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- Doutorando em Geografia Humana e Cultural no Instituto de Geografia e Mestre em Filosofia - Política e Social, ambos na UFU. É autor de “Ensaio Sobre The Dark Side of the Moon e a Filosofia: uma interpretação filosófica da obra-prima do Pink Floyd”.

“Pique – esconde” ou “Polícia e ladrão”?*

Os jogos urbanos e as brincadeiras de criança, que a cada dia são menos comuns nas ruas das grandes cidades, além de garantirem a diversão da garotada, podem também ser uma rica fonte de aprendizado. Duas destas brincadeiras que marcaram a minha infância (e a de milhões de outras crianças) constituem a inspiração da presente reflexão.

Uma delas é o pique – esconde ou pique de esconder, que é uma brincadeira na qual um dos participantes fecha os olhos enquanto os demais se escondem. Depois de um tempo suficiente para que todos se escondam, o responsável pelo pique (o dono do pique / buscador) sai à procura dos demais. Ficam livres aqueles que conseguem bater no ponto antes do “dono do pique”, mesmo que tenham sido vistos antes por ele. O responsável pelo pique (ponto central da brincadeira, geralmente um poste ou parede) na próxima rodada será um daqueles que não conseguiram se salvar. Como o buscador pode pegar mais do que um participante, é importante que se estabeleça uma regra. Normalmente prevalece a decisão de ser o primeiro a ser pego que irá para o pique, embora seja comum também se decidir pelo último. O importante é que se estabeleça a regra antes do início da brincadeira, senão a confusão vai ser geral, e disto toda criança ou adolescente, que já participou da brincadeira, sabe muito bem.

A necessidade de que sejam estabelecidas regras para a brincadeira nos dá o primeiro material para reflexão. São nessas brincadeiras que as crianças estabelecem os seus primeiros contatos com as regras, normas de comportamento, direitos e proibições. Pode-se objetar, dizendo que, nesta altura, as crianças já convivem com as regras em casa, na escola e em outros lugares do seu convívio. No entanto, tal objeção não cabe aqui, pois nesses ambientes as crianças gozam de pouca, ou nenhuma, autonomia, enquanto que na rua elas são as próprias autoras das regras.

Durante os jogos urbanos e brincadeiras surgem as primeiras oportunidades para os desvios de conduta. Sempre há aquela criança que, por ser mais forte que as demais, tenta impor a sua vontade a partir da força física e da intimidação das demais, ou então aquela que, talvez por não ser tão forte fisicamente como as demais, acaba desenvolvendo uma astúcia ou esperteza capaz de ludibriar os colegas.

Outra brincadeira também comum nas ruas das cidades, pelo menos no tempo em que eu era criança, é denominada “polícia e ladrão”: uma variação do pique – esconde só que, neste caso, os participantes se dividem em dois grandes grupos, escolhidos na sorte, através do velho “par-ou-ímpar”. Um dos grupos será formado pelos “policiais” e o outro será formado pelos “ladrões”, que deverão se esconder nas redondezas. A brincadeira começa com os policiais “dando um tempo” para que os ladrões se escondam. Neste momento, já se estabeleceu um tempo limite para que os policiais encontrem todos os ladrões, ou parte, desde que combinado. Se dentro deste tempo os policiais encontram todos, ou um número mínimo pré-estabelecido, são vencedores, caso não encontrem, são perdedores. Mantendo-se os mesmos grupos, a brincadeira não cessa, só que com a posição invertida. Os ladrões tornam-se policiais e os policiais, ladrões. É considerado o grupo vencedor, no final, aquele que obtiver o maior número de vitórias, entre fugas e prisões.

As duas brincadeiras citadas, embora semelhantes, revelam uma diferença fundamental que acompanhará toda a vida adulta daqueles que um dia participaram das mesmas. Esta diferença é o principal objeto da presente reflexão, a saber: a diferença entre agir a partir dos próprios estímulos e vontades e agir com espírito de equipe. Enquanto no pique – esconde cada um “se vira” como pode e por si mesmo, na brincadeira de polícia e ladrão o sucesso, ou fracasso, de cada um dos participantes sempre estará associado ao comportamento dos demais.

