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Paulo Irineu - irineubarreto@bol.com.br

Paulo Irineu Barreto Fernandes é Mestre em Filosofia (Política e Social) pela Universidade Federal de Uberlândia. É professor de Filosofia no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro - Campus Uberlândia, realiza pesquisa nos seguintes temas: Teoria Crítica, Filosofia Política e Estética e é autor de “Ensaio Sobre The Dark Side of the Moon e a Filosofia: uma interpretação filosófica da obra-prima do Pink Floyd”.

  • É lógico?! (1ª parte)

    The Logical Song

    Quando eu era jovem
    A vida parecia ser maravilhosa
    Um milagre! Bonita, mágica
    E todos os pássaros nas árvores
    Cantavam felizes
    Cheios de alegria, brincalhões me observando
    Mas então me mandaram embora
    para me ensinar como ser sensato
    Lógico, responsável, prático
    E eles me mostraram um mundo
    No qual preciso ser confiável
    Clínico, intelectual, cínico.

    Roger Rogdson (Supertramp)

    É possível que nem mesmo Aristóteles, ao formular os primeiros postulados lógicos, pudesse imaginar os diversos usos aos quais a Lógica, cuja paternidade a ele é atribuída, iria se prestar. Tanto podemos chamar de lógico o indivíduo consciente, cumpridor de seus deveres e bom administrador do seu tempo, quanto o indivíduo exageradamente pragmático e preso em um “sem número” de regras que, embora ele acredite dominar, o dominam completamente.

    Há quem afirme que uma vida vivida logicamente tornar-se-ia sem graça e sem beleza. Quem iria admitir a lógica num momento de devaneio amoroso? Seria correto dizer a uma pessoa apaixonada que olha encantada para o nascer do sol: “Me desculpe, mas o que você chama de ‘nascer do sol’ nada mais é do que uma conjunção de fatores isolados que só fazem sentido ao serem tomados em conjunto por um indivíduo que os observa de um ponto determinado, obtendo dos mesmos uma unidade representacional”? Neste caso, o lógico seria o chato.

    No entanto, seria muito difícil viver sem a lógica. É o conhecimento da lógica espaço-temporal que nos permite uma pequena margem de previsibilidade em nossas ações, sem a qual não nos diferenciaríamos dos seres irracionais. A lógica também nos torna capazes de inferir e aprender tanto com os acertos, quanto com os erros e, quando associada à memória, nos proporciona a experiência e o conhecimento.

    A verdade é que, desde que os filósofos separaram as “relações lógicas” das “questões de fato”, não é um ato tão ofensivo afastar-se, uma vez ou outra, da lógica. Isto explica porque algumas frases “sem lógica” podem ser ditas e entendidas. Por exemplo, alguém poderia dizer: “estou aqui, mas também não estou”. Do ponto de vista lógico, a afirmação não pode ser dita, pois é contraditória. No campo dos fatos, no entanto, uma pessoa pode estar fisicamente presente, mas todos os seus sentidos podem estar focados em outro lugar, o que torna a afirmação plausível, embora ilógica.

    Zenão de Eléia, discípulo de Parmênides, antecipou o problema entre as relações lógicas e as questões de fato, ao elaborar um dos mais conhecidos paradoxos: o paradoxo de “Aquiles e a tartaruga”. Em uma corrida, Aquiles daria uma vantagem à tartaruga. Zenão afirma que o herói jamais poderia alcançá-la, pois quando ele alcançasse o ponto de onde ela partira, ela já teria se distanciado, mesmo que pouco, daquele ponto e assim sucessivamente, “ad infinitum”. Além de afirmar o caráter ilusório do movimento, Zenão também pretendia demonstrar que um mesmo problema pode ter soluções diferentes, quando analisado sob o ponto de vista da razão pura e sob o ponto de vista das questões práticas, pois, no campo dos fatos, não se coloca em dúvida que Aquiles poderia ultrapassar a tartaruga.

    pauloi01

    O paradoxo de Zenão nos leva à seguinte indagação: “Se pode haver contradição entre os princípios lógicos e as questões de fato, qual é, portanto, a tarefa da lógica?”

    Este será o tema do nosso próximo “post”.

    Por enquanto, proponho aos internautas o seguinte problema:

    pauloi02

    De dois baralhos, um com o verso azul e outro com o verso vermelho, foram selecionadas quatro cartas. Duas cartas estão com a face voltada para cima e duas estão com a face voltada para baixo. O desafio é: como saber se as cartas que têm o verso azul têm o Rei como figura? Para resolver, você pode virar apenas duas cartas. Quais?

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