História contra os fatos
Por Luís Bustamante
Confesso que acompanhei com uma ponta de inveja, ontem, a festa dos espanhóis. Ao ver a euforia daquelas centenas de milhares de pessoas em Madri, tentei imaginar o que teria acontecido se Felipe Melo não tivesse tentado cabecear a bola levantada por Sneijder, no lance que levou ao primeiro gol da Holanda e eliminou o Brasil nas quartas de final. Ele não teria atrapalhado Júlio César, que teria espalmado a bola para escanteio. Não haveria o descontrole emocional que se seguiu ao gol. Felipe Melo não agrediria o atacante Robben e não seria expulso. O jogo só seria definido aos doze minutos do segundo tempo da prorrogação, quando um segundo gol de Robinho definiria a vitória brasileira. Passaríamos fácil pelo Uruguai e venceríamos a Espanha no jogo do último domingo, com uma equipe motivada e autoconfiante. A festa seria no Rio, em São Paulo e no Recife, não em Madri…
Fantasias como essa ocorrem sempre que nos deparamos com a contingência da realidade, isto é, sempre que nos damos conta do quanto nossas vidas e destinos são, em grande parte, determinados pelo imprevisto. E se tivesse sido diferente? é a pergunta que sempre nos ocorre diante dos infortúnios pessoais, revezes ou catástrofes. Hoje, cada vez mais historiadores, influenciados por idéias trazidas das ciências da natureza, como as teorias do caos e dos jogos, admitem a enorme influência do acaso e das escolhas individuais sobre o curso da história. Se nos séculos XIX e XX, a tendência era buscar leis universais, totalizadoras, para todos os campos do conhecimento, hoje se reconhece que qualquer fato, natural ou social, decorre de um sem número de variáveis, e apenas algumas delas são acessíveis à investigação dos cientistas.
O marxismo foi uma das vertentes teóricas que julgou encontrar as leis universais das sociedades humanas. Bem ao estilo do século XIX – o século das certezas, quando as teorias totalizantes faziam sucesso e o cientificismo era cultuado –, o marxismo enxergava na luta de classes o motor da história: “a história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes”, sentenciou Marx no Manifesto do Partido Comunista. Todas as demais esferas da existência humana – cultura, religião, preconceitos, racismo, ódios, egoísmos, vaidades – teriam papel menor – superestruturas, no jargão marxista – diante do maquinismo daquele princípio essencial.
No fim do século XX, categorias totalizadoras, tais como a luta de classes, foram abandonadas por historiadores que redescobriram o prazer de historiar, isto é, de reconstituir, da melhor forma possível, o que realmente aconteceu, o que pensavam as pessoas enquanto acontecia, e quais eram as alternativas que tinham à mão. A luta de classes pode até ter importância, às vezes maior, outras menor, mas não é o único lugar da história.
Hoje, os melhores profissionais da História não tentam mais encaixar à força os eventos numa narrativa mestra ou em suas “leis”. Não estava escrito que as coisas iriam acontecer como aconteceram. Cada fato histórico é de uma complexidade única, pois as condições em que se deram – forças sociais, mentalidades, tecnologias, conjunturas ambientais e demográficas, personalidade dos líderes – são irreproduzíveis. Daí o fascínio atual pela chamada micro-história, isto é, a reconstituição de pequenos fatos – eventos esportivos, vidas pessoais, hábitos cotidianos, crimes, modas – que oferecem janelas para se compreender uma época. Admitir a complexidade não significa o abandono da teoria. Ao contrário, significa a completa abertura à teoria de outras ciências – demografia, epidemiologia, sociologia, antropologia, ciências ambientais, geografia, psicologia, matemáticas, entre outras – para arejar o conhecimento histórico.
Se apenas um único evento tivesse se dado de outra forma, a história poderia ter tido um curso diferente? As respostas a essa pergunta originaram uma brincadeira entre historiadores, chamada de história contrafactual. Trata-se de um gênero de ficção, na qual se tenta imaginar como seria se determinado fato não tivesse ocorrido, ou ocorrido de forma diferente (leiam, por exemplo, “E Se?”, de Robert Cowley, Ed. Campus). Apesar do caráter ficcional, escrever história contrafactual exige profundo conhecimento sobre o período em questão, para que todas as variáveis possam ser consideradas na construção de uma trama convincente.
E se Hitler tivesse morrido no atentado de 20 de julho de 1944? O ditador alemão foi salvo pelo tampo de uma mesa, na explosão de uma bomba posta por militares dissidentes em seu QG na Prússia Oriental. Se o Fuhrer tivesse morrido, o golpe militar anti-nazista do general Von Stauffenberg teria sido bem sucedido. O plano dos dissidentes era obter um cessar-fogo imediato das tropas aliadas, libertar os prisioneiros dos campos de concentração e restabelecer um regime constitucional. Naquela altura do conflito, tropas americanas, inglesas e canadenses já haviam feito o desembarque da Normandia e avançavam pelo território francês, enquanto os soviéticos, no front oriental, derrotavam os nazistas no leste europeu. Provavelmente, os aliados exigiriam a rendição incondicional e Stauffenberg não conseguiria evitar a ocupação da Alemanha. Contudo, o território alemão seria ocupado somente pelas tropas ocidentais. As forças soviéticas, a esta altura próximas do rio Vístula, na Polônia, não teriam tempo para penetrar mais a oeste. A Alemanha não seria dividida nas zonas de ocupação soviética e ocidental e, sobretudo, não seria destruída pelas raides aliadas e pelas sangrentas batalhas que ocorreram depois, na ofensiva de janeiro a maio de 1945. A União Soviética terminaria a guerra mais enfraquecida, com uma área de influência restrita a uma pequena franja da Europa Oriental, e o Ocidente teria que lidar com uma Alemanha derrotada, mas ainda intacta e economicamente poderosa, na qual o nazismo não havia sido completamente extirpado. O curso da Guerra Fria seria outro, e imaginá-lo requer mais e mais informações sobre um número crescente de variáveis.
