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Nina Salomé - verasalo.blogspot.com

Expectadores desta tela. Senhoras e senhores. Sejam bem vindos ao núcleo de uma mente inquieta e dissoluta. O núcleo de uma mente que seduz o mal, fazendo-o refém...pra depois decidir que rumo dar a ele. Sem propósito de criticar, muito menos aconselhar, apenas retratar um quadro, através de feias palavras bonitas e, às vezes, de "baixo calão" (quando imprescindivelmente necessário). Eu vim aqui exprimir a putrefação das almas, invadidas pelo excesso de matéria, volúpias e senso de pseudo-caridade. Uma mutação genética ocasionada por culpa de um par de olhos bem abertos, ouvidos atentos e uma perspicácia superlativa de quem caminha ao lado, às vezes atrás, de maratonistas à deriva, entregues à própria sorte, filhos de uma sociedade do salve-se quem puder. Uma epidemia gerada de sua própria radiação que profere um anti-vírus, chamados textos, que podem tomar conta de seus lares doce lares através desta página cultural, penetrando lascivamente o núcleo de seus desvacinados cérebros contra o mais letal de todos os vírus, aquele que só lhe permite digerir o alimento já mastigado, capaz de provocar magnetismo ocular/cerebral e te levar ao vício da redenção, ocasionado assim, a morte em vida. Sem o afã de colecionar fãs ou vender livros (já me basta arrancar suspiros de meia dúzia de pessoas realmente relevantes), convido os interessados em literatura ofegante, e os que tem estômago, a conhecer mais um anti-vírus.

  • Não fui eu

    nina

    Não fui eu
    que sujei seu terno azul;
    que usei seu sapatinho de cristal – que se partiu no primeiro passo;
    que reguei seus lírios com ácido sulfúrico;
    que passeei sobre seu jardim com tanque de guerra;
    que rasguei seu testamento – de objetos imprestáveis, valores ínfimos e dívidas impagáveis;
    que cuspi no seu prato morno;
    que fiz sua barba com a moto serra;
    que tatuei esse sorriso na sua cara mal lavada;
    que vendei seus olhos no momento do pôr do sol;
    que matei o filho do seu Pai;
    que coloquei lisérgico no vinho dos seus discípulos;
    que salguei sua ceia (santa);
    que emprestei o isqueiro pros seus algozes incendiários;
    que publiquei seus segredos no jornal da manhã;
    que saqueei sua caixa preta;
    que guardei seu coração no fundo do baú;
    que ceifei sua personalité;
    que mordi sua perna na fila de espera;
    que trouxe a fome pro seu regime;
    que lhe aluguei essa casa sem telhado;
    que lhe trouxe doce roubado de criança;
    que lhe devolvi o troco errado;
    que lhe mandei correr com tesouras;
    que salvei sua vida quando você se suicidou;
    que gargalhei no dia que você chorou;
    que roubei sua solidão;
    que enfeitei sua tristeza;
    que calei na hora da sua defesa.
    Não fui eu que sonhei com o paraíso habitado por seres de elevada moral e lubricidade.
    Não fui eu. Não fui. Não eu.
    Eu sinto (muito) pouco.

    Tudo está como era pra ser e assim não o seria se não fosse por você.
    Bem feito está. A culpa pertence a quem a carrega. Eu me sinto leve.
    Sua consciência deve estar lá naquele brexó que você adora frequentar. Foi objeto de troca. Resgate-a por preço vil. Aproveite as ofertas e adquira outras bobagens de antanhos e bibelôs inanimados que já serviram de cenário para as suas cenas, e em nada alteram a demanda do mercado contemporâneo.
    Colecione suas desculpas prontas e aguarde a ocasião certa para tirá-las do saco.
    Siga corretamente o modo de usar e utilize-as com moderação.
    Desculpas consumadas quando consumidas.
    Sofista de merda.

     

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