Cavando Trincheiras
Nota aos internautas
O texto a seguir é parte de um livro que estou finalizando, no qual relato episódios de minha experiência de soldado no BPEB (Batalhão de Polícia do Exército de Brasília), no período de maio de 1985 a abril de 1986. Os nomes das pessoas que aparecem em itálico são fictícios, mas são inspirados em pessoas e fatos reais. Entre os motivos que me levaram a escrever este livro estão o fato de ter participado da Pirâmide Humana sobre Motocicleta, que quebrou o Recorde Mundial em 1986 e os pedidos de alunos para que eu escreva sobre situações que eventualmente cito em sala de aula. A intenção é evidenciar que mesmo em um ambiente tão austero como o do Exército é possível extrair relatos cheios de vida, que possibilitam amplas discussões culturais e filosóficas.
Cavando Trincheiras
(o acesso do soldado Peçanha)
Paulo Irineu Barreto Fernandes
(Todos os direitos reservados)
Kropp se acalmou. Conhecemos estes acessos, é a loucura da linha de frente; todos passam por isto uma vez ou outra.
Erich Maria Remarque – Nada de novo no Front
O treinamento dos novos militares do BPEB incluía um período muito temido pelos conscritos e muito esperado pelos cabos, sargentos e oficiais. Trata-se do acampamento para os exercícios de guerra e sobrevivência, que ocorria no segundo mês da nossa permanência no Batalhão. O treinamento teve o seu início com uma caminhada de quatro horas, do quartel até o local em que os exercícios aconteciam. Os soldados se dividiam em duplas e o deslocamento era feito em dupla fila indiana. Cada soldado levava uma mochila que pesava cerca de oito quilos e continha material indispensável para a sobrevivência. Com exceção dos operadores de rádio, o conteúdo das mochilas era o mesmo para todos os soldados, lembrando que para cada dupla, um carregava uma picareta e o outro, uma pá. O treinamento consistia em três dias de atividades intensas, nos quatro turnos – manhã, tarde, noite e madrugada – e restavam apenas três horas de sono a cada intervalo de vinte e quatro horas, entre as duas e as cinco horas da manhã. Na impossibilidade de relatar aqui os pormenores deste treinamento, me limitarei a descrever a tarde em que fizemos o exercício de abrir trincheiras.
Era uma tarde de julho. Sol. Céu aberto, sem nuvens. Deslocamo-nos para o campo de trincheiras, sob o comando do temido tenente Abril. Sabíamos que seria uma tarde difícil, pois a fama do tenente era grande e havia muita expectativa em torno daquela atividade. Além disso, um fato ocorrido na hora do almoço ajudaria a agravar a situação: quando estávamos na fila, aguardando para receber o alimento, o soldado Peçanha disse, em tom irônico:
_ Até agora estamos fazendo piquenique, eu quero saber quando vai começar o “rala”.
É claro que aquela afirmação era uma brincadeira, pois era o terceiro dia de acampamento e já havíamos sofrido muito até aquele momento. No entanto, para a infelicidade do grupamento, o tenente Abril estava passando ao lado do Peçanha e ouviu o que ele havia dito. O tenente, então, aproximou a boca do ouvido do Peçanha e, como eu estava bem próximo dos dois, pude ouvir o que o tenente falou, baixinho:
_ Agora você está fodido negão! Você e todo esse grupamento de merda. Vocês são a vergonha do EB! A gente vai se acertar hoje à tarde.
Não faltava mais nada para o “circo pegar fogo”. O uberlandense Peçanha, negro vistoso, tremeu do alto do seu metro e noventa de envergadura. Assim que chegamos ao local das trincheiras, o tenente designou o local em que cada um dos soldados ficaria. É importante lembrar que não chovia em Brasília há quase dois meses. A terra estava muito seca e compactada, o que tornaria o nosso trabalho ainda mais árduo.
Quando todos estavam nos seus postos, o tenente ordenou.
_ Peguem os seus cantis a abram.
