Aurélio Mendes no Página Cultural

Marco Aurélio Souza Mendes, nascido na cidade de São Paulo em 06 de Dezembro de 1994. Atualmente, cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares e promete publicar seu novo romance histórico, Abapanema, ainda em 2014. Contribuiu também para a antologia poética ‘Mil poemas para Gonçalves Dias’, organizada pela UFMA, com a ‘Canção do Exílio do Século XXI’; sua paródia da Canção do Exílio. Mantém com alguma frequência um blog literário de crônicas e poesias (www.devumi.tumblr.com). Suas inspirações literárias e, por consequência, seus autores preferidos vão de Machado de Assis, Clarice Lispector e Guimarães Rosa para a prosa e Fernando Pessoa, Pablo Neruda e Vinícius de Moraes na poesia.

Meninazinha do Sertão

Tempo pouco de muita vida tinha nas bandas dos confins daquele meão nordestino umas poucas gentes que genteavam. Pelo menos tentavam. Mas para ser acadêmico dos olhos luxuosos e virtuosos de sabedoria via mesmo que aquela gente era animal selvagem que só selvageava nos catares da sobrevivência. Era bicho humano, só que mais primeiro que segundo. É prosa meio lendária essa narrativa contatada. Verdadigo que é verossímil, sem mentir nos meus dizeres obtusos. Reto eu seco logo essa minha literatura.

Tinham uns negros mocambos que negravam, simplesmente. Ritos para oxalá e xangô, deuses daqueles pagães para os que monopensavam só na cristandade elitista dos mais abastados. Trigueiro, tizil, preto descambado em discórdia. Assim sucediam os nomes que aquele povo era chamado. Só velava por preconceito de homem contra homem mesmo. Tinha rodas de capoeira, que jogavam e cantavam as cantigas dos ritos de umbanda. Pregavam paz? Muita! Só que o alheio só via pregação de mazela e chamada para o capeta! Arrê, diacho desses homens que tentam nos pressionar com seus santos como se fosse a única verdade! Negrinho mesmo magrinho cantava no gingado de samba as palavras místicas:

Ele é meu Pai
Baba dos Orixás
É Olurum é senhor de Yorubá

Ave Maria, leitor, porque chegara a hora de eu ausentar-me para uma oração. Não lamento nas muralhas como meus amigos judeus. Devo só respeito mesmo. Eu vos digo certo ditame certeiro: homem bom é aquele sem ódio cravado como cicatriz no coração. Pode até ser ódio de corte, mas tem que ser só de superfície. Eu já procurei algumas ervas que curassem as feridas de meu peito, cicatrizassem minhas dores provocadas por descaso próprio meu. Nem tem! Deveras entrego labuta difícil para vossa pessoa. Eu mais velho de velhar agora, só espalhando minhas ideias nos papéis que prosearão muita ou pouca história minha. Só isso. Aí, se um dia, o detentor das chaves, que guarda segredamente dos pupilos a resposta para a vivência em harmonia, abrir o baú, pega! Chance única de sabermos a receita para, um dia, vivermos na benfazeja dessa coisinha que os juristas tanto falam, a chamada de dignidade humana. Olerê, eu bem que queria agora continuar a descrever essa sinestesia da religião, mas ela é só efêmera. Os negros, com sua negritude dócil, já morrem na bala dos tropeiros e infelizes cabra-machos de mente pedregosa.

Sertão não tem mar, nem vira rio. De água. Todo dia chove mesmo poças de sangue da violência. Bravil homem vai e arreda o pé de quem não acha que deve viver. Ah! Que existir mais coisificado esse nosso. Tão triste e melancólico que eu mesmo penso em algum dia desses desligar-me da frequência do existir. Caminhar é muito árduo naquele solo, piso queima até as entranhas mais fortes. E se consegue caminhar, vai logo se afogar noutra esquina com a correnteza de sangue.

Agora eu posso dizer de outra. De sinhazinha que vivia presa na mortandade daquele árido pedaço de existir. E vivia com cumpâde trabalhador. Trabalhava migalhamente para suster almas com ciscos de pão, os mesmo que os pombos comem nas praças de metrópoles. A rocinha do fundo de seu quintal nunca conseguia dar mais que uns talinhos miseráveis de mandiocas mal nutridas. O mês era longo, porque a fome furta do acordar nossa esperança. Essa dor sim causa ferida doída de cicatriz incurável. De viver feridado eu já cansei em tudo que passei. ─ “Oh, meu bom amado Jesus, se sinhô pudesse me dar umas gotinhas dessa água que vem do céu, eu faço cair água das nuvens dos meus olhinhos também, prometo. Eu rezo cem pais nossos, cem aves-marias e rogo em romarias peregrinantes por todo esse sertão!” ─. A nossa sinhazinha tinha desejo de chuva chovida bem, porque nuvem boa ia trazer água para regar seu jardim de sorte. Essas nuvens branquinhas nunca apareciam lá para depois ficarem escuras e fortunar aquela gente.

