É lógico?! (1ª parte)

The Logical Song

Quando eu era jovem
A vida parecia ser maravilhosa
Um milagre! Bonita, mágica
E todos os pássaros nas árvores
Cantavam felizes
Cheios de alegria, brincalhões me observando
Mas então me mandaram embora
para me ensinar como ser sensato
Lógico, responsável, prático
E eles me mostraram um mundo
No qual preciso ser confiável
Clínico, intelectual, cínico.

Roger Rogdson (Supertramp)

É possível que nem mesmo Aristóteles, ao formular os primeiros postulados lógicos, pudesse imaginar os diversos usos aos quais a Lógica, cuja paternidade a ele é atribuída, iria se prestar. Tanto podemos chamar de lógico o indivíduo consciente, cumpridor de seus deveres e bom administrador do seu tempo, quanto o indivíduo exageradamente pragmático e preso em um “sem número” de regras que, embora ele acredite dominar, o dominam completamente.

Há quem afirme que uma vida vivida logicamente tornar-se-ia sem graça e sem beleza. Quem iria admitir a lógica num momento de devaneio amoroso? Seria correto dizer a uma pessoa apaixonada que olha encantada para o nascer do sol: “Me desculpe, mas o que você chama de ‘nascer do sol’ nada mais é do que uma conjunção de fatores isolados que só fazem sentido ao serem tomados em conjunto por um indivíduo que os observa de um ponto determinado, obtendo dos mesmos uma unidade representacional”? Neste caso, o lógico seria o chato.

No entanto, seria muito difícil viver sem a lógica. É o conhecimento da lógica espaço-temporal que nos permite uma pequena margem de previsibilidade em nossas ações, sem a qual não nos diferenciaríamos dos seres irracionais. A lógica também nos torna capazes de inferir e aprender tanto com os acertos, quanto com os erros e, quando associada à memória, nos proporciona a experiência e o conhecimento.

A verdade é que, desde que os filósofos separaram as “relações lógicas” das “questões de fato”, não é um ato tão ofensivo afastar-se, uma vez ou outra, da lógica. Isto explica porque algumas frases “sem lógica” podem ser ditas e entendidas. Por exemplo, alguém poderia dizer: “estou aqui, mas também não estou”. Do ponto de vista lógico, a afirmação não pode ser dita, pois é contraditória. No campo dos fatos, no entanto, uma pessoa pode estar fisicamente presente, mas todos os seus sentidos podem estar focados em outro lugar, o que torna a afirmação plausível, embora ilógica.

Zenão de Eléia, discípulo de Parmênides, antecipou o problema entre as relações lógicas e as questões de fato, ao elaborar um dos mais conhecidos paradoxos: o paradoxo de “Aquiles e a tartaruga”. Em uma corrida, Aquiles daria uma vantagem à tartaruga. Zenão afirma que o herói jamais poderia alcançá-la, pois quando ele alcançasse o ponto de onde ela partira, ela já teria se distanciado, mesmo que pouco, daquele ponto e assim sucessivamente, “ad infinitum”. Além de afirmar o caráter ilusório do movimento, Zenão também pretendia demonstrar que um mesmo problema pode ter soluções diferentes, quando analisado sob o ponto de vista da razão pura e sob o ponto de vista das questões práticas, pois, no campo dos fatos, não se coloca em dúvida que Aquiles poderia ultrapassar a tartaruga.

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O paradoxo de Zenão nos leva à seguinte indagação: “Se pode haver contradição entre os princípios lógicos e as questões de fato, qual é, portanto, a tarefa da lógica?”

Este será o tema do nosso próximo “post”.

Por enquanto, proponho aos internautas o seguinte problema:

pauloi02

De dois baralhos, um com o verso azul e outro com o verso vermelho, foram selecionadas quatro cartas. Duas cartas estão com a face voltada para cima e duas estão com a face voltada para baixo. O desafio é: como saber se as cartas que têm o verso azul têm o Rei como figura? Para resolver, você pode virar apenas duas cartas. Quais?

Paulo Irineu Barreto - Doutorando em Geografia Humana e Cultural no Instituto de Geografia e Mestre em Filosofia - Política e Social, ambos na UFU. É autor de “Ensaio Sobre The Dark Side of the Moon e a Filosofia: uma interpretação filosófica da obra-prima do Pink Floyd”.

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5 Comentários

  1. OLÁ PAULO IRINEU, TUDO BEM?
    A 1a. PARTE DO SEU TEXTO “A LÓGICA” É, SIMPLESMENTE, FORMIDÁVEL.
    NOS DESAFIA A DIALOGAR COM O SIGNIFICADO DE VÁRIAS PALAVRAS QUE DEVERIAM TER UMA LÓGICA E NÃO, SOMENTE, A PALAVRA TRATADA NO SEU TEXTO, OU SEJA, A PRÓPRIA LÓGICA DA PALAVRA LÓGICA.
    COMO ELA NOS TORNA CONTRADITÓRIOS, NÃO?
    PARABÉNS!!!
    EDNALDO (Didi)
    IFET-TRIANGULO MINEIRO
    Campus Uberlândia

  2. Grande professor Paulo, orgulho maximo de ter a sorte de estudar com ele.
    Quando ele fez o esquema da tartaruga hoje na sala nao levei muita fé, mas agora tudo ficou mais claro.

  3. Caríssimo, a lógica, às vezes, nos prega peças.
    Mas vou utilizar dela para responder à sua questão:
    “como saber se as cartas que têm o verso azul têm o Rei como figura?”
    Acredito serem as cartas 1 e 3, azul e Rei, respectivamente.

  4. Olá Lobo, grande amigo, não pretendo apresentar a resposta do problema antes do próximo “post”, caso não seja resolvido antes. Mas posso fazer uma pergunta, a partir da sua resposta: “se virarmos as cartas 1 e 3, que você indicou, como saberemos se a carta 4 (Q) tem, ou não, o verso azul?” Dessa forma, ainda não poderemos saber se as cartas que têm o verso azul têm o Rei como figura.

    Grande abraço!

  5. Solução: as cartas que devem ser viradas são as de número 1 e 4.

    Explicação: Devemos virar a carta 1, pois o seu verso é azul e só saberemos se tem um Rei como figura se a virarmos. Também devemos virar a carta 4, pois é uma Rainha e, se tiver o verso azul, saberemos que nem todas as cartas azuis têm um Rei como figura. Ainda, se precisamos saber se as cartas que têm o verso azul têm o Rei como figura, não precisamos virar a carta 2, pois o seu verso é vermelho. Também não precisamos virar a carta 3, pois é um Rei e não faz diferença se for azul ou vermelha. Se for azul, já sabemos que é um Rei, se não for azul, não nos interessa – lembremos que a questão é saber se as cartas de verso azul têm Rei como figura e não se o Rei tem o verso azul.

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