Nós o obedecemos. Em seguida, com um tom de voz sarcástico e sorrindo maliciosamente, ele completou a ordem:
_ Agora, derramem a água dos cantis no local da trincheira, assim a terra vai ficar mais macia e vocês poderão fazer o seu serviço mais facilmente.
É claro que era uma grande “sacanagem” do tenente, pois a quantidade de água que havia nos cantis não era suficiente para alterar a condição da terra, embora fosse fundamental para nós. Mas aquela era apenas a primeira das muitas maldades do tenente, naquela longínqua tarde. Ao fazer aquilo, ele nos privava do mais importante naquele momento: a possibilidade de saciar a nossa sede.
Em seguida, o tenente pegou um aparelho de som “2 em 1” (toca fitas e rádio), muito comum naquela época, no qual colocou uma fita cassete e logo passamos a ouvir a música que se transformaria em um dos hinos da nossa experiência de caserna: “We are the World”, interpretada por uma seleção de artistas que formavam a banda Usa For Africa, que incluía Michael Jackson, Cindy Lauper, Stevie Wonder, Bob Dylan, Paul Simon, Ray Charles, dentre outros, sob a magnífica regência de Quincy Jones. A música, lançada em janeiro de 1985 era, na verdade, uma resposta americana à iniciativa de Bob Geldof e Midge Ure, que no final de 1984, reuniram vários artistas, na sua maioria ingleses, para criar a Band Aid, banda temporária que incluía Sting, Bono Vox, Boy George, Paul McCartney, Sarah Dallin, dentre outros. A banda gravou o single “Do They Know It’s Christmas” e realizou o Live 8, para arrecadar fundos em prol dos desabrigados e famintos da Etiópia. Na verdade, “We Are The World” foi uma expressão da guerra entre o ego norte-americano e a irreverência dos ingleses!
Depois de ligar o aparelho de som, o tenente abriu uma caixa de isopor, da qual tirou uma garrafa de refrigerante e, antes de levá-la à boca, disse:
_ São duas horas da tarde e vocês têm até as quatro para cavarem, cada um, a sua trincheira. O que vocês estão esperando, seus vermes?
É preciso confessar que o efeito psicológico do fato de ouvir a música “We are the world” foi devastador, dada a sua forte carga emocional. Assim que a música acabou, o tenente desligou o som. Trocamos alguns olhares entre nós, soldados, e era possível ver no rosto de cada um a raiva e a indignação estampadas.

Depois de cerca de uma hora de silêncio e de imobilidade, o tenente começou a andar pela área, como se estivesse a avaliar o trabalho de cada soldado. O único som, naquele momento, era o das pás e picaretas batendo contra o chão seco e duro, além do ruído provocado por um ou outro pássaro que arriscava aproximar-se daqueles soldados em fúria.
O tenente veio em minha direção, meu coração disparou. Por algum motivo, desde que a nossa chegada ao batalhão, eu percebia uma ambiguidade nos sentimentos do tenente Abril em relação à minha pessoa. Tal ambiguidade tinha motivação exclusivamente intelectual, pois eu havia oferecido respostas mais convincentes do que as dele, para algumas questões filosóficas e culturais que haviam surgido nas conversas durante os treinamentos da pirâmide humana, da qual ele também participava. Tal episódio, eu pensava na época, havia desencadeado no tenente sentimentos contraditórios em relação à minha pessoa. O tenente estava “puto” comigo. É preciso enfatizar que no meio militar esses conflitos são muito comuns. Confesso que nunca tive a intenção de criar aquela situação. Se ofereci respostas que pareceram a todos mais convincentes do que as do tenente, isso se deve exclusivamente ao fato de eu ter me transformado, desde os sete anos de idade, em um “rato de biblioteca” e, para o bem ou para o mal, as discussões, geralmente, abordavam temas sobre os quais eu havia lido muito. Pretendo, em outra ocasião, relatar algumas reminiscências daquelas saudosas discussões. O fato é que o tenente não perderia aquela oportunidade para “colocar as coisas nos seus devidos lugares”. Foi assim que ele se aproximou de mim e disse:
_ Soldado Irineu, você parece muito pensativo para alguém que está cavando trincheiras em uma guerra. Agora não é hora de filosofar. Deixe a picareta e “pague” vinte flexões para mim.
