O sorriso de Mr. Spock ou “O bom que poderia ter sido melhor”

A série “Star Trek”, produzida na segunda metade dos anos 1960 pela TV norte-americana, é considerada um marco do gênero Ficção Científica. Ainda hoje, mais de quarenta anos após a produção dos seus primeiros episódios, é assistida e cultuada em quase todo o planeta. Concebida por um produtor idealista, Gene Roddenberry, e produzida no auge da “Guerra Fria”, a série notabilizou-se por levar para as telas discussões científicas, filosóficas e sociais de elevada importância, tais como: a origem da vida, os limites do Universo, o teletransporte de matéria, o multiculturalismo cosmopolita e a tolerância. Em sua nave principal, a USS Enterprise, é possível encontrar personagens oriundos de nações consideradas, naquele momento, rivais, como americanos, russos e japoneses. A série ainda dedica uma posição importante para membros de grupos ou minorias que, até então, tinham pouca representatividade na TV, como é o caso da tenente Uhura, interpretada pela atriz negra Nichelle Nichols. Também merece destaque a presença de membros oriundos de outros planetas, como é o caso do enigmático Mr. Spock, interpretado pelo ator Leonard Nimoy. A USS Enterprise saiu da Terra para uma missão de paz em lugares remotos do Universo. O seu lema: “Ir até onde nenhum homem jamais esteve”.

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Apesar do sucesso da série, o que nem todos sabem é que ela poderia ter sido ainda melhor. Produzido em 1964, dois anos antes de a série estrear, o episódio piloto não foi ao ar e nem foi aprovado pelos executivos da TV estadunidense, pois foi considerado muito filosófico, “cerebral demais” e acima da média de compreensão do “cidadão comum”, de acordo com os padrões televisivos da época. Ou seja, não foi aprovado porque era muito bom. Nesse episódio/piloto (The Cage – a cela), o capitão Christopher Pike (Jeffrey Hunter), primeiro comandante da nave, é aprisionado por seres de um planeta distante, após uma missão de resgate, que era, na verdade, uma armadilha. Uma vez aprisionado, o capitão enfrentaria não só os seres daquele planeta, como também os seus medos, desejos e tormentos mais profundos. Os extraterrestres, em tudo superiores aos terráqueos, tinham como objetivo dominar Pike e fazê-lo unir-se a uma humana cativa, na tentativa de iniciar uma nova “raça” e salvar o seu mundo da extinção: uma clara alusão à possibilidade de origem alienígena da vida no próprio planeta Terra e à existência de vida inteligente em outros “rincões” do Universo, o que já havia sido proposto por Giordano Bruno, no século XVI. Ao situar a trama em uma cela (prisão/caverna) e ao enfatizar a “batalha interior” do capitão para se livrar da mesma, a série também se aproxima das proposições de Platão e de sua “Alegoria da Caverna”, na qual o filósofo descreve a situação de seres submetidos à ignorância, que pode ser interpretada como alienação nas suas mais diferentes manifestações: individual, social, política e espiritual.
O episódio piloto ficou na “geladeira” por quatros anos. Só foi exibido em 1968, como parte da trama do episódio duplo “The Menagerrie”. Os produtores, em uma “sacada” genial, transformaram o episódio piloto numa sequencia de “imagens recuperadas” que contavam a trágica aventura do capitão Pike, dentro de uma trama ainda maior. Algumas cenas são muito marcantes e seria uma grande injustiça privar os fãs da série de assisti-las, como, por exemplo, o primeiro (e talvez único) sorriso de Mr. Spock e a primeira experiência de teletransporte da série.

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A série que se tornou famosa e clássica estreou em 1966 e do elenco original, apenas o personagem de Leonard Nimoy (Mr. Spock) permaneceu. Para substituir o capitão Pike, surgiu a figura do capitão Kirk, interpretado por William Shatner, bem mais jovial, galanteador e televisivo. Embora a série clássica tenha sido cancelada prematuramente em 1969, o projeto recebeu novas versões e novos elencos e também deu origem a alguns “longas”, o que mantém viva a paixão pela série até os dias atuais.
Apesar de ser fã de todas as versões da série, pois em todas os seus princípios fundamentais foram mantidos, registro aqui a minha preferência pelo capitão Pike e sua tripulação, devido ao seu caráter ousado, questionador e filosófico e defendo a hipótese de que se os produtores tivessem sido mais corajosos, mantendo a ideia apresentada no piloto original, teriam oferecido ao público um produto ainda melhor. Mas reconheço que as considerações sobre o que poderia ter sido são complicadas… E se Syd Barrett não tivesse enlouquecido, como seria o Pink Floyd? E se Tancredo não tivesse morrido em 1985, como seria a redemocratização brasileira? E se…
De qualquer forma, a série continua “viva” e é pioneira na aproximação de muitos campos do conhecimento humano, como astronomia, filosofia, geofilosofia, geografia, política, ciências sociais, história, dentre outros, tendo, inclusive, antecipado questões abordadas em filmes consagrados, como “2001 – Uma odisséia no espaço”, “Star Wars” e “O Planeta dos Macacos”.

Imagens

1) Capa da versão VHS do episódio “The Cage” (“Como tudo começou”, para o público brasileiro)
2) O sorriso de Spock (imagem capturada do vídeo)

Paulo Irineu Barreto - Doutorando em Geografia Humana e Cultural no Instituto de Geografia e Mestre em Filosofia - Política e Social, ambos na UFU. É autor de “Ensaio Sobre The Dark Side of the Moon e a Filosofia: uma interpretação filosófica da obra-prima do Pink Floyd”.

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