Dia passa rente ao sol, e como milagre sortido em surpresa de criança, a vida surpresou a sinhazinha com chuva. E naquele descarrego d’água veio também filha nascida. Dois desejos num só, numa boa ida corriqueira dos milagres; quiseram ficar para mais uma rodada de bebidas no bar nosso e já deixaram, junto com a conta, milagrezinho extra. Mas nem teve romaria, pai nosso ou ave-maria. A sinhazinha morreu e só sobrou menininha mirradinha, mas de beleza que embelezava com cor o neutro cinza da vida apática da gente. E era! Coisa bonita! Parecia não só filha da mulher, daquele casório, mas produto até dos sôfregos daquela terra: os cabelos negros, no simbolismo desse povo bruto que fazia parte da história; lábios vermelhos, pois já nascia beijando a morte com seu sangue cruel, nem vendo mãe para crescer. Era tão branquinha, mas tão branquinha, que os vizinhos achavam que ia torrar na primeira vez que saísse  naquele cálido sol. Alva como a neve, mas neve não se tinha naquele lugar. Só nuvem branca no dia que nasceu. Branquinha da nuvem.

Só que me permita interferir em prosa na minha própria prosa. Eis que o frio, mitigado nas gotículas gélidas dos climas de neve, não só precisam vir do céu. Era eterno inverno sob verão constante naquela terra; o esquecimento é a pior das estações, a mais fria de todas. Não adianta argumentar comigo, leitor. Seu claustro aconchegante em sua residência não reflete o que é verdadeiramente nascer nas terras de ninguém: sofrer (sofrexistir se preferir). Tem tempo ainda de corrigir essa sua existência privilegiada, aprendendo com Nietzsche: Devemos nos despedir da vida como Ulisses de Nausícaa – bendizendo mais que amando.

Ela cresceu e como flor floresceu em rosa no sertão. Meninazinha no ontem distante era agora mulher formosa e bela no dia de hoje, esse mesmo no presente. Essas descrições de gente e terras pouco me importam. Gosto mesmo é da florescência interior humana. Já tinha infância passada longe, em arco-íris passageiro e ligeiro. O Pai muito via da mãe na sua jovem pródiga. Ah! Que reluzia muito na escuridão de lá, porque trazia com sua beleza e simpatia idílica um coração gigante, que condecorava cada um com pouquinho de solidariedade. Muito passou. Nesses tempos, Pai casou outra vez. Descasou com a morte da primeira. Casou em segunda vez por falta de mulher para noitear com ele pela cama. Só que sinhá nova não era igual antiga. Vinha de deformação rancorosa. Essa, sim, tinha já tanta cicatriz de ódio no coração que não tinha mais espaço para o sangue pulsar, vazava sempre na sua passagem. Saía com ele, nas várzeas arteriais, toda pequenez humana que podemos ter. Essa pequenez ai, de sorrir despreocupada nos abraços simples das poucas coisas que nos fazem feliz. Vil ganância era única coisa que pulsava venosamente na sinhá nova da família.

Perguntava intimamente, como se tivesse espelho particular para refletir seu ego tresloucado. Respondiam? Vinha coisa do inconsciente. Perguntava: ─ “Quem é a mais bela de todas?” ─. Respondia: ─ “Você é bela, rainha, isso é verdade, mas menininha filha do outro possui mais beleza.” ─. Era pergunta de si para resposta própria. Loucura? Nas megalópoles metrópoles tratam isso com alcaloides como prozac. Ali era terra de ninguém, e ideia fixa era desejo que só ficava saciado quando realizado. Que sinhazinha tinha raiva porque achava que Pai amava mais filha do que a amante, isso era bem verdade. De morte. Só na faca ou bala cruzada nos buritis é que se podia findar rancor mór.

Teve de fugir tristemente da terra nascida. Sem rumo ou lugar, correu para achar abrigo onde pudesse vislumbrar uma chance de vida nova, e melhor. Sorrateou através dos sinaleiros e luzes da cidade mais próxima. Era vida trocada agora, pois moça do sertão não sabia cidadear na civilização. Êirra, que dificuldade! Ai, vida vivida boa só tem nas prosas clássicas. É. Na minha prosa eu prefiro glosar pelo palpável dos infortúnios da realidade, porque benemérito é apenas sonho distante.