A lógica do pique – esconde é bem simples: esconda-se e evite ser pego, se não puder evitar ser pego, evite ser o primeiro ou o último. A lógica de “polícia e ladrão” é bem mais complexa e análoga a várias situações com as quais nos defrontamos no dia a dia. Nesta lógica, a segurança do seu parceiro também te diz respeito. Quando alguém descobria um “esconderijo legal”, sempre procurava compartilhar com algum parceiro. Já que era um bom esconderijo, seria um parceiro a mais em condições de resistir à “busca” por mais tempo. No entanto, sempre havia o cuidado de evitar que todos do grupo fossem para o mesmo lugar, pois se um fosse pego, todos seriam. Os policiais, por sua vez, procuravam sempre andar em pequenos grupos e quando encontravam algum dos ladrões faziam um grande alarde com o claro objetivo de desestabilizar aos demais.

Na vida cotidiana, muitas vezes agimos de forma semelhante. Se agirmos de forma isolada, estaremos sozinhos tanto no fracasso, quanto no sucesso. No entanto, se agirmos em conjunto, sempre haverá alguém com quem compartilhar tanto as alegrias da vitória, quanto os dissabores da derrota e será muito mais fácil transformar até mesmo os maiores fracassos em grandes vitórias.

Paulo Irineu Barreto
*Reedição, com pequenas correções, de texto publicado em março de 2007

Aos internautas: Na era do “politicamente correto”, é quase desnecessário pedir para considerar o aspecto inocente da expressão “pegar”‼!












9 Comentários

  1. Oi Eliett,

    obrigado pelo comentário! É verdade, as brincadeiras de rua quase não existem mais, principalmente nos grandes centros urbanos!
    Att.

  2. Paulo, muito bom este texto.Pena que as crianças não sabem mais brincar.

  3. Olá Lobo, eu é que me sinto grato por suas palavras elogiosas!
    Grande abraço!!!

  4. Professor, pudesse eu arriscar-me ao neologismo, isso é o que chamaria de “Filosofia Aplicada”. Como é bom conviver com termos como “lógica”, “individualidades”, “coletividade”, “razões”, “regras” e etc., bem juntas ao cotidiano, com analogias simples e intenções explícitas.
    Eis a pedagogia no Mestre. Grato pela leitura.

  5. Oi Nara,

    Suas palavras são um incentivo para continuar escrevendo! Obrigado!

  6. Olá Paulo Irineu!!

    Gostaria de deixar aqui minha admiração pelas suas simples e sábias palavras. Nunca tinha pensado nessa analogia, ou seja, associar uma simples brincadeira de pique esconde com a nossa vida pessoal. E vejo que faz todo o sentido compartilharmos todos os momentos, sejam tristes ou alegres.
    Sou sua fã!
    abraços

  7. É isso mesmo Ana Clara! Obrigado pelo feedback!

  8. Paulo,

    Lendo seu texto me lembrei das divertidíssimas brincadeiras de criança não só de pique-esconde, mas como os outros diversos piques… pique-pega, pique fruta, estátua e diversas outras brincadeiras da minha época. O interessante é que estas brincadeiras nos mostram não só a capacidade das crianças em se organizarem e definirem regras, assim como você disse, como também a capacidade delas em adequar essas brincadeiras ao espaço e número de pessoas que tem para brincar, criando assim novas brincadeiras e oportunidade de se divertirem.

  9. Tomo a liberdade de postar alguns comentários enviados por outros meios:

    Muito obrigada! seu depoimento me ajudou em um trabalho de educação física. Achei muito legal e quando eu era criança, brinquei muito dessa brincadeira

    Najila

    Parabens!.. Este artigo me ajudou muito em um trabalho de NEPP que estou realizando, sempre bom saber que há pessoas se preocupando com o futuro de nossas crianças, tanto na ludicidade, aprendizagem e conhecimentos em geral.
    Sou professor de educação física! Abração!

    Matheus Amaral de Paula

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