Colunistas 
Cecília Borges
Cecília Borges prefere encher a cara que escrever poesia. Quando consegue fazer as duas coisas simultanemente, atualiza o blog www.cecilia-borges.blogspot.com e vende seus dois livros publicados para os amigos.
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Acima da cidade
O grande amor não acontece para a maioria. Muitos encontros podem seguir a vida inteira por acordos e afinidades. O que não é de todo ruim, evita-se fadiga e o exercício de tolerância. A coragem é poupada também, como quando optamos por não saltar de asa delta. Outros sentimentos podem se maquiar de grande amor, surgirem sem pontadas no peito, todos inteiramente serenos, dando a impressão de completude: a tampa da panela, a metade da laranja, o sapato velho para o pé cansado. Não viver um grande amor é uma opção, inclusive é aceitável. Afinal, a gente também pode ter um emprego meia boca pra pagar o aluguel e adiar solenemente a viagem aos vulcões adormecidos de Lanzarote. Sem ter vivido um grande amor ainda podemos dividir uma casa com alguém e ter filhos. O outro será admirado, respeitado e terá direito a afagos e atenção. A tranquilidade é a constante que não existe em um grande amor. E todos nós sabemos quando não estamos vivendo um grande amor pela quietação do organismo: tudo está funcionando muito bem, obrigada. O grande amor é um filho da puta, seu sapato não tem a numeração que a gente precisa. Provavelmente o grande amor só fará as mais doces promessas quando bêbado, o saldo dele no banco é negativo e ele tem uma maniazinha horrenda. Aquela que só quem teve ou tem um grande amor sabe o quanto é detestável aquilo que ele faz. O grande amor, depois da primeira revista, parece somente dar prejuízo e durante noites e noites e noites perguntamos para nós mesmos se é um grande amor. Original, como o pecado, o surgimento das imperfeições humanas. Mas descobrimos rápido. E a partir daí basta preencher essa fichinha e doar cinco litros de sangue por dia. Por sorte, não teremos que subtrair o que antes eram dois dentro da gente. Vinícius escreveu que para viver um desses é preciso peito de remador. Adélia Prado diz que ele é feinho, acho que às vezes o grande amor usa a mesma camiseta durante três dias, deixa a cera de depilação na pia ou nem corta os pêlos do nariz. Mas ela também diz que uma vez encontrado, é igual fé, não teologa mais. O grande amor, quando velho, se veste de intimidade mas ainda dá disparos de grande amor. Ele é incansável, não tenta 70 x 7 como a conta que disseram existir pro perdão, ele insiste em dízimas periódicas. E o grande amor não faz o que fala, mas faz muito bem o que ficou no silêncio. Porém sempre existirá um momento crucial. Porque além de encontrar um grande amor, precisa ser decidido se ele pode subir até o andar da sua casa. Se vai caber na sua mala, se ele pode dividir a mesa com seus amigos e achar vários deles chatos, ouvir samba enquanto tudo que você queria era I’ve got you under my skin, se ele pode reclamar do seu cigarro, cobrar sua presença. Porque o grande amor precisa viver junto, precisa checar sempre o bilhete premiado (tudo bem que às vezes o bilhete fica com cara de sentença), porque o grande amor não acontece pra maioria. Aconteceu com você. Então é necessário decidir se você quer entender que precisa mudar isso e aquilo pra viver um grande amor, poxa, nem tudo na vida teve 90% de aprovação. E se decidir vivê-lo: coisas prateadas espocam, seu olho vê dentro de diamantes, o mar cabe na cama, acorda-se porquinho da índia, nega-se leis da gravidade facilmente (Chagall sabia disso), surgem comparações dementes do grande amor com summer nights in Spain, Garbo’s salary e docinho de coco, além da criação natural e imediata de um dialeto nunca visto pela humanidade e nem por você antes de deixar o grande amor subir até o seu andar. E as rosas falam sim, o que é bacana também.
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Você nem imaginava
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Silêncio
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Entre as folhas
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Aves do Paraíso
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Sacro



























