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- Quando criança, sonhava em ser cosmonauta. Passado o delírio infantil, passou a escrever. Hoje, os textos encontram lugar no blog Fazendo Drama. Nas horas vagas, é professor.

Amargo

Entrou na padaria.

Era o meio da manhã. Saiu de casa um pouco antes do habitual e, indo pro trabalho, decidiu tomar um café.

Tinha fome.

Por isso, pediu um espresso. A garota do lado de dentro do balcão perguntou o que iria comer.

Nada.

Ficar tomando café sem comer nada faz mal ao estômago, ela disse. Olhar perdido, ele teve vontade de aplaudir a visão empresarial daquela padaria ao colocar uma gastroenterologista para atender no balcão. Mas achou que poderia ser encarado como uma grosseria.

Desistiu.

Olhou pra ela. Que sorria. Ele havia parado de sorrir. Não com a pergunta. Ao menos não com aquela. Mas respeitava o sorriso dela. Na verdade, admirava.

Ergueu as mãos, como dizendo que não podia fazer nada, que no fundo, não conseguia evitar. Ela entendeu o gesto e sorriu mais uma vez, entregando o espresso. Olhou pra xícara. Pegou o biscoitinho do pires e comeu.

Procurou o açúcar.

Ela entregou uma cesta com os sachês. De amargo já basta a vida, disse. Clichê, ele pensou em resposta. Mas não falou nada. Abriu o primeiro sachê.

E despejou.

Misturou. Bastante. Tentando fazer desaparecer os micro-grãos. Aproximou a xícara da boca. Cheirou o café.

Precisava de mais açúcar.

Outro sachê. Mesma operação. Ainda não era suficiente. Não estava doce o suficiente. Xícara próxima a boca e nariz. Sem encostar. Sentia o amargor. E não queria.

Outro.

Chegou ao quinto sachê. A balconista olhou. Talvez pensando em falar alguma coisa. Ele se preparou para fazer a pergunta que havia sufocado antes em nome da doçura. Ela não falou nada. Nem ele.

Mais um.

Tá tudo bem?, ela perguntou. Ele não respondeu. Abriu outro sachê e despejou na xícara.

Não havia nada a dizer. Sentia-se só. Profundamente só.

Ela não se deu por vencida. Repetiu. Mas ele já estava colocando outro sachê na xícara. Era como se ele não ouvisse. Mas não. Ouvia. Só não tinha uma resposta. Ao menos, não uma satisfatória.

Ela mudou de estratégia. Posso te ajudar em alguma coisa?, perguntou.

Sim, respondeu. Ela sorriu. Sentiu-se bem. Ele, só. Não havia mudado. Nada. Preciso de mais açúcar, pediu.

Ela não acreditou. E resolveu insistir. Algum problema?, ela perguntou, sim, ele respondeu rápido.

E fez-se silêncio. Ela ficou olhando pra ele. Ele levantou os olhos da xícara e disse alguma coisa baixinho. Não deu pra ouvir.

Tá tudo amargo, ele disse.












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