O pierrô e a colombina

“Um pierrô apaixonado, / que vivia só cantando, / por causa de uma colombina /acabou chorando,
acabou chorando.” (Heitor dos Prazeres e Noel Rosa, na marcha carnavalesca Pierrô Apaixonado)

Ele pediu um beijo, mas ela não quis dar. Não que não quisesse, só que ele tinha que se esforçar mais, pensava ela, se ele queria realmente aquele beijo, afinal de contas, ela era uma colombina, tinha obrigação de fazer jus à fantasia. E assim iam juntos acompanhando o bloco. Ele pedia. Ela recusava. Ele fazia cara de dó. Ela sorria, apenas sorria. Caía muita água do céu. Já era terça-feira de carnaval. Último dia, pensava ele, e vou ficar sem o beijo dessa menina linda. Amanhã restarão os despojos e a chuva já era indício do fim. Era chuva para limpar a alma da cidade, como todos os anos, após os festejos. Só que veio cedo desta vez, fazer o quê. Acabaria o verão, acabariam os sonhos, as fantasias. Seriam cinzas de um amor que passou. Um amor inventado. Porcaria de chuva, era para vir somente na quarta-feira, assim praguejava, enquanto olhava para a menina linda que sorria para ele e lhe negava o beijo. Então vou embora, disse, num ímpeto próprio de labaredas de fogo, o que tornava ainda mais ridícula a sua roupa de pierrô. Vai, disse ela. Olha que vou, ameaçou. Não estou segurando você, vai! Eu sou uma colombina, não darei bola para um simples pierrô, disse a menina, cheia de graça. Ele se virou e começou a andar na contracorrente daquele mar de gente, confetes e serpentinas. Não viu a súbita tristeza no olhar da menina. Mas depressa, outro, um serafim, abordaria ela. Para o pierrô, o templo de faz-de-conta se fechara. Ainda ouviu de longe um batuque. Percebeu também um beija-flor entre as árvores. Talvez significasse um prenúncio bom. Quem sabe? E curandeiras para coração partido que lamuriavam na calçada. Eram essas as sentinelas do povo, o mesmo povo que se faz nobre-azul na folia dos carnavais. Ele olhou para elas. E elas olharam para ele. Olharam através dele. Logo atrás. Ele então se virou e viu a menina linda dando um tchauzinho para o serafim e vindo correndo em sua direção. Ele olhou novamente para as sentinelas do povo na calçada e elas davam boas risadas. Eram as curandeiras para coração partido, precisavam de boas risadas de vez em quando. Então a menina linda se aproximou e disse logo: toma o beijo, pobre pierrô. E ele pegou o beijo. Um beijo salgado de chuva, um beijo de colombina para purificar, com alegria e amor, o mundo.

Rodrigo Novaes de Almeida - Escritor e jornalista (Rio de Janeiro-1976), publicou, pela Multifoco Editora, o livro de contos “Rapsódias – Primeiras Histórias Breves” (2009), pela Mojo Books, a ficção “A saga de Lucifere”, e participou das antologias “Portal Stalker”, “Portal Fundação” e “Portal 2001” (org. Nelson de Oliveira).

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2 Comentários

  1. Rodrigo, parabéns pelas imagens doces que seu texto fez com que eu visualizasse.
    Parecia que Pierrô não obteria sucesso, mas, no fim das contas, ele fez jus à fantasia que envolve seu espírito. Um grande abraço, sou sua fã.
    Daniella.

  2. Muito obrigado, Daniella, pela leitura e pelas palavras aqui. Um beijo grande, Rodrigo.

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