churrasco, pizzas, tudo ali fora, bebendo, rindo, cochilando nas espreguiçadeiras. É assim que gostamos. O pior é o álcool. “E se um se desequilibra e cai dali, meu amor?” Me convenceu na hora. O Carlos tem bom-senso, não foi à toa que ficou rico. Talvez a rede estragasse um pouco a minha vista para o parque do Ibirapuera, mas isso seria melhor do que pularmos das colunas sociais direto para a página policial.

E eu, ali do meio da sala, meio que escondida, pensando em tudo isso e olhando pra ele sem acreditar no que meus olhos viam. Ele agora está mais velho, alguns fios grisalhos nas têmporas, e a testa cresceu bastante; há também umas rugas tipo bigode-chinês em cima da boca. Continua magro, mas o rosto está mais encovado. Efeito dos anos nas drogas, imaginei.

– A senhora me dá um copo d’água? – ele me pediu, subitamente levantando os olhos dos apetrechos que ia tirando da maleta e olhando direto pros meus. Tomei um susto. Não imaginei que ele estivesse me vendo ali, ao longe, meio que escondida na sala.

– Claro – respondi.

– Rose, traz um copo d’água! – gritei lá pro fundo. Então me lembrei que quinta é a folga da Rose. Estremeci por um instante. Estava só em casa com ele. Carlos estava no escritório. Virei-me para ir eu mesma buscar a água e percebi que ele ficou, lá de fora, olhando o meu traseiro. Voltei com a água. Estiquei o copo pra ele, que agradeceu e bebeu numa virada, babando feito porco na camiseta com os dizeres: “Confiança Redes de Proteção – Quem ama protege”.

Deixe-o trabalhando e fui para o estúdio, a cabeça a mil. Sentei-me diante do computador, mas logo me levantei. Estava agitadíssima! No lavabo, acendi as luzes, lavei o rosto e me olhei no espelho. No fundo dos meus olhos encontrei a lembrança daquela tarde de sábado, atrás do campo de futebol do bairro. “Você vai ajoelhar aqui, putinha, e botar na boca o que eu te der pra botar. Depois vai embora e não vai abrir esse bico pra ninguém, se cagoetar boto fogo na tua casa e mato teu pai”. E ele fazia mesmo. Era perigoso, já tinha matado gente, cumprido pena por assalto. Todo o bairro tinha medo dele e dos traficantes que andavam com ele.

As voltas que a vida dá. O filho da puta agora pega no batente depois de velho. Instalador de redes, quem diria!

Bom, todos merecem uma segunda chance.

Fui para o quarto. Tirei a roupa sóbria e coloquei um shortinho branco curtinho e uma miniblusa bem decotada, tão decotada que só uso em casa para o Carlos não implicar. Soltei os cabelos. Passei um pouco de óleo perfumado nas coxas, no colo e nos braços. Voltei pra sala e coloquei um CD, quase inaudível por causa do barulho ensurdecedor da furadeira. Ele estava em pé sobre o gradil de proteção, o corpo penso no ar, vinte e três andares de altura. Uma das mãos forçava a máquina de baixo para cima no concreto do teto – são muitos furos e muitos ganchos para se colocar uma rede, já vi fazerem no apartamento da Dani –, a outra segurava o beiral, junto à quina da laje, para dar estabilidade ao corpo.

Aproximei-me das portas de vidro. O nome dele me veio à cabeça, assim, de repente; sinceramente, eu não esperava. Ah, o subconsciente da gente! Não existem dois com aquele nome no mundo. Quando ele me viu ali em pé, linda e gostosa, baixou a máquina e cresceu os olhos pondo um sorriso na cara. Aqueles olhos libidinosos, era ele mesmo, não tive mais dúvidas.

Soltou o gatilho da furadeira e o ruído cessou. A voz da Gal encheu a sala de um clima gostoso. Através do guarda-corpo pude ver o Parque e a República do Líbano, os carros passando pequenininhos. Aproximei-me sorrindo suavemente, rebolando, insinuante. Cheguei bem perto e me vi, ironicamente, na mesma posição, na mesma altura que estive vinte anos atrás, no fundo de um campinho de futebol. Dessa vez, preciso confessar, gostei mais de estar ali.

– Você aqui trabalhando pra mim, tão dedicado, e eu nem sei seu nome – perguntei, toda sexy, marota. Sei fazer isso muito bem.

– Wlaudisnei – ele respondeu, olhando lá de cima direto pros meus peitos, babando. Enlouqueceu com a possibilidade, com a sorte que dera, nunca teve uma mulher como eu.

– Ah, Wlaudisnei… – suspirei –, que bom, era só o que eu queria confirmar. Ele soltou a mão do beiral da laje e se agachou na grade, ficando perigosamente empoleirado, pronto para descer e pegar a madame gostosa de jeito, quem sabe no tapete da sala. “Essas ricaças são umas vacas”, se vangloriaria depois, lá pros malandros velhos da Vila Ré, onde ele ainda deveria morar, talvez no fundo da casa da sogra, num puxadinho fedido, erguido no bloco aparente, com a mulher gorda e feia e uns filhos remelentos.

Pus as mãos delicadamente em seus joelhos e nossos olhares se cruzaram. Quando ele insinuou a cabeça para me beijar, empurrei. Pus toda a força e o peso do meu corpo. Nem precisava tanto. O filho da puta voou de costas. Os olhos se esbugalharam, o sangue sumiu da face, a boca se abriu num ó mudo de horror. A furadeira ainda na mão direita, o fio sacudindo no ar. Uma cena impressionante de se ver. Acho que ele não entendeu nada. O benefício da dúvida eterna, foi o que dei a ele.

Olhei para os prédios próximos. Ninguém olhando. Rico é bom por isso, não fica na janela perdendo tempo.

Entrei rapidamente, prendi os cabelos e troquei a roupinha insinuante por uma mais séria. Aumentei a Gal que cantava Caminhos Cruzados – Quando existe alguém que tem saudade de outro alguém… – e fui para o estúdio, aguardar o interfone tocar.

Sairíamos mesmo nos noticiários policiais, mas fazer o quê? As voltas que a vida dá

Cesar Cruz

Cesar Cruz

É paulista da Capital. Nascido em 1970, escreve contos, crônicas e artigos, além de fazer consultoria e revisão textual sob encomenda. Tem 4 livros publicados: O Homem Suprimido, Scortecci – 2010; A Idade do Vexame & Outras Histórias – 2011, A Invasão dos Horácios – 2013 e Território Conquistado – 2015, todos os três últimos pela Pontes Editores. Blog: Os Causos do Cruz.

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