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Luis Bustamante luaugbustamante@hotmail.com

Luis Bustamante Lourenço, 46 anos, é médico pediatra do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), doutor em geografia pela USP, professor de história do Colégio Nacional e autor do livro A Oeste das Minas, publicado pela Edufu.

  • O Jogo da Direita

    Poucas foram as ocasiões em que axiomas, medos e paranóias da direita foram expostos de maneira tão explícita e fascinante como no 1º Fórum “Democracia e Liberdade de Expressão”, realizado em São Paulo no dia 1º de março último. O evento, promovido por grandes corporações da imprensa brasileira, entre eles o jornal Folha de São Paulo, a Editora Abril – que publica a revista Veja – e as Organizações Globo, propôs-se a discutir as supostas ameaças à liberdade de expressão e à democracia hoje existentes no país. Durante o encontro, magnatas da imprensa, como Roberto Civita, proprietário do Grupo Abril, mantiveram suas falas num tom comedido, vago e asséptico, deixando o “trabalho sujo”, isto é, as intervenções mais agressivas e ideológicas, para os jornalistas e intelectuais que trabalham a seu soldo. Esses ferozes pitbulls da direita, diante de seus patrões, manifestaram subserviência e disciplina de fiéis pastores alemães. Tomados de uma ira santa, vociferaram contra aqueles que estariam urdindo a transformação do Brasil numa ditadura castro-chavista: o trinômio Lula/PT/Dilma.

    Além da folha de pagamento assinada pelos jornalões e o estilo apocalíptico, furibundo, esses intelectuais compartilham um passado de militância de esquerda, do qual tentam se purgar numa dolorosa e interminável expiação. Formam hoje a tropa de choque de um desarticulado pensamento de direita, cuja notoriedade é diretamente proporcional à capacidade de criar casos e à exposição sustentada pelos órgãos nos quais trabalham.

    Entre as intervenções mais relevantes, destacou-se a do ex-trotskista e sociólogo Demétrio Magnoli, que se tornou conhecido nos últimos anos por liderar uma campanha contra o sistema de cotas para negros nas universidades. Magnoli afirmou que “o PT dá marcha a ré em todos os assuntos que se referem à democracia. Como contraponto à adesão à economia de mercado, retoma as antigas idéias de partido dirigente e de democracia burguesa, cruciais num ideário anti-democrático. (…) O PT se tornou o maior partido do Brasil como fruto da democracia, mas é ambivalente em relação à esta democracia. Ele celebra a Venezuela de Chavez, aplaude o regime castrista em seus documentos oficiais e congressos (…)”. Em seguida, o filósofo Denis Rosenfeld reforçou: ”o PT é um partido contra a liberdade de expressão. Não há dúvidas em relação a isso”.

    De imediato, surgiu um consenso: a possível vitória de Dilma Roussef nas próximas eleições presidenciais representa risco à democracia. “Minha preocupação é que, se o próximo governo for da Dilma, será uma infiltração de infinitas formigas nesse país. Quem vai mandar no país é o Zé Dirceu e o Vaccarezza. A questão é como impedir politicamente o pensamento de uma velha esquerda que não deveria mais existir no mundo”, alertou o ex-comunista e comentarista da Rede Globo Arnaldo Jabor. Ao contrário de Lula, que teria tido força suficiente para se impor ao partido, Dilma seria presa fácil dos “radicais do PT”, chavistas e castristas ensandecidos, contrários à liberdade de expressão. Do suposto plano totalitário da esquerda petista faria parte, por exemplo, as ameaças de controle estatal sobre a imprensa presentes no 3º Programa Nacional dos Direitos Humanos, proposto pelo governo Lula.

    Ao final, um chamado à ação: é necessário assegurar a vitória de José Serra nas próximas eleições. “Se o Serra ganhasse, faríamos uma festa em termos e liberdades. Seria ruim para os fumantes, mas mudaria muito em relação à liberdade de expressão”, afirmou Magnoli. “A classe, o grupo e as pessoas ligadas à imprensa têm que ter uma atitude ofensiva e não defensiva. Temos que combater os indícios, que estão todos aí (…) Por isso tem que haver um trabalho a priori contra isso, uma atitude de precaução, senão isso se esvai. Nossa atitude tem que ser agressiva”, disse Jabor, convocando os presentes a somar forças na cruzada contra o lulo-peto-dilmismo.

    Três aspectos merecem atenção nesse extraordinário e, desde já, histórico encontro das estrelas da mídia de direita brasileira, que terminou com profissões de fé e um chamamento ao bom combate. Em primeiro lugar, é notável o caráter defensivo, e não propositivo, dos consensos ali alcançados. Entre perplexos e acuados pela popularidade de um governo de esquerda bem sucedido, ressentem-se do esvaziamento dos dogmas ultra-liberais, ocorrido após o colapso financeiro de 2008. O vazio ideológico deixou-os sem saber o que fazer, pois os velhos mantras liberais – Estado mínimo, estímulo à competitividade e ao individualismo etc. – não “colam” mais. Um projeto político construído sobre essas bases seria suicida, e eles sabem disso.

    Em segundo lugar, percebe-se o esforço em construir uma delirante teoria sobre uma suposta conspiração esquerdista, que nada fica a dever ao Plano Cohen de 1937 ou à “república sindicalista” dos militares e udenistas de 1964. Há a necessidade de se criar um inimigo que dê motivação à cruzada, mesmo que, para tanto, tenham que ressuscitar o vocabulário político do século XX – capitalismo versus comunismo, democracia versus totalitarismo, livre mercado versus controle estatal etc. –, enterrado sob os escombros do Muro de Berlim e do banco Lehman Brothers.

    Em terceiro lugar, a eloqüência dessa sub-intelectualidade contrasta com o mutismo das lideranças dos grandes partidos de direita, especialmente dos que se agrupam em torno de José Serra, provável candidato da coligação PSDB-DEM à presidência da República. É como se a oposição tivesse terceirizado o discurso ideológico, delegando-o para a grande imprensa e seus pitbulls neocons. A razão pela qual isso ocorreu é algo para se pensar.

    Luís Bustamante

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