Vai perguntar. Certeiro isso. Só não sei como leitor ainda não se manifestou. Como é que donzela parecida saída de contos de fadas iria conseguir sobreviver na cidade? Ah, isso era coisa impossível. Eu vou dizer. Essa civilização tem prazeres que é igual o demo para os antigos, aquele satanás que vem atazanar nossa realidade. É só comparação cristã para que fique fácil seu entendimento. A meninazinha, agora mulher, de brancura da pele também era alva de alma. Tinha pureza que fazia os olhos alumiarem em demasia os terrores matutinos. Era mesmo em demasia, isso atrapalhava pensar um pouco com a razão calculista e um pouco obscura que é. Cidade não é mato do cerrado, com cobra sucuri para sucucurizar; com palmeira que com vento venteando ia palmeirar as beiradas da caminhada. Nem tinha tropeiros, jagunços, sinhazinhas, sinhôs, Pai e madrasta má. Nem tinha urubu para piar urubumente depois de morte putrefata. Nem tinha, nada. Ali era só gente que maquinava movimentos mecanizados. Friamente genteavam vida vivida. Era bem só haicai:

Máquina , engrenagens,
suores do movimento.
Nós maquina e nada.

O que a donzela da prosa passou foi círculo de visita e encontros com sete virtudes da vida moderna e pecado da vida antiga. Tem história de conto infantil que fala que moça encontrou sete anões juntinhos. Mas no real, a vida trouxe na gradação a visita de um por um. Toc-toc, ali abriu a primeira e vez e nunca mais conseguiu se desvencilhar do caminho fúnebre rumo a um leito de morte. Era tanta comida de um lado para outro, como nunca vira na vida, que começara a ganhar coisinhas sob a pele que pareciam ser seres invisíveis a mando do capeta. Bem conseguiu trabalho, emprego daqueles que dignificam o homem. Só que noutro toc-toc era tanta gastura de fortuna que acabou caindo no abismo das falácias da avareza. Transvida imaginada, meninazinha nunca imaginou que fosse de real aquilo. Bate outra vez – toc-toc – agora dois decidiram poupar tempo e descer simultâneos no ponto. Da janela tresvia os recortes de outra realidade, uma perspectiva tão distante quanto a utopia. Veio logo essa ira pela humanidade desprezível que pisa com seus sapatos do dinheiro nos outros como insignificantes insetos. Êixa, é duro dialogar quando alguém vem para esse lado da vida, da desilusão. De mãos dadas aquilo era também inveja com o mundo alheio. Toc-toc, é que deixou seus sonhos soturnos de lado para labuta na noite. Pegou gosto por trabalho daquele jeito, abastado na luxúria. E que sobrou? Um, único. Uma batida nas têmporas do esforço, porque trabalho assim, de maleita fácil, acomoda o sujeito. Ficou só preguiçando de viver em vida vadia.

Só que tempo vivido assim é coisa só de desvida. Agourava própria alma com maleita certa. Do pó viemos e do pó voltaremos. É moral contida nos evangelhos que se fez certa na vida daquela moça. Mas, pó antes vem mesmo a ser o pó moderno, daqueles oriundos dos becos calados criminosos e que silenciam nosso acordar. O último toc-toc era só da nossa velha conhecida literária, ceifadora de sonhos, matadora de existências, velha acompanhante para passeio só de ida. Nem veio príncipe ou herói salvar a moça. E o pó certo era do gosto das macieiras do conto infantil. A gente sempre que nasce tem desejo oculto que vamos guardando em bilhetinhos, até na hora de nossa morte. Eu tenho. Um dia eu ainda serei astronauta, pois alma minha que já se lança noutros mundos com a literatura, também pede para corpo sair na Lua. Lá posso aluar esse mundinho chamado de Terra. Se eu puder fugir dessa vivância do fingimento, eu bem posso, mesmo que apenas num minuto de tresloucação lúcida, fingir o que eu realmente sou.

Volto, fim da prosa, já que esse conto foi real. Corpo de bela meninazinha, bem mulher jaze agora em fúnebre leito. Suicídio ou só overdose, ninguém mesmo soube dizer. Só acharam um cartão. Tinha nome? Ai, nem tinha! Essa meninazinha era do sertão. Lá a gente é tudo igual, bicho do mato sem razão. Só incontava significância de apelido da labuta noturna dela. Moça fora quem mordera a maçã envenenada dessa cidade que pecava; esses pecados da vida cotidiana. Ali, imóvel no sangue, o papel só imovia nome que ficou: Branca de Neve.

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

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