Eu joguei a picareta no chão e me coloquei na posição de flexão, apoiando o peso do meu corpo apenas nas pontas dos pés e nas palmas das mãos. Como eu já conhecia o tenente, não comecei as flexões imediatamente, pois ele gostava de contar bem alto.
_ Um! – ele gritou.
Eu flexionei os braços o máximo que pude, de forma que o queixo quase tocasse o chão, pois, de outra maneira, ele ordenaria que eu repetisse. Comecei a “pagação”.
_ Dois! – continuou.
_ Três! … Quatro!… … Dez!… Onze!…
Como uma forma de desabafar e descarregar a raiva que eu sentia, comecei a “gritar”, em pensamento:
_ “Desgraçado!”
E foi assim que a “pagação” continuou:
_ Doze!
_ “Filho da mãe!”
_ Treze!
_ “Miserável!”
_ Catorze!
_ “Covarde”!
_ Quinze!
_ “Estúpido!”
_ Dezesseis!
_ “Idiota”!
_ Dezessete!
_ “Invejoso”!
_ Dezoito!
_ “Perverso!”
_ Dezenove!
_ “Dissimulado!”
_ Vinte!!!
_ !#*!&*@! (impublicável).
Sorrindo de satisfação, o tenente ordenou:
_ Agora, continue cavando e lembre-se: suas idéias não abrem buracos na terra.
Dei graças a Deus quando ele se afastou, embora eu soubesse que não demoraria muito para que ele voltasse a me incomodar.
Antes de ir atormentar outro soldado, o tenente ligou novamente o aparelho de som, que começou a tocar “Núcleo Base”, do Ira e a voz cortante do Nasi ecoou no campo: “Eu tentei fugir, não queria me alistar, eu quero lutar, mas não com esta farda…”. Pela primeira e única vez passou pela minha cabeça um arrependimento de ter me apresentado como voluntário para o Exército. O Pimenta, dias depois, me confessou que pensou em se matar naquele dia.
Mas a tarde mal havia começado ainda. O tenente passou um bom tempo “infernizando” os soldados de todas as maneiras que a sua imaginação podia conceber. Seria impossível registrar tudo aqui. De um, ele exigia que cavasse deitado; a outro, ele mandava pagar polichinelos; a alguém que manifestasse maior cansaço, ele humilhava e assim por diante.
Em certo momento, já no final da atividade, ele foi em direção ao Peçanha, pois havia algo a ser acertado com ele também.
_ Soldado Peçanha!
_ Sim Senhor!
_ Então você está gostando do piquenique?
_ Era só uma brincadeira tenente! – disse o Peçanha, com a voz trêmula.
_ Vai “acovardar” agora soldado? “Cadê” a coragem com que você julgou o nosso acampamento? Está vendo a caixa de isopor do tenente?
_ Sim senhor!
_ Vá lá e traga uma garrafa de refrigerante para mim!
_ Sim senhor!
O Peçanha disparou em direção aos objetos do tenente, que estavam a cerca de vinte metros, mas o tenente o deteve:
_ Espere! Quem disse que você deveria ir correndo? Jogue-se ao chão, vá rastejando.
Assim o Peçanha fez. Rastejou até a caixa, abriu a mesma, retirou uma garrafa de refrigerante lá de dentro e voltou, rastejando. Ao chegar de volta, o tenente gritou:
_ Soldado, você não fez o seu trabalho direito! Volte lá e traga o abridor. Senão, como eu vou matar a minha sede?
O Peçanha, mais uma vez, rastejou até a caixa e voltou com o abridor. Ele estava exausto e com os cotovelos feridos. O tenente abriu a garrafa e, sabendo que estávamos com muita sede e sem água nos cantis, começou a saborear o refrigerante. Por ironia, no aparelho de som ouvia-se, naquele momento, “Até quando esperar”, da Plebe Rude.
