Como fazer um texto vencedor para a web
Por Renato Cabral
Prrrrrrrr. Pausa. PrrrrrrrrRRRRRummm. Calma. Não é uma vulvuzela. É um pum. Começar um texto com um peido é um desafio a que todo escritor desesperado deve se submeter. Com o advento da internet (argh!) e a dominância da imagem/Youtube sobre o texto, qualquer tentativa de falar com alguém que não seja utilizando os recursos visuais, ou no caso sonoros, seria uma incoerência. Se não há mais espaço para o texto, ainda há para o peido. E o usaremos sem parcimônia. Porque o peido, desta forma, cumpre a função que lhe cabe: além de trazer alívio intestinal, ainda consegue trazer o leitor até o fim de um doloroso e arrastado primeiro parágrafo como este. Parece contraditório, mas o peido agarra o leitor e agora a chance de alguém abandonar o texto é mínima. Isso se deve, claro, à escatologia e a morbidez que o próprio conteúdo na web nos acostumou a gostar. É a fruição do grotesco. É a estética do… chega de exemplos acadêmicos. O próprio Youtube funciona assim. Assim, o peido atrai e converte. E o leitor, você sabe, é como uma mosca interesseira, que vem ao encontro do fétido para aliviar o próprio odor de sua existência malograda e para ver saciadas suas exigências consumistas. Hein? Bem, não importa o que eu quis dizer nas duas últimas linhas. O essencial é encerrar logo e irmos ao segundo parágrafo.
Agora que vencemos a ditadura das primeiras linhas, o leitor já se sente mais ambientado. O que é um risco. Essa acomodação é um pedido de mais. Que você traga o próximo prato. Mas o que ofertar a um leitor acostumado a passar seu tempo na web vendo o que a condição humana e a natureza criaram de mais atraente, ou seja: bundas, tetas e videocassetadas? Não há como vencer isso. E, por isso… continuaremos no próximo parágrafo.
Já fomos lidos em dois parágrafos. Para os tempos de hoje isso é como ganhar um retuite. O mais lúcido agora seria terminar o texto deixando no leitor a sensação de que ele participou de uma experiência alucinógena, nonsense, algo quase ridículo, mas único, algo que ele, no fim, já está acostumado por fazer parte da materialidade da existência. Outra coisa. Num texto extremamente informal como este, inclua frases de efeito como “materialidade da existência”. Além de criar um contraste com o tom do texto, você cria um desafio à mente preguiçosa do leitor. É como se você começasse a chamá-lo de idiota. Porque, repare, enquanto o texto se prolonga a cada segundo, ele não consegue mais parar de ler sob o pretexto de se ver como um derrotado. Pronto. Você já tem mais um pouco da paciência dele para um outro parágrafo.
Proponha, então, um pouco de atividade erótica. Não, espere. Ainda não. Sexo ainda não. Você já ousou muito até aqui. Já estamos no quarto parágrafo, no penúltimo, já foram 32 linhas de puro nada pra dizer, e que foi dito mesmo assim e, melhor, lido. Aproveite isso. Você está por cima. Não é hora de apelar pra via fácil do sexo. Jogue com tudo. Mostre pro leitor que ele é um alienado que escolheu o caminho idiotizante que o mundo promoveu com aqueles vídeos debilóides como, por exemplo, “Dunga em um dia de fúria”. Enrole o leitor. Fuja do assunto inicial ou simplesmente fique em silêncio encarando o leitor. Veja quem pisca primeiro. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Ok, rápido, rápido, ele se encheu de nós, corra! Ele está indo embora. É hora de pedir desculpas e lhe apresentar o melhor. Faça as dançarinas entrarem. Aja rápido. Ofereça uma bebida. Isso, música, muita música. Serpentinas. Algazarra. Som alto e bundas rebolando na frente dele. Moças vestidas com langerries da seleção brasileira. Isso. Isso. É isso que eles querem, a distração para saberem que este é mesmo um mundo que só existe pelo banal prazer de todo dia. Faço-os esquecer que eles são uma espécie perdida e que nunca deveriam ter começado a ler este texto perigoso. Entre na mente deles e quando eles acharem que não sabem bem por que começaram a ler tudo isso…
Apenas termine de uma vez.
Renato Cabral - Renato Cabral é ruminante inveterado. oruminante@gmail.com

























He-he. Engraçado e interessantíssimo seu texto. Muito bom! Abraços.
Valeu velhinho.
Hahahahahaha materialidade da existência foi ótimo.
Puta texto velhinho…(ih, aplei para o sexo)
abs.
‘frases de efeito’, bicho, você achou o cerne!