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Destaques


- Jornalista e produtor cultural. É autor de duas obras: “Crônicas do Interior - Retratos de Minas” e “Nau à Deriva - A História do Teatro em Uberlândia (1908-2012)”, esta última ainda no prelo.

Os pés descalços da rainha

Nunca tive fixação por pés. Mas, alguns deles me chamaram a atenção no palco. Adriana Calcanhoto tem os pés lindos e os deixou à mostra em um show que assisti há alguns anos. Eram pés de princesa. Limpei nas cochias os pés da cantora Leny Andrade. Eram pés de condessa. E agora, em símbolo da liberdade e alegria de viver, Maria Bethânia, como de praxe, apresentou-se descalça pisando pela primeira vez nos palcos do Triângulo Mineiro. Eram pés de rainha.

Sempre tive o desejo de assistir a um show de Bethânia. Como ela é artista de poucas temporadas e turnês, nunca coincidiu um momento ou uma viagem em que eu pudesse vê-la. Quando, há alguns meses, o produtor Bruno Carvalho anunciou a sua vinda, meu coração acelerou e instalou-se a ansiedade, quebrada apenas neste fim de semana. E valeu a espera. Cada momento do show era um raio de arrepio em meu corpo. A grandiosidade artística daquele momento, por incrível que pareça, foi além do que eu esperava. E eu já sabia que seria muito.

Maria Bethânia é um destes seres iluminados, que pensamos não pertencer a este planeta. Ela empresta força a canções que, embora criteriosamente selecionadas pelo crível inquestionável de sua sensibilidade artística, não teriam a força que ela emprega com sua sempre admirável interpretação.

O público local saiu em êxtase desse show comovente. Aqueles que se preocupavam com a possibilidade de ela não visitar antigos sucessos se esbaldaram com as canções de seu irmão Caetano Veloso, de Gonzaquinha e de Roberto Carlos, que ela, com a majestade que lhe cabe, trouxe à cena em um vigor contagiante. A cada canção um coro emocionado vinha em respeitoso sussurro da plateia, trazendo ainda mais energia àquele momento ímpar. Do novo disco, as canções mais desconhecidas eram absorvidas pelo público em um raro e hipnótico silêncio.

Confesso que chorei. E lágrimas não me descem tão fáceis. Esse é o poder de Bethânia, de nos arrancar a emoção que ela transborda tão facilmente sob os refletores. Uma artista generosa que distribui para os espectadores a beleza da vida, do amor e da arte. Dificilmente, a menos que seja insensível, alguém sai deste espetáculo sendo a mesma pessoa. Bethânia nos redime, nos empresta seu olhar de rainha e nos mostra um mundo de poesia e musicalidade que traz novos paradigmas para a vida.

No caso de Uberlândia, fomos presenteados com a reentrada magistral na cena depois da lamentável partida de sua mãe, Dona Canô. Mesmo em se tratando de um triste luto para ela, a cidade foi contemplada com o marco deste retorno aos palcos, que trouxe uma Bethânia ainda mais intensa, ainda mais contagiante. Que ela tenha a mesma longevidade de Dona Canô e sempre nos traga esse momento sublime. De encantamento. De paixão pela vida, pelos palcos e pelo ser humano.

Que essa rainha nos presenteie sempre com sua presença magnânima.












3 Comentários

  1. Seu texto é perfeito e registra com exatidão tudo aquilo que representou essa apresentação histórica; também me senti um privilegiado por estar presente em momento ímpar.

  2. Lindo texto, lindo demais…. emocionante mesmo. Parabéns. Parece que estou vendo tudo aquilo que você descreve, tal a intensidade das palavras. Sou fã de Bethania há anos, fã, não, devota, isso, devota. Também choro muito durante os shows dela, parece que cada canção toca fundo o que temos de mais especial, a nossa emoção. E se me permite, vou “tomar emprestado” a sua última frase. ” Que ela tenha a mesma longevidade de Dona Canô e sempre nos traga esse momento sublime. De encantamento. De paixão pela vida, pelo palco e pelo ser humano.”

  3. Boa tarde.

    Texto fantástico! Maria Betânia é tudo isso qq acabei de ler. Ela tem a luz do amor em seu coração, que irradia e contagia a todos nós. Estive no show e como foi bom sentir o embalo de suas canções em uma noite primorosa e cheia de ternura…
    Parabéns, Carlos Guimarães Coelho!
    Um abraço,
    Ana Maria

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