Não é nossa culpa
Nascemos já com uma benção
Mas isso não é desculpa
Pela má distribuição
Neste momento, ouvi-se um grito de dor do Pimenta:
_ Eu não aguento mais cavar!
O tenente se dirigiu até ele, que exibia a mão direita toda ferida por calos que não aguentaram e arrebentaram.
_ O que é isto soldado, você aloprou? – perguntou o tenente, que continuou: _ Então você não recebeu treinamento? Não aprendeu que deve segurar firme a picareta, para que o seu cabo não escorregue na sua mão, enquanto você bate? Se isso fosse uma guerra, com certeza você já estaria morto.
O Pimenta, desesperado, se atirou ao chão.
A Plebe continuava a cantar…
Até quando esperar?
E cadê a esmola que nós damos sem perceber,
Que aquele abençoado poderia ter sido você?
Com tanta riqueza por aí, onde é que está, cadê sua fração?
_ Peçanha, venha aqui! – Gritou o tenente Abril.
_ Sim Senhor!
_ Você já terminou a sua trincheira?
_ Sim Senhor!
_ Você viu que o soldado Pimenta não está em condições de cavar?
_ Sim senhor!
_ O que você vai fazer por ele então?
_ Vou cavar a trincheira para ele Senhor!
_ Bom garoto! Pode começar.
Um sentimento de revolta tomou conta de todos naquele momento, mas o tenente continuou:
_ Todos vocês agora, com exceção do Peçanha, comecem a encher a trincheira com a terra que tiraram. O último a acabar não vai dormir à noite, pois vai limpar o acampamento.
Passamos, freneticamente, a encher as trincheiras. Alguns minutos depois, o tenente se aproximou de mim novamente e perguntou:
_ Irineu, está cansado?
Eu estava esgotado, mas sabia qual era a resposta que ele esperava e, por isso, gritei:
_ Não Senhor!
O tenente, distante uns cinco metros, voltou as costas para mim e começou a olhar para o horizonte, que apresentava um belo contraste entre o azul do céu e o marrom acinzentado da terra. Então algo trágico quase aconteceu. Olhei para a esquerda e vi o Peçanha correndo em direção ao tenente. Ele carregava a picareta em posição de ataque e mesmo que o tenente se desse conta do que estava acontecendo, seria difícil para ele evitar o pior.
Correndo como um alucinado em direção ao tenente, o Peçanha chegou próximo a mim. Não tive outra coisa a fazer: assim que o Peçanha passou, eu me atirei sobre ele e, juntos, caímos no chão. Não tive tempo de pensar no que estava fazendo. O Peçanha era muito forte e eu não poderia segurá-lo. Mas ele não resistiu, agarrou-se a mim com toda a força que tinha, machucando os meus braços.
Felizmente, o tenente Abril não entendeu o que estava acontecendo. Talvez ele tivesse pensado que se tratava de uma briga. Surpreendentemente ignorou o acontecido e ordenou:
_ Fim de exercício! Grupamento em forma!
A situação, felizmente, estava sobre controle. Assim teve fim aquela tarde de julho que, por um momento, pareceu infindável. Eu estava confuso em meio a sentimentos simultâneos de raiva e de júbilo, pois sentia que havia salvado duas vidas naquela tarde. Se o Peçanha tivesse concretizado aquele golpe, poderia ter matado o tenente, ficando em “maus lençóis”. Várias foram as vezes que o “Peça” me agradeceu, ao longo de nossa permanência no EB.
Embora o presente relato descreva um episódio “duro” da caserna, nós aprendemos muito com os nossos superiores. No fundo, todos eles contribuíram, à sua maneira, para a formação do nosso caráter.
Paulo Irineu Barreto - Doutorando em Geografia Humana e Cultural no Instituto de Geografia e Mestre em Filosofia - Política e Social, ambos na UFU. É autor de “Ensaio Sobre The Dark Side of the Moon e a Filosofia: uma interpretação filosófica da obra-prima do Pink Floyd”.

