E se recuarmos mais um pouco, e imaginarmos o fracasso do Dia D, do desembarque da Normandia? Se as tropas anglo-americanas não tivessem conseguido fazer a cabeça de ponte no norte da França no dia 6 de junho de 1944 – por exemplo, por causa de uma tempestade, muito comuns no norte da Europa nessa época do ano – os alemães, precavidos, teriam reforçado suas defesas a oeste, impedindo tentativas posteriores. A Alemanha teria, de qualquer maneira, perdido a guerra, pois um conflito prolongado como aquele acabaria por exaurir seus limitados recursos humanos e materiais. Sem um front ocidental, a guerra teria se arrastado ainda mais, possivelmente até 1950. Como, desde 1945, os norte-americanos tinham a bomba atômica, é improvável que não a usassem contra os alemães, para evitar a total ocupação da Europa pelos soviéticos. Contudo, a vitória na Europa seria, quase completamente, uma vitória de Stalin. Tanques russos ocupariam todo o território alemão, e mais a França e o norte do continente. Apenas a Grã Bretanha, Itália e Península Ibérica permaneceriam sob influência ocidental. A Guerra Fria ocorreria num novo panorama, agora com uma poderosa União Soviética controlando quase todo o continente europeu, destruído por uma guerra ainda mais arrasadora do que a que realmente ocorreu. Os desdobramentos futuros desse cenário seriam imprevisíveis e assustadores.
E se o príncipe regente Dom João não tivesse fugido de Napoleão Bonaparte, em 1808? A ausência de uma estrutura de Estado imperial no Rio de Janeiro e o vácuo de poder metropolitano teria levado à independência das capitanias e à fragmentação do Brasil, como na América Espanhola? E se o Visconde de Ouro Preto, em 1888, tivesse feito uma reforma política que extinguisse o Poder Moderador, instaurasse o federalismo e acabasse com as eleições censitárias? Teria evitado o golpe da República? E se, em 1930, a batalha de Itararé, aquela que ficou famosa porque não aconteceu, tivesse acontecido? Getúlio e seus gaúchos teriam amarrado seus cavalos no obelisco do Rio de Janeiro, ou o país teria vivido uma guerra civil? E se, ao invés do castelista general Geisel, as Forças Armadas tivessem escolhido o general linha-dura Silvio Frota na sucessão de Médici, em 1973? Sem a abertura política, como a ditadura enfrentaria a crescente mobilização da oposição, no final dos anos 70? Com um banho de sangue, como na Argentina? São cenários possíveis, que hoje poderiam servir de enredo para as mais ousadas ficções!
Luis Bustamante - Médico pediatra do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, doutor em geografia pela USP, professor de história do Colégio Nacional e autor dos livros "A Oeste das Minas" e "Triângulo Mineiro, do Império à República".

























Adoro esses comentários curtos cheios de modismos pós-modernos avessos às principais correntes teóricas do século XIX. Não existe o fim da história, mas também não existe uma conexão causal dos acontecimentos.
Um pequeno mas não despretencioso detalhe: Marx jamais afirmou que a Luta de Classes é o motor da história, isso é coisa do Althusser, vertente bastante questionada dentro do campo marxista.
Para variar, mais uma excelente análise acerca de problemáticas fundamentais presentes na historiografia atual que o Prof° Luís Bustamante soube expor de modo crítico e construtivo. O saber histórico, produzido por sujeitos sociais que vivem em um contexto singular e possuidores de valores, práticas de trabalho e modos de vida específicos, não pode mais aceitar leis deterministas/determinantes elaboradas tanto por pensadores conservadores quanto por os autointitulados “críticos de esquerda”, que encaram a sociedade de maneira simples e mecânica e, por isso mesmo, anulam as potencialidades que todos nós – sujeitos sociais capazes de agir e pensar por conta própria – possuímos nas diversas esferas de nossas vidas, incluindo, evidentemente, o atributo de mudar o curso dos acontecimentos a partir de mínimos detalhes.
No entanto, parece que o glorioso Raphael Machado não assimilou isso muito bem ainda, pois esquece de algo imprescindível para a lógica historiográfica: a teoria não deve ser desconectada da prática, muito menos separar-se desta última como se fosse algo isolado.
No mais, é um assunto para ser sim (e muito) discutido pelos profissionais da área.
Queria saber aonde o senhor Tarcilio encontrou algo no que eu escrevi que autorizasse o comentário de que teria desconectado a teoria da prática…
Caso não tenha percebido eu coloco esse artigo do Bustamente no campo dos pós-modernos e faço menção crítica ao “esquecimento” das conexões causais por essa vertente.
Volta lá no Weber qualquer hora e dá uma olhadinha.
Adoro esses comentários corporativistas: “é um assunto para ser sim (e muito) discutido pelos profissionais da área”.
A disciplinarização do saber, hehehe, o velho academicismo de sempre.
No mais